Sim, a bolsa está caindo, mas é hora de ter calma

Não costumo falar de mercado aqui no IL, tem muita gente melhor e mais informada do que eu dando dicas de investimento na internet.

Ocorre que vez por outra os movimentos de mercado começam a chamar muita atenção e passam a interessar até mesmo a um macroeconomista que acha que swap reverso é alguma coisa que não se deve comentar em público. Foi o caso desta semana, quando houve uma forte queda na bolsa que foi associada a uma nova crise por algumas pessoas. Curiosamente boa parte desses analistas até há pouco tempo consideravam os movimentos dos preços das ações irrelevantes para rapazes (e moças) latinos sem dinheiro no banco e muito menos em ações, mas isso é assunto para outro lugar.

A verdade é que movimentos nas bolsas importam, mas é preciso considerar a natureza desses movimentos. No caso em questão, interessa saber se o movimento é de curto prazo ou de longo prazo e se é localizado ou global. Quanto ao primeiro ponto não tenho muito a dizer; como (quase) todo mundo não sei se é uma gripe boba que passa rápido ou um novo episódio de Resident Evil. De toda forma, se for a segunda opção, preços de ações não vão ser sua maior preocupação nos próximos anos, salvo se for para vender e comprar uma “W-870 Shotgun”. Em relação ao segundo ponto, os dados até agora sugerem um fenômeno global, ou seja, se vier o fim do mundo não será por culpa da PEC do teto de Gastos.

Sendo um fenômeno global, resta saber se a intensidade por aqui é muito maior (ou menor) que em outros países. A página do Yahoo Finance (link aqui) lista 35 índices de preços de ações pelo mundo. Desses 31, havia dados disponíveis para sexta-feira antes do carnaval, 21/02/2020, e para quinta-feira, 27/02/2020. Dos 31, apenas o CBOE Volatility Index, também conhecido como VIX, cresceu no período, o que é natural por ser um índice que capta a volatilidade do S&P 500. Todos os outros índices tiveram queda no período e estão na figura abaixo.

As variações são mensuradas em moeda local, ou seja, desconsideram os efeitos de alterações do câmbio. Se o objetivo for comparar ganhos e perdas de quem colocou dinheiro em cada bolsa de valores, ignorar os efeitos das variações cambiais pode ser um problema sério, mas nosso objetivo é tão somente avaliar a reação de cada bolsa ao coronavírus. Repare que a queda do IBOVESPA, o índice usado no Brasil, foi maior que a média, mas não está muito longe (menos de um desvio padrão). Índices importantes Nasdaq e S&P 500 tiveram quedas maiores que a nossa.

Confesso que não conheço bem como são construídos esses índices e, sem olhar na internet, não consigo identificar nem mesmo de quais países são todos os índices. Desta forma, não dá para ir muito além de comparações com a média ou coisas do tipo. Para dar uma visão mais concreta do que está acontecendo, a figura abaixo mostra a variação de seis índices de diferentes países (lembre que é em moeda local). A escolha dos índices não tem um critério objetivo; na verdade foram os cinco índices que lembrei para fazer o post. Só depois percebi que seria mais adequado mostrar todos os disponíveis para reduzir problemas de viés na seleção dos índices. Como a figura já estava pronta, decidi colocar no post na esperança de dar uma comparação mais concreta para quem, como eu, não está acostumado com todos esses índices.

Como o leitor pode constatar, a figura com os índices e países selecionados não distorce o resultado de que a queda por aqui foi maior que a média, mas nada que assuste, e ilustra melhor nosso desempenho comparado ao de outros países. Caso discorde, não precisa ficar nervoso; apenas ignore essa figura e fique com a anterior.

Em resumo, até o momento a queda na bolsa por aqui parece acompanhar o que está acontecendo no resto do mundo. Claro que qualquer um pode especular que a partir daí problemas locais podem aprofundar a queda e comprometer a recuperação da economia, mas até agora esse tipo de conclusão não passa de especulação.

Um último registro é sobre o momento particularmente infeliz para um choque deste tipo. Nos últimos meses, com a queda dos juros, muita gente entrou na bolsa em busca de maiores ganhos. Isso é bom, mas, como estão acostumadas com o mundo da renda fixa, algumas dessas pessoas podem se assustar demais com a queda dos preços. Não sou analista financeiro, meu olhar é de um macroeconomista, mas, até pelo que li de quem entende do assunto, não é hora de vender no desespero. Tente manter a calma, se preciso tome umas doses de uísque ou um Rivotril e vá tentando ler para saber o melhor a ser feito. Sei que assusta, mas pode ser um bom aprendizado, afinal, se tudo der certo, investir em ações pode ser seu caminho para taxas melhores por muito tempo.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.