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Sobre a arbitrariedade esquerdista. Ou: Liberdade para mim, mas não para você

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A inconsistência intelectual da esquerda já é nossa velha conhecida.  Muitos chamam essa inconsistência de “duplipensar”, um conceito que George Orwell definiu como sendo a capacidade de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo.  Na verdade, desconfio que a esquerda sequer liga para as suas contradições.  A incoerência chega mesmo a ser tratada como algo desejável, já que um dos princípios basilares do esquerdismo afirma que “tudo é relativo”.  Não por acaso, a consequência dessa forma de pensar é quase sempre a arbitrariedade, definida aqui como aquilo que não segue regras ou normas; que não tem fundamento lógico; que apenas depende da vontade ou arbítrio do agente.  Querem um exemplo recente? 
 
De acordo com a revista People, vários estilistas americanos já declararam que, por motivos políticos/ideológicos, não irão ceder ou fornecer roupas para a nova primeira dama, Melania Trump. A designer de moda Sophie Theallet, que durante os últimos oito anos forneceu modelos para a senhora Obama, chegou a emitir uma nota à imprensa explicando seus motivos:
 

“A marca Sophie Theallet é contra qualquer discriminação e preconceito. . . .  Eu mesma, como imigrante neste país, tenho sido abençoada com a oportunidade de perseguir os meus sonhos nos EUA. . . .  Como alguém que celebra e se esforça pela diversidade, a liberdade individual e o respeito a todos os estilos de vida, eu não irei vestir ou associar-me de forma alguma com a próxima primeira-dama.”

No mesmo diapasão, o roqueiro Bruce Springsteen cancelou um concerto no Estado da Carolina do Norte, em protesto contra uma lei editada por aquele estado que proíbe condenações por atos de discriminação.  Segundo o artista, “Algumas coisas são mais importantes do que um show de rock e essa luta contra o preconceito e a intolerância – que está acontecendo enquanto escrevo – é uma delas… Esse é o meio mais forte que tenho para levantar a voz em oposição àqueles que continuam a empurrar-nos para trás, em vez de para a frente.”

 
Em ambos os casos, o que se nota é uma forte condescendência da mídia com as atitudes francamente discricionárias desses artistas.  Afinal, tratam-se de “boas causas”.  Até o momento, ninguém ousou levantar a voz contra essas decisões, mesmo porque elas estão amparadas pela Primeira Emenda, que garante o direito de livre associação, que inclui o direito de não prestar serviço a um cliente ou projeto que eleva, na sua opinião, um valor de que você discorda.  O problema aqui é que a mídia, os promotores de justiça e os formadores de opinião esquerdistas não costumam utilizar o mesmo padrão para todos.
 
Pegue-se, por exemplo, o rumoroso caso da senhora Barronelle Stutzman, uma florista de 71 anos que teve sua vida virada do avesso  – e seu negócio quase destruído – depois de, por motivos religiosos, se recusar a fazer a decoração para um casamento gay, no Estado de Washington.  Barronelle foi vítima da imprensa esquerdista em todo país e teve de se defender perante a justiça de pesadas acusações de preconceito e discriminação contra os gays.  Como esse, abundam nos EUA os casos de processos contra comerciantes e prestadores de serviço por motivos semelhantes.
 
O que a esquerda em geral não se dá conta é que ou a liberdade de expressão e associação vale para todos, ou não é liberdade.  Como bem resumiu Stephanie Slade, da Reason, “Direitos não devem ser garantidos apenas para aqueles que irão utilizá-los para defender valores com os quais você concorda. Eles também devem valer para aqueles que irão tomar decisões que você não consegue entender, por razões que podem até revirar seu estômago. O direito a livre associação e liberdade de viver de acordo com suas convicções, principalmente em relação a como você ganha a vida, não pode ser reservado apenas para estrelas do rock, designers de moda e outros esquerdistas poderosos, enquanto é negado aos demais, que não pautam suas vidas de acordo com a cartilha dita progressista.”
 
Eis a diferença entre o império da lei e a arbitrariedade.
João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.