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Vocação para o fracasso

JOÃO LUIZ MAUAD *

Se você está sem assunto, nada como dar uma olhada no que anda escrevendo Marcelo Miterhof.  É infalível.  O economista do IPEA nunca nos decepciona.

Em sua coluna de hoje na Folha de São Paulo, Miterhof fala de uma irresistível vocação brasileira para o crescimento e de como é importante a ação do governo como indutor do desenvolvimento.  Mas deixemos que ele mesmo nos fale:

“Um país continental e populoso, como o Brasil, que ainda tem renda média e mal distribuída, tem “vocação para o crescimento” porque crescer não apenas é algo que deve ser relativamente fácil de acontecer como também é um chamado que precisa ser atendido para transformá-lo num lugar melhor de viver.

Crescer deve ser fácil porque o Brasil depende primordialmente de seu mercado doméstico para colocar isso em prática. Basicamente, o gasto público -tanto em investimento em infraestrutura quanto em despesas correntes associadas ao estado de bem-estar social- é capaz de promover um mecanismo de multiplicação da renda que gera demanda -por TVs, computadores e outros itens básicos do consumo moderno que nem sempre toda a população tem acesso- e, por consequência, também empregos no setor privado.

Esse crescimento impulsiona o investimento, que faz a produtividade se elevar para fazer a produção atender ao maior nível de demanda, mesmo a pleno emprego. Conhecido como lei Kaldor-Verdoorn, tal mecanismo aponta a produtividade como variável pró-cíclica, isto é, aumenta como resultado do crescimento do PIB.”

Viram como é fácil?

De fato, enquanto houver capacidade ociosa, a demanda puxará a oferta, produzindo crescimento momentâneo, porém limitado.  Daí para frente, só com novos investimentos é que haverá crescimento.  E, infelizmente, caro amigo leitor, não há milagres em economia.  Digam o que disserem os arautos do keynesianismo, o que gera investimento é poupança, não consumo.

Não por acaso, o tamanho dos gastos dos governos é sempre inversamente proporcional à taxa de poupança.  Países com baixo gasto público e baixa carga tributária têm poupança alta e vice-versa.  Os europeus, por exemplo, que escolheram o caminho do “estado de bem estar” e consomem boa parte da renda nacional com impostos, há muito sofrem de baixíssimos índices de crescimento.  Por outro lado, economias com baixa carga tributária e, conseqüentemente, altas taxas de poupança doméstica, como a China e o Chile, têm aproveitado as ondas de bonança mundiais e obtido resultados alvissareiros durante anos a fio.

O Brasil tem uma carga tributária equivalente a quase 40% do PIB e uma taxa de poupança de 17% do PIB.  Inversamente, a China, com uma carga tributária perto dos 20%, dispõe de uma poupança doméstica que beira os 40%.  Não é difícil explicar por que aquele país tem conseguido taxas de crescimento fantásticas, desde que largou o modelo econômico comunista, enquanto nós continuamos voando como galinhas gordas.

Aqui, na terra de Macunaíma, desde longe confiamos que com uma bela retórica e um punhado de boas intenções resolveríamos todas as nossas mazelas, quando, na verdade, não se tem a mais vaga noção das suas razões.  Ao contrário, misturamos causas com efeitos e estamos conversados.  Continuamos esperando que essa entidade suprema e benfeitora (o estado) nos traga as soluções, sem percebermos que ela é, ao fim e ao cabo, o principal problema.

Por mais incrível que isso possa parecer a alguns, sem uma profunda revolução econômica, que leve o Brasil para algo próximo do liberalismo clássico, não haverá solução eficiente e duradoura para o crescimento brasileiro, e continuaremos a remar contra a maré, esperando que os governos, como num passe de mágica, se tornem eficientes, incorruptíveis e (suma utopia!) passem a gerar riqueza, no lugar de subtraírem-na da sociedade.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Instituto Liberal

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