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Sobre Cuba e Especialistas

Ortega y Gasset resumiu de forma brilhante o perigo que representa a arrogância do conhecimento especializado quando asseverou que o especialista “não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é “um homem de ciência” e conhece muito bem a sua fração de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio”.

Lembrei do filósofo espanhol tão logo pus os olhos num artigo do renomado (pelo menos para os padrões brasileiros) físico Rogério Cezar Cerqueira Leite, no jornal Folha de São Paulo da última terça feira.  O texto pretendeu ser uma resposta ao jurista Ives Gandra, que, dias antes, havia escrito um outro artigo, naquele mesmo jornal, acerca da contratação, pelo governo brasileiro, dos médicos cubanos.

O indignado físico começa seu libelo em defesa da escravidão vivida pelos cubanos comparando a situação atual da ilha caribenha com a de uma guerra:

Quando um país é ameaçado, o seu governo atribui a um grupo de cidadãos, voluntária ou compulsoriamente, a missão de defendê-lo. Essa é uma prática universal. Com frequência, os salários desses soldados são insignificantes. Não obstante, se qualquer um se recusar a servir seu país, será considerado um criminoso.

Como se costuma dizer por aí, o papel aceita qualquer coisa e este senhor não será o primeiro, nem o último, a tentar justificar, das formas mais tacanhas, a maneira como os tiranos de Cuba tratam os seus cidadãos.  Para não variar a cantilena de décadas, o doutor Rogério passa a culpar os Estados Unidos pela situação econômica e política daquele pequeno país:

Há mais de 50 anos, os Estados Unidos impuseram drásticas sanções econômicas contra Cuba, resultando na extrema pobreza daquele povo. Sua principal fonte de renda de então, a indústria de açúcar, perdeu competitividade e hoje está em frangalhos.

Para sobreviver e assegurar insumos vitais, tais como remédios, certos alimentos, combustíveis etc., conta Cuba quase que exclusivamente com a exportação de tabaco (charutos), rum e, intermitentemente, dos serviços prestados pelos seus médicos no exterior.

O físico repete o velho argumento comunista, segundo o qual as mazelas sofridas por todos os países que até hoje se aventuraram naquele sistema não são causadas pelo mau funcionamento do próprio sistema, porém resultado de interferências externas operadas por países opressores. Chega a ser engraçado assistir àqueles mesmos que sempre desdenharam do capitalismo, do livre comércio entre nações, da globalização, etc., queixando-se de que os problemas cubanos seriam resultado da falta de comércio com o ogro capitalista.

Ademais, exceto pelos EUA e talvez mais meia dúzia de países, Cuba é livre para transacionar com qualquer um.  Se o seu comércio é tão escasso e rudimentar, a culpa não é do embargo americano, mas da falta de produtos para a troca, consequência da baixíssima produtividade dos cubanos, que por sua vez resulta da falta de liberdade econômica e, principalmente, da ausência da propriedade privada.

Continuando sua peroração e tentando explicar o inexplicável, o acadêmico da Unicamp e membro do Conselho Editorial da Folha (!?) passa a analisar, especificamente, a questão dos médicos cubanos:

“Um contrato como esse que Cuba assinou com o Brasil não serve apenas para reduzir a miséria das famílias dos participantes do programa Mais Médicos, mas antes de tudo serve para garantir a sobrevivência de centenas de milhares de indivíduos daquele país. Pergunto àqueles que argumentarem que os recursos provenientes do programa Mais Médicos vão para o bolso dos “opressores”, baseados exclusivamente em hipóteses, sem evidências concretas, se sua atitude não poderia ser enquadrada naquilo que os juristas chamam de difamação.”

De fato, aqui tenho que concordar com o autor, pelo menos em parte.  “Sobrevivência” é o termo adequado para traduzir a miséria do povo cubano, que, impedido de trabalhar para garantir o próprio sustento, já que o governo o impede de ficar com aquilo que produz, precisa sobreviver com a pequena ração que seus tiranos lhe concedem todo mês, financiada, é claro, pela venda de serviços escravos e “doações humanitárias” vindas do exterior.

Por outro lado, só alguém muito cego não enxerga que, depois de alimentados os seus escravos, a maior parte desses recursos fica na mão dos opressores (sem aspas), que como todos os demais tiranos comunistas mundo afora, vivem com muito mais conforto e recursos do que seus súditos.

Ao final, o articulista resolve voltar suas baterias contra os poucos médicos que tiveram a coragem de escapar:

“Se meia dúzia de médicos cubanos oportunistas se valeu desse subterfúgio para se refastelar nas praias da rica Miami, às custas de um programa ignóbil da potência americana, não deveríamos enaltecê-la, mas deplorá-la, pois apenas 1 em 1.000 traiu o seu compromisso com o Brasil e com o seu povo. Quantos na sua própria família e em seu país vão sofrer por causa da fuga de cada inadimplente? Apoiar esses poucos infensos não é apenas uma falta de percepção da questão social envolvida, mas é, antes de tudo, falta de humanidade.”

Não, meu caro professor, indesculpável é dar apoio à barbárie que acontece naquela ilha há mais de cinqüenta anos.  Isso sim é falta de humanidade, além de total desrespeito pela liberdade alheia.  Escapar da tirania e da escravidão não é um ato de fuga, mas um ato de heroísmo, digno de efusivos aplausos.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

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