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Sincronismo das quedas de atividade econômica

Uma característica da recessão atual, uma crise de saúde, que tem impactos na economia, e não uma crise “somente” econômica, é o sincronismo das quedas de atividade econômica. Como a economia na maior parte do mundo foi praticamente “desligada” por um período, notadamente no segundo trimestre do ano, as quedas de PIB neste trimestre em comparação com os três primeiros meses do ano são de magnitudes próximas. Com exceção da China, onde a crise começou e o “desligamento” da economia ocorreu no primeiro trimestre de 2020, nos demais países o “pior trimestre da história” ocorreu entre abril e junho.

Como todos sabem, uma diferença da recessão atual para as demais é que o setor de serviços (principal setor da economia brasileira, por exemplo, com peso de mais de 70% da economia, e de vários outros países, principalmente avançados) foi muito menos afetado nas recessões mundiais anteriores. Já na crise de agora, com esse “desligamento” da economia, houve uma parada quase repentina em uma grande quantidade de atividades ligadas a este setor, como lojas, restaurantes, bares, hotéis, turismo, etc, em diversos locais do mundo.

Porém, de uma maneira geral e na maioria dos países, a forte queda do consumo das famílias, principalmente no segmento de serviços, não foi somente por causa do fechamento dos estabelecimentos, mas também fruto da preocupação das pessoas com o vírus e a pandemia, com uma cautela adicional das famílias. Isto é, as incertezas são bastante altas, e de várias óticas, da saúde também.

O Gráfico 1 mostra as taxas reais de crescimento do PIB na China (somente para esse país, no primeiro trimestre do ano), EUA, zona do euro, União Europeia e países europeus selecionados e o Brasil, sempre na comparação com o trimestre imediatamente anterior. União Europeia, EUA, China e Brasil correspondem a mais de 50% do PIB mundial.[1] Pelo gráfico, observa-se que a média de queda do PIB no trimestre mais impactado pela crise foi de 12,9%, sendo os EUA (-9,1%) e o Brasil (-9,7%) com a taxa menos negativa, e o Reino Unido (-20,4%) e a Espanha com as maiores quedas  (-18,5%). Porém, o ponto central da análise não é tanto quem caiu mais ou menos, e sim mostrar que as quedas são de magnitudes próximas, com recuos de dois dígitos ou quase isso.

O Reino Unido e a Espanha foram as exceções, com quedas bem mais fortes que os demais países ou agregados. Nos dois países a crise do coronavírus foi bastante forte, pois na relação taxa de mortalidade por um milhão de pessoas,[2] a Espanha é o quinto país do mundo com a maior taxa e o Reino Unido, o sexto (as taxas são 625 e 611, respectivamente). Só para efeitos de comparação, nessa classificação, o Brasil ocupa a nona posição (586) e os EUA, a décima (577), “empatado” com a Suécia.[3]

Em 2020, tanto as economias avançadas quanto as emergentes possivelmente vão sofrer as maiores quedas em suas taxas de crescimento nos últimos sessenta anos, segundo o relatório “Global Economic Prospects” do Banco Mundial de junho deste ano. Para a América Latina e Caribe, grupo a que o Brasil pertence, projeta-se que a região seja impactada com o maior recuo de crescimento das seis regiões[4] e também a recessão mais profunda das últimas seis décadas.

Passado o segundo trimestre, com esse sincronismo de queda de atividade econômica, espera-se que o pior já tenha ficado para trás e que a recuperação ocorra no segundo semestre do ano. Porém, uma fonte de riscos para diversos países é a redução e posterior eliminação dos estímulos fiscais. Uma das grandes questões no Brasil é a de como a economia vai se comportar quando o auxílio emergencial for diminuído e, depois, encerrado; nos EUA, sobre a questão do seguro desemprego; e também em alguns países europeus, quando programas de retenção de emprego, como o Kurzarbeit, na Alemanha, acabarem. Possivelmente o desemprego aumentará. Outro fator de risco é em relação à pandemia e seus impactos na economia (“segunda onda” do vírus, que poderia acarretar novas medidas de restrições, entre outras), que poderia modificar bastante o cenário de recuperação dos países.

[1] 52,9% do PIB mundial em US$ e PPP (paridade de poder de compra), segundo dados do FMI para 2019.

[2] Acredito que a variável taxa de mortalidade por um milhão de pessoas seja a principal variável para ser analisada. Olhar somente para o número absoluto pode gerar distorções, assim como o número de mortes é mais “confiável” do que o número de casos, dado questões de subnotificações e falta de testes. A taxa de mortalidade também pode gerar distorções, como San Marino sendo o país com a maior taxa de mortalidade, mas com 42 mortes, pois tem uma população bem pequena. Porém, feita essa ressalva, ainda acho a taxa de mortalidade por um milhão de habitantes a melhor variável, para poder controlar pelo tamanho da população.

[3] Dados acumulados até 03/09/20, segundo o site Worldometers.

[4] As outras cinco regiões são: Extremo Oriente e Pacífico, Europa e Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África, Sul da Ásia e África Subsaariana.

 

Marcel Balassiano

Marcel Balassiano

É mestre em Economia Empresarial e Finanças (EPGE/FGV), mestre em Administração (EBAPE/FGV) e bacharel em Economia (EPGE/FGV).