A vida em 140 caracteres
A geração twitter parece viver em 140 caracteres. Fica difícil, em espaço tão curto, explicar e compreender conceitos básicos. Tudo é telegráfico e não há necessidade de mergulhar no conhecimento. Assim, é mais fácil iludir e enganar, ou, ainda, criar e difundir falsas ideias. Se não há liberdade para justificar o argumento além de 140 caracteres, a petição de princípio – o famoso “é porque é” – ganha ares de legitimidade e deixa de ser uma falácia gritante.
Aceitar afirmações ligeiras, desprovidas de reflexão, é um dos maiores perigos para a liberdade. Joseph Goebbels dizia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Essa máxima ganha um poder monstruoso quando o espaço para o debate é restringido. É impossível existir liberdade de pensamento quando se limita a argumentação de forma tão draconiana. Seria, talvez, a declaração de óbito da dialética.
Esse texto não é, de forma alguma, contra o twitter. O que se pretende é alertar para os riscos da “twitterização” do pensamento. Nem se busca, tampouco, condenar a concisão. Italo Calvino, em seu famoso “Seis propostas para o novo milênio”, enunciou qualidades essenciais que deveriam ser salvas pela literatura, são elas: leveza; rapidez; exatidão; visibilidade; multiplicidade; e, consistência. Isto é impossível em 140 caracteres. Da mesmíssima forma, ninguém consegue refletir nem pensar em 140 caracteres.
No entanto essa limitação é um prato cheio para charlatães. Frases de efeito e palavras de ordem ganham força com a sua repetição sistemática em um veículo tão restritivo e instantâneo. Lembram-se do “Yes we can” ou do “lulinha paz e amor”? O twitter, e seus míseros 140 caracteres, pode ser muito útil para divulgar ideias vazias, mas é um desastre como modelo de pensamento e compreensão.
Refletir sobre essa questão é muito importante. Milton Friedman sempre disse que o entendimento do pensamento socialista é muito fácil e simplório. Se alguém tem um problema, bastaria legislar ou determinar que algum ente estatal resolva a questão. Todavia, o argumento no sentido de que qualquer cidadão seria muito mais beneficiado pela livre cooperação individual – sem a interferência do estado – é bastante sofisticado. Fica a questão: como explicar isso para uma geração que pensa em 140 caracteres?