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Uma visão liberal da guerra contra o ISIS.  Ou: cada vez que saem para defender a liberdade alheia, os americanos perdem um pouco da sua própria

Em tempo de guerra, poderes discricionários são frequentemente  atribuídos ao magistrado executivo.  A apreensão constante com a guerra revela a mesma tendência de manter uma cabeça muito grande em relação ao corpo.  Uma força militar permanente e um executivo cheio de poder não são companhias seguras para a liberdade. (James Madison)

As Forças Armadas Americanas começaram a atacar o solo Sírio.  E não são as forças armadas do presidente Assad os alvos, mas um grupo fundamentalista até pouco tempo desconhecido, que atende pela alcunha de ISIS.

Leio também que meu amigo Rodrigo Constantino apóia a intervenção dos EUA.  Escreve ele em seu blog: “A postura de xerife é mais um fardo pela liderança natural do que qualquer outra coisa. Vivemos sob a Pax Americana, como antes já tivemos a Pax Romana ou a Pax Britânica. O líder do mundo livre tem, sim, um papel de “polícia” a executar, e o perigo maior é quando tal liderança é pusilânime, relativista e ela mesma antiamericana, como no caso de Obama.

Não posso ser acusado de condenar a ação norte americana motivado por qualquer ranço antiamericanista.  Longe disso.  É justamente pela imensa admiração que nutro pelos Estados Unidos da América que me preocupo sempre que eles se envolvem numa guerra que não é sua. Se americano fosse, certamente estaria entre aqueles que discordam de mais uma intervenção armada longe de casa.

De fato, é cômodo e conveniente, para quem não é norte americano, esperar que eles sejam os xerifes do planeta.  Mas, e eles?  Evidentemente, muitos estão apoiando a iniciativa de Obama, ainda que sem a autorização expressa do Congresso, principalmente os “obamistas” e os neoconservadores.  Mas também há aqueles que não a veem com bons olhos.  É o caso, por exemplo, de John Stossell, que disse o seguinte, em seu último programa na FOX:

Os militares dos EUA são frequentemente solicitados para perseguir e matar terroristas, treinar forças armadas estrangeiras, proteger rotas marítimas, conter a China, manter o petróleo barato, proteger outros países de agressão, parar genocídios, proteger pessoas inocentes, transformar os Estados falidos em democracias, etc., etc. Será que isso vale as perdas de vidas e de dinheiro? E os novos inimigos que fazemos a cada intervenção dessas? Como a maioria dos planos de governo, guerra tende a não funcionar como os planejadores esperam. Nós, libertários, nos perguntamos o que faz as pessoas assumirem que o governo fará melhor desta vez?

Não acho exagero afirmar que, toda vez que eles saem de casa para defender a liberdade dos outros, perdem um pouco da sua própria.

Não sou só eu quem diz isso.  A História está cheia de exemplos, como nos lembra David Handerson, em excelente artigo sobre o tema.  Segundo ele, os impostos tendem a aumentar de forma crescente e, às vezes, exponencial, durante as guerras. Em 1915, por exemplo, a alíquota mínima do imposto de renda nos Estados Unidos era de 1% apenas, e a superior, de 7%. Em 1916, quando inicialmente cogitou-se que os Estados Unidos entrariam na I Guerra, as alíquotas duplicaram, chegando a máxima a 15%. Em 1917, confirmada a participação daquele país na guerra, a renda mínima tributável foi reduzida consideravelmente e a alíquota superior do IR saltou para 67%. Já em 1918, a alíquota inferior foi triplicada para 6% e a superior pulou para colossais 77%. Durante a década de 1920, a Secretaria do Tesouro trouxe todas as alíquotas para baixo, porém, elas nunca mais voltaram, nem de perto, aos níveis pré-1916.

No mesmo diapasão, durante a Segunda Guerra Mundial, a alíquota superior do IR, que por conta do New Deal já era de 81%, foi aumentada para 94% e, até pelo menos 1963, permaneceu em deslumbrantes 91%.

Mas não são só os pagadores de impostos que sofrem durante as guerras.  As liberdades civis também são aviltadas.  No tempo da Guerra Civil, por exemplo, o Presidente Wilson censurou a imprensa e espionou os próprios cidadãos americanos – nada muito diferente, aliás, do que fizeram Bush e Obama recentemente, durante a Guerra ao Terror. Já no período da Segunda Grande Guerra, o presidente Roosevelt, entre outros avanços contra a liberdade, encarcerou mais de 100.000 japoneses e descendentes, ainda que o diretor do FBI, J. Edgar Hoover, avaliasse que eles não representavam qualquer perigo.

Será que o ISIS é uma ameaça maior à liberdade dos americanos que o seu próprio governo, principalmente quando envolvido numa guerra?  De acordo co Nick Gillespie, parece que não.  Tanto o FBI quanto a Homeland Security afirmam que o ISIS não é uma ameaça real à nação americana. O grupo pode até ser eficiente no uso das mídias sociais para exagerar o seu poder, mas as estimativas de força de suas tropas não vão além de alguns milhares de combatentes.

Por outro lado, como bem sabe qualquer bom economista, quando os governos intervêm na economia, eles quase sempre causam mais danos do que benefícios. Uma das principais razões é que eles não têm – e não poderiam ter – todas as informações que seriam necessárias para planejar a economia.  Com efeito, quando os governos tentam intervir em outros países, eles não raro são ainda mais ignorantes sobre aqueles países do que são com o seu próprio. Tal ignorância pode trazer consequências absolutamente desastrosas.

A vocação do governo dos EUA para criar o caos no Oriente Médio com suas intervenções não é nova.  Seguem alguns exemplos desastrosos dessa política intervencionista:

A CIA ajudou a trazer o Saddam Hussein ao poder.

Em 1953, a CIA, juntamente com a MI6 da Grã-Bretanha, comprometeu-se com a operação Ajax para derrubar Mohammad Mossadegh, o democraticamente eleito primeiro ministro do Irã. Mossadegh foi deposto. Este golpe teria acontecido sem a ajuda dos EUA? Não há como saber. Mas sabemos que este foi um dos mais importantes argumentos para a tomada da embaixada dos EUA, em novembro de 1979, pelos xiitas.

Então, o governo dos EUA, à procura de aliados contra o Irã, aliaram-se a Saddam Hussein e o ajudaram durante a guerra Irã x Iraque.

Depois da invasão do Afeganistão pelas tropas russas, os EUA aliaram-se a ninguém menos que o famigerado grupo Talibã, que, depois de rechaçar os russos, acabou tomando o poder e tornou-se um dos inimigos mais mortais dos americanos, aliando-se à Al Qaeda e dando refúgio àquele que viria a ser o inimigo número um dos EUA, Osama Bin laden.

A própria ascensão do ISIS é resultado direto da balbúrdia que tomou conta do Iraque depois da deposição de Saddam Houssein pelos EUA, e da posterior retirada das tropas americanas daquele país, deixando ali um vácuo de poder que foi preenchido por gente muito pior que o ditador deposto.

Voltando aos economistas, eles dizem que toda ação gera conseqüências intencionais e não intencionais.  Por vezes, essas últimas podem ser muito ruins.

Resumo da ópera, segundo Handerson: as Intervenções dos EUA no Oriente Médio causaram, até agora, dois efeitos principais, os quais deveriam preocupar especialmente os defensores da liberdade. Primeiro, as intervenções para depor e/ou derrotar malfeitores tipicamente envolveram alianças com outros malfeitores e, raramente, resolveram o problema a que se propuseram resolver.  Em vez disso, elas causaram problemas ainda mais graves. Em segundo lugar, essas constantes intervenções têm desencadeado perdas de liberdade cada vez maiores dentro de casa. Será que é razoável acreditar que futuras intervenções colherão resultados melhores?

Trata-se de uma aposta arriscada, sem dúvida.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

7 comentários em “Uma visão liberal da guerra contra o ISIS.  Ou: cada vez que saem para defender a liberdade alheia, os americanos perdem um pouco da sua própria

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    25/09/2014 em 9:22 am
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    Caro João, eu é que agradeço pela pronta resposta e a fonte indicada.

    Espero que o amigo continue com o sucesso de sempre e possa continuar brindando o público com seus artigos geniais.

    Um grande abraço e hoje mesmo estarei indicando seu artigo!

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    25/09/2014 em 8:29 am
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    Caro João,

    Como lidar com o dilema de que quando o Estado passa a praticar genocídio contra o próprio povo, não há ninguém além de um país ou organização estrangeiros que possam barrar essa calamidade? Será que apenas sanções econômicas e diálogo são suficientes? Não digo que este seja o caso das intervenções americanas, mas você acha condenável como um todo a luta armada por direitos humanos em solo estrangeiro?

    • João Luiz Mauad
      25/09/2014 em 11:32 am
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      Meu ponto nesse artigo foi outro, meu caro. Não emiti juízo de valor a respeito de eventuais intervenções humanitárias. Meu foco foi no ponto de vista do cidadão/contribuinte americano, obrigado a arcar com os custos e as consequências de guerras que, na maior parte das vezes, não são suas, bem como no registro das consequências não intencionais dessas intervenções, muitas vezes piorando o que já era ruim.

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    24/09/2014 em 8:19 pm
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    Excelente! Liberal tem que ser mesmo um anti-neoconservador.

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    24/09/2014 em 9:30 am
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    Caro João: admiro muito seu trabalho e concordo em grande medida com o conteúdo de seu artigo. Apenas gostaria de fazer alguns reparos, a bem da verdade histórica e para ajudar com alguns subsídios que o amigo talvez possa analisar.

    1 – Saddam Hussein foi colocado no poder no Iraque muito mais porque tinha as conhecidas “habilidades” que são exigidas de todo candidato a homem-forte no Oriente Médio – busca pelo poder, violência desenfreada, habilidade política interna, crueldade, etc – do que por um complô da CIA. Acreditar que a agência de inteligência americana está por trás de tudo que acontece no mundo é diminuir ou mesmo ignorar outros fatores que guiam a história. Durante a guerra Irã-Iraque, quem deu apoio maciço ao governo iraquiano foram os soviéticos, franceses e árabes, sendo que os americanos, ao contrário, se viram as voltas com um apoio desastrado de bastidores ao Irá, – o chamado escândalo Irã-Contras.

    2 – Durante a guerra no Afeganistão, movida contra os soviéticos, os americanos repassavam recursos maciços para a guerrilha afegã via o serviço de inteligência paquistanês. O Talibã não existia na época, sendo criado depois da retirada soviética, justamente graças aos esforços do serviço secreto do Paquistão, que canalizou muitos dos recursos recebidos para a luta contra os soviéticos para seus próprios interesses, sobretudo a guerra contra Índia usando terroristas islâmicos.

    Agora, não resta dúvida que há muitos interesses ocultos em grande parte do que os governos americanos fazem, que seus apoios a forças estrangeiras são pessimamente direcionados, principalmente por omissão quanto ao que acontece depois que seus interesses imediatos são atingidos – vide o que aconteceu recentemente no Iraque, ou mesmo no Vietnã, e voltando ainda mais no tempo, durante a Segunda Guerra Mundial.

    Enfim, só queria contribuir de alguma forma.

    Parabéns pelo trabalho e grande abraço!

    • João Luiz Mauad
      24/09/2014 em 3:18 pm
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      Olá, Paulo. Quanto tempo, hein, amigo? Bom saber que você ainda perde tempo lendo esse escriba.

      Concordamos nos dois pontos destacados por você. Note que, no caso de Saddam, eu não me referi a um complô da CIA, mas apenas à sua prestimosa ajuda. De fato, talvez até ele nem precisasse dela. Quanto às origens do Taliban, você tem toda razão. Elas estão intimamente vinculadas aos paquistaneses, embora o financiamento dos mesmos, bem como o fornecimento de armas, tenham sido provisionados pela CIA. Sugiro a leitura do seguinte artigo a respeito:

      http://globalsecuritystudies.com/Price%20Pakistan.pdf

      Mais uma vez, grato por me ler.

      Abração,
      João

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