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Só eles sabem o que é melhor para todos

JOÃO LUIZ MAUAD *

Que os índices de desemprego na França estão entre os maiores do mundo, não é novidade para ninguém, muito menos para os franceses.  No entanto, ao invés de tomar atitudes para melhorar a situação, desregulamentando o mercado de trabalho, por exemplo, o que o governo faz?  Justamente o oposto.  Coloca mais lenha na fogueira, digo, mandam ainda mais gente para as estatísticas dos desempregados.  Mas não se iludam, pois eles sabem o que estão fazendo, e o fazem para o bem geral.

Vejam esta notícia:

“Um tribunal de apelações de Paris ordenou esta semana que a cadeia de cosméticos francesa Sephora feche a sua principal boutique, localizada na Avenida Champs Élysées, às 21:00, irritando os vendedores, que aceitaram livremente a trabalhar até a meia-noite durante anos e, agora, correm o risco de perder seus empregos.

“Seguindo uma tendência da avenida mais famosa de Paris, a Sephora começou a estender seu horário de funcionamento em 1996. Seus perfumes de grife, maquiagem e outros cosméticos eram, até esta semana, vendidos até a meia-noite entre segunda e quinta-feira, e até 01h00 na sexta-feira e sábado.

“Citando leis trabalhistas que restringem o trabalho noturno, os maiores sindicatos da França processaram coletivamente a loja. Um tribunal administrativo deu ganho à Sephora no dia 6 de dezembro de 2012. (…) No entanto, o tribunal de apelações anulou a decisão no domingo, concordando com os sindicatos que a “atividade normal” da loja “não faz do trabalho noturno uma necessidade”, como a diz a lei.

“Os vendedores da Sephora reagiram com raiva à decisão do tribunal, alegando que os sindicatos “os haviam esfaqueado pelas costas.”

“Eu estou indignado com a forma como os sindicatos ganharam,” disse o vendedor Inesco Sampiecro à agência de notícias AFP. “Temos trabalhado desta forma por anos. Será que eles não se importam com os transtornos que isto vai nos causar? “

“Três dias antes da decisão do tribunal, os trabalhadores publicaram anúncio de página inteira em jornais franceses, afirmando que o fechamento da loja às 9h00 “ameaçava extinguir mais de 45 postos de trabalho”, já que a loja faz 20% de sua receita total durante a noite.

“Eu quero chorar”, disse Diane, outro vendedor, do lado de fora da sala do tribunal, no domingo. “Eu penso em todos os meus colegas de trabalho que vão perder os seus empregos e que serão arruinados por esta decisão  (…) tiraram o nosso direito de trabalhar, sem nem mesmo nos consultar.”

“De acordo com os líderes dos trabalhadores da Sephora, que ficaram contra os seus próprios sindicatos, os vendedores que trabalham até meia-noite faturam 50% a mais sobre o seu salário-base e são recompensados com o dobro do tempo normal de férias.”

Esse tipo de postura é típica do famigerado estado-babá, muito bem descrito por David Harsanyi, entre outros autores.  A síntese desse pensamento é a seguinte: as pessoas são incapazes de saber o que é melhor para elas e o governo deve, portanto, protegê-las de seus próprios desejos, necessidades e ignorâncias, bem como da ganância e da esperteza de empresários inescrupulosos. Somente o governo e seus especialistas são sábios, enquanto os cidadãos comuns são seres fracos e sem juízo, que devem ser eternamente guiados e protegidos para que não se machuquem.

Essa gente, que Thomas Sowell chama de “os ungidos”, imagina ter adquirido o preciso conhecimento sobre o que os demais podem, desejam ou merecem ter. Por conta disso, sentem uma necessidade irresistível de ditar o que deve ser feito, como deve ser feito e quando (até que horas) deve ser feito. Alguma força avassaladora os compele a nos proteger de nós mesmos. A ideia de permitir que as pessoas sigam o seu próprio destino está além da sua compreensão.

Como bem ensinou Adam Smith, para eles o indivíduo ideal não é um ser humano, com suas vicissitudes e idiossincrasias, mas apenas uma peça inanimada num tabuleiro de xadrez, que eles podem mover à vontade, de um lado para outro, da frente para trás. As “Babás” simplesmente não conseguem compreender os conceitos de livre arbítrio, acordos voluntários e responsabilidade individual.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Instituto Liberal

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