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A tirania na Rússia e a nova onda geopolítica

O atual presidente da Rússia Vladimir Putin é definitivamente uma das pessoas mais poderosas da história e indubitavelmente um dos líderes mais significativos do século XXI. Porém, nem por isso Putin é exemplo político e muito menos uma pessoa a quem se deve a confiança.

Putin hoje é reconhecido pelo ranking da The Economist de democracia como um ditador. A posição da Rússia no ranking está abaixo de países como Moçambique, Níger e Palestina. Em comparação aos países do continente americano, a Rússia tem hoje apenas um regime mais livre que Cuba (sob a ditadura castrista desde 1959), Nicarágua (há 16 anos com Daniel Ortega no poder) e a Venezuela (com o chavismo no poder há tanto tempo quanto Putin está na Rússia).

Segundo Putin, os maiores feitos de seu governo, em mais de 20 anos desde a sua ascensão, é a escalada do nacionalismo, louvando a história tanto da URSS quanto do próprio regime czarista derrubado por ela. Esse período culminou nos assédios recentes à Ucrânia, na Guerra da Geórgia em 2008 e na repressão violenta da Chechênia, república separatista com ampla maioria da etnia chechena (95%), enquanto a etnia russa responde a menos de 1% de sua população total. O centralismo absoluto de poder tornou a então Federação Russa um mero nome simbólico, visto que todos os governadores são apontados diretamente por Putin. Ao longo de seu mandato, foram contabilizados inumeros assassinatos e tentativas de assassinato de opositores do regime, como Alexander Navalny, Anna Politkovskaia e Alexander Litvinenko. O período também foi marcado pela estatização e prisão de diversos empresários russos que se recusaram a colaborar com o regime, além de uma ferrenha oposição à comunidade LGBT, que levou à descoberta da existência de um campo de concentração governamental para “reeducação de pessoas LGBT” na Chechênia. É possível incluir também uma larga expansão das atividades criminosas de hackers de origem interna no país.

É curioso notar como a justificativa para defender a divisão da Ucrânia serve convenientemente como uma via de mão única para Putin, que não reconhece a independência de repúblicas separatistas internas de minoria russa dentro de seu próprio país e os suprime com mão de ferro, como no caso checheno que já vitimou 150 mil civis.

Putin, além das situações descritas acima, é um claro opositor da influência ocidental em seu país e já é considerado por alguns cientistas políticos como o criador da quarta teoria política, chamada de eurasianismo, sendo um opositor claro do ocidente e nutrindo um evidente desprezo pela liberdade no âmbito geopolítico. No caso ucraniano, a motivação de Putin para o assédio, embora discursivamente tenha raiz nacionalista e étnica, é nutrida pelo interesse da Ucrânia em entrar na OTAN desde que o Euromaidan, ou revolução de 2014, rompeu com uma linhagem sucessiva de presidentes russófilos no comando do país. O seu âmbito antiocidental de política é um paradoxo curioso para alguém que admira o czarismo, que tanto buscou aproximar a Rússia da ocidentalização durante séculos.

Putin há anos submete e controla nações que integravam a URSS, nutrindo uma submissão militar influente o suficiente para ameaças de guerra concretas e diretas, além de uma afirmação claríssima de que a Rússia agora estaria pronta para exercer seu imperialismo para o mundo.

Embora alguns “conservadores” e “progressistas” tentem encontrar benefícios na nova onda geopolítica de Putin, o fato é que ela é questionável.

Putin não pode ser considerado “conservador” no sentido da tradição ocidental. Ele não liga para preservação de instituições, mas sim para reatar instituições dos “períodos gloriosos”, como as da própria URSS e até mesmo do czarismo. Ele não defende liberdade religiosa, já que devolveu o status de religião oficial da Rússia ao cristianismo ortodoxo, e controla com mão de ferro o patriarcado de Moscou, a ponto de os demais patriarcas da Igreja Ortodoxa realizarem manobras para reduzir o poder religioso de Moscou, como a recente criação do patriarcado de Kiev, apoiada pelos patriarcas de Atenas, Belgrado e Istambul, para separar a igreja da Ucrânia da interferência de Putin.

Pelo lado dos progressistas exaltados com seu “anti-imperialismo”, é seguro dizer que as declarações públicas de Putin já as desmentem claramente, uma vez que admitiu querer transformar as duas novas repúblicas independentes em fantoches moscovitas.

Caso não seja suficiente, basta lembrar como Putin persegue LGBTs, revoga direitos humanos a cada esquina, mata opositores políticos sem nenhum pudor por envenenamento e reprime direitos femininos como lhe convém.

Vladimir Putin hoje encarna um dos dois espíritos mais anti-ocidentais da atualidade, junto com a China de Xi Jinping, a qual inclusive realizou alianças militares recentemente. Qualquer defesa por parte de conservadores e progressistas de sua figura não passa de mera defesa de sua própria destruição.

*Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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