Tudo às Avessas por Aqui *

                                       RUBEM F. NOVAES **

* [Artigo originalmente publicado em O Globo, em 30.09.2013]

Livro recentemente divulgado agita a intelectualidade universal propondo uma nova concepção para o desenvolvimento econômico.  Nos idos da década de 70, Donald McCloskey, seu autor, lecionava na Universidade de Chicago e encantava, com seu porte alto e cabelos louros, as poucas meninas presentes ao curso introdutório de Economia. Era o “boa pinta” do Departamento de Economia. Muito criativo, culto e sensível, McCloskey  enveredou cada vez mais pelos mistérios da História e da Filosofia, diferenciando-se de seus outros colegas professores, mais ligados aos temas duros e materiais da teoria e da política econômica.

Apesar de professor brilhante e autor de uma produção acadêmica considerável, Donald, casado e com dois filhos, só ganhou fama internacional quando, através de uma cirurgia transformadora de sexo realizada em 1995, aos 53 anos, virou senhora Deirdre McCloskey.

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Já bem conhecida como Deirdre, McCloskey viria a produzir, em 2010, sua maior obra: “Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World”, tratando da burguesia que emergia nos séculos XVII e XVIII, concomitantemente à expansão do comércio e do capitalismo na Europa. Mais especificamente, o autor destaca em sua obra a influência que o reconhecimento das virtudes desta burguesia teve sobre o curso da História.

Respeitabilidade, até então privilégio da nobreza e do clero, se estendeu ao cidadão burguês, conferindo dignidade ao seu trabalho e estimulando o esforço comercial e produtivo. Daí, para a tese central revolucionária de McCloskey  foi apenas um pulo. Mais que fatores materiais, como a acumulação de capital, as inovações e o comércio internacional, foi a opinião positiva que se passou a ter da burguesia o principal fator explicativo do espantoso progresso verificado a partir do século XVIII .

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McCloskey vai um passo adiante e credita o progresso material que se verifica hoje na China e na Índia ao mesmo fenômeno ocorrido na Europa antiga. A liberdade para o comércio e o empreendedorismo teriam como pré-condição o reconhecimento por toda a sociedade de que os agentes interagindo nos mercados são virtuosos, sem o que surge todo um sistema estatal de intervenção direta e indireta na economia inibidor do progresso. Ideias, crenças, formando um ambiente propício, mais que investimentos ou comércio, explicariam a explosão do crescimento econômico verificado nestes países.

Ora, em contraste, o que vemos agora em nosso país é que nas diversas manifestações culturais, muitas das vezes impulsionadas por recursos estatais, empresários são sempre caracterizados como espertalhões, sonegadores de impostos, exploradores da mão de obra e/ou enganadores do consumidor. A classe média trabalhadora, por sua vez, é tratada com incontido desprezo por nossa intelectualidade de esquerda, chegando a musa petista Marilena Chaui a produzir um longo discurso explicativo das razões de seu ódio. Então, como querer o engajamento sincero da burguesia brasileira para o progresso, se nossa elite governante, ao retirar-lhe a dignidade, age exatamente às avessas de tudo o que preconiza McCloskey? Fica a questão!

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**Economista, com doutorado na Universidade de Chicago. E-mail: rfnovaes@uol.com.br

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