A avenida sente o panfleto

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Antes de a primeira nota ser aberta, eu já sabia onde aquilo ia terminar. Não era vidência, era puro instinto. Quando a arte popular troca a ambiguidade pela cartilha, a vibração muda. E esta não mente. Bingo: Acadêmicos de Niterói e sua tentativa de propaganda lulopetista foram para o lugar que mereciam: o rebaixamento.

Há quem cite Gustave Le Bon para dizer que a multidão é emocional e facilmente conduzida. Sempre achei essa leitura preguiçosa. A multidão é emocional, sim, mas tem faro. Ela pode se deixar arrebatar; não gosta de sentir a mão que a empurra. Quando o símbolo nasce com dono, quando o enredo vem com intenção ideológica explícita, programática, panfletária, algo nasce quebrado. O encanto não resiste à pedagogia.

Vivemos na era dos sentimentalismos baratos. Indignações instantâneas, aplausos automáticos, comoções que duram menos que um feriado prolongado. O sentimentalismo barato produz estrago, inflamando, dividindo e espalhando faíscas. Mas não cria laço. É incêndio de palha, alto, vistoso e curto.

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Identificação profunda é outra coisa. Ela não berra, enraíza. Não mobiliza por choque; mobiliza por reconhecimento. É a identificação que cria vínculo aquilo que sustenta uma manifestação popular de pé. Sem vínculo, resta espuma. A espuma não atravessa a quarta-feira.

Ideologia rígida não combina com arte popular. Arte é sugestão, camada, convite. Ideologia é conclusão pronta, frase sublinhada, dedo apontado. Quando a conclusão chega antes da criação, o público deixa de participar. Sem participação não há entrega, inexiste adesão.

Propaganda funciona enquanto parece espontânea, simplesmente “tocando a alma”. Quando se exibe como propaganda, orgulhosa da própria intenção, perde mistério. Emoção dirigida demais soa ensaiada. Evidente que o público percebe o ensaio como truque. A avenida pode acolher crítica, política, provocação. O que ela não tolera é sermão com fantasia. Não é gabinete com confete nem palanque com pluma. É território de experiência compartilhada, que não aceita cabresto simbólico.

O rebaixamento não foi acidente técnico. Foi consequência estética e psicológica. A nota apenas formalizou o que já estava no ar. Claro, magnetismo não se decreta. No final, a avenida faz o que sempre fez. Até sorri para o discurso, dança com a fantasia, deixa passar o burburinho; mas, quando a música cala e a ficha cai, ela cruza os braços. E dá nota. Não para a ideologia, mas para a verdade que sobreviveu ao desfile.

A avenida pode até perdoar o exagero. O que ela não absolve é o sermão — ainda que venha fantasiado de redenção vermelha — disfarçado de samba.

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Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.

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