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Série “Espiritualidade e Pensamento Liberal” – Victor Grinbaum (Judaísmo)

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(Esta entrevista faz parte da série “Espiritualidade e Pensamento Liberal”. Para entender a proposta da série, leia o texto de apresentação no seguinte link: “Série Espiritualidade e Pensamento Liberal” – Apresentação)

Victor Grinbaum é jornalista e escritor.

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O que é o Judaísmo para você?

Para mim, o Judaísmo representa todo um conjunto de diretrizes não apenas relativas à fé, mas à ética e à moral individuais.

Mas isso é uma distinção? Quero dizer, você considera que outras doutrinas ditas religiosas não vão além de abordar a fé? Essa fé não traz para elas consequências relativas à ética ou à moral individual?

Sem dúvida que traz! Mas eu noto que, no caso do Judaísmo, existe uma espécie de tomada de posição: cada judeu se sente imbuído de uma missão individual que o coloca quase que como uma espécie de sacerdote. No caso dos que seguem a religião mais “ao pé da letra”, existe a crença em que do cumprimento de suas ações depende o bem-estar da Humanidade, mesmo dos que não são judeus. Como eu não sou muito religioso, eu penso de outra forma: como os meus atos afetarão positivamente a sociedade onde vivo, as pessoas que me cercam, etc.?

Embora não propriamente represente uma vinculação a alguma corrente específica, essa crença já é uma convicção, de algum modo, sócio-política. Indo além, entretanto: existe algo de explicitamente político no conteúdo produzido pela tradição judaica, entre Torá e Talmude? E no desenvolvimento histórico do Judaísmo, para além do Sionismo, como os judeus se portaram diante dos diversos partidos e movimentos sociais ao longo de sua história milenar?

Particularmente, eu acho complicado fazer leituras políticas de qualquer religião. Porque é uma tentação à qual quase todos cedem e cada um trata de puxar a brasa para o lado que pretende aquecer. Então, é muito comum para os judeus de esquerda pinçarem alguns mandamentos judaicos relativos à caridade e enxergar neles um rudimentar marxismo. Sei de muita gente que afirma com convicção que “a Torá é socialista”, e eu acho isso de uma estupidez tremenda. Ao mesmo tempo, eu ou qualquer judeu mais à direita poderíamos catar na mesma Torá todos os mandamentos que colocam o Homem (portanto o Indivíduo) como o centro de toda prática religiosa, ética e moral, e poderíamos dizer que “a Torá é libertária”, o que também seria uma estupidez. Uma coisa é fato: o judeu é extremamente politizado e eu acho que isso advém justamente dessa “missão” que a identidade judaica nos lega. Isso desembocou no sionismo e nas suas diferentes tonalidades ideológicas, mas pode ser percebido também na variedade de vertentes religiosas dentro do Judaísmo que não necessariamente têm um caráter político.

Isso quer dizer que o Judaísmo seria uma crença capaz de se compatibilizar com praticamente qualquer concepção política?

Exatamente, e isso muitas vezes é uma cruz (sem trocadilho!), porque é justamente essa pluralidade que é usada pelos antissemitas. “Vejam como esses judeus estão em todos os lugares. Eles são de esquerda e de direita, são capitalistas e comunistas, controlam tudo e todos…”

Não haveria então nada específico no conteúdo da tradição judaica que ajudasse a refletir sobre questões como Estado de direito, democracia representativa, economia de mercado, propriedade privada ou igualdade perante a lei?

Muito pelo contrário! Veja por exemplo os Dez Mandamentos. É uma obra-prima de concisão, é a constituição mais perfeita que existe. Ali estão os fundamentos para qualquer sociedade minimamente democrática e igualitária. As Sete Leis de Noé, que se destinam aos demais povos além do judeu e que constituem a única coisa “proselitista” no Judaísmo, são desdobramentos dos Dez Mandamentos, e também servem como base. Na verdade elas SÃO mesmo a base da Civilização Ocidental.

Devo entender que esses princípios, como é natural esperar de um paradigma geral de pensamento – como uma religião costuma ser para seu adepto – têm relação direta com as suas convicções políticas pessoais, ou as duas coisas evoluíram de forma mais ou menos independente? O que se solidificou primeiro?

Em grande parte sim. É bem verdade que eu me dissocio delas na questão da escolha individual. Por exemplo, uma das Sete Leis de Noé proíbe a “imoralidade sexual”. O Talmude é bem preciso quanto ao que seria esta imoralidade: homossexualismo, sodomia, etc. Eu sou fruto da minha época e evidentemente sou contra o cerceamento do direito de uma pessoa ser gay e viver como tal. Então nesse caso eu acho que a minha questão política vem antes da questão religiosa. Para mim, a religião é base, mas jamais um fim.

Como você sustenta, apesar desse fundamento básico para uma sociedade democrática, determinadas categorizações políticas mais específicas não são definidas pelo Judaísmo, embora os judeus sejam muito politizados. Como você vê isso no Brasil? Os judeus no Brasil têm alguma tendência política geral?

Até relativamente pouco tempo, se podia dizer que o judeu brasileiro (assim como o americano) era eminentemente de esquerda, indo da social democracia até o comunismo. Mas a virada de eixo que o antissemitismo deu a partir da década de 1970, migrando da extrema-direita para a esquerda, abalou isso. Hoje em dia eu arriscaria dizer que uns 80 % dos judeus brasileiros são de centro-direita.

Alguns críticos falam de uma influência judaica nas origens do Marxismo, inclusive pelas ditas origens do próprio Marx. O que você tem a dizer sobre isso?

 

Marx era de origem judaica, mas não era judeu no sentido mais estrito. Ele vinha de uma família extremamente assimilada e, portanto, distanciada do Judaísmo. E fica muito claro quando se lê Marx que ele tinha uma visão no mínimo depreciativa do Judaísmo (como de todas as religiões, aliás). E em alguns momentos ele é francamente antissemita. Mas a ligação dos judeus com o socialismo não vem da árvore genealógica de Marx, mas de outras questões, e eu sempre falo isso nas minhas palestras. Imagine o que era a vida de um judeu comum sob o tacão do Império Russo, assolados pela miséria, pelos pogroms (atos em massa de violência, espontânea ou premeditada, contra judeus, protestantes, eslavos e outras minorias étnicas, o termo se popularizou pela onda que varreu o sul da Rússia entre 1881 e 1884), pelas restrições de todo tipo a que eram submetidos. Imagine como o discurso comunista, com suas promessas de igualdade e paz universal, cairia nos ouvidos dessa gente. Se eu fosse um judeu do Pale no século 19, eu provavelmente seria comunista também, e isso explica a presença de tantos judeus na linha de frente da Revolução Russa. Mas não explica todas as perseguições posteriores, o antissemitismo que a União Soviética herdou e que jamais deixou de manter e alimentar. Outro fator foi a Segunda Guerra Mundial. Muitos judeus se sentiam gratos a Stálin e à URSS pela vitória sobre Hitler. Mas eram os judeus DE FORA da Rússia, claro! Os de lá de dentro, coitados, viviam o mesmo inferno que o restante da população. Tanto que a partir da década de 1970 houve quase que uma rebelião judaica por lá, quando os judeus russos tentaram emigrar em massa para Israel e o governo os confinou.

Por outro lado, Israel é vista como um sucesso em bases eminentemente capitalistas. A hostilidade de muitos segmentos da esquerda ou coletivistas ao país não teria algo a ver com isso?

O caso de Israel é bem emblemático: toda liderança sionista era socialista. Os sionistas-revisionistas, que eram anti-socialistas, eram literalmente caçados pelos demais socialistas. E foram esses sionistas-socialistas que não só fundaram Israel como Estado, mas que também antes ergueram quase todas as instituições que acabaram se tornando instituições do Estado: Forças Armadas, estrutura sindical, etc. E Israel foi governado por essa turma de 1948 até o final da década de 70. Logo, Israel era para ser exaltada pela esquerda como o mais belo exemplo de “viabilidade do socialismo”! Só que lá não existiu aquele ranço autoritário que permeou todos os demais governos socialistas mundo afora. O país tinha uma mentalidade socialista, mas nunca pintou na área ninguém disposto a coletivizar a produção à força, por exemplo. Quem quisesse trabalhar em esquema coletivo ia para um kibutz. Quem não topava esse tipo de vida (e eram muitos), podia comprar a sua terrinha e trabalhar em paz. Ou ser o que lhe desse na telha. E a partir da chegada de Menachem Begin ao poder (ele que era o símbolo dos sionistas-revisionistas), o país foi se liberalizando. Hoje é uma economia de mercado como poucas no mundo. Mas não acho que seja por isso que todos – em especial os esquerdistas – amem odiar Israel.

Não posso deixar de perguntar brevemente sobre sua visão a respeito dos conflitos em que Israel está envolvida (motivo de recentes tensões diplomáticas com o Brasil, inclusive).

Falar em “certo” e “errado” sobre algo tão intrincado como o conflito Árabe-Israelense é ser reducionista demais. Para fornecer um posicionamento simples sobre essa questão, eu só posso dizer que eu deixei de acreditar numa solução a curto ou médio prazo. O conflito ainda se arrastará por mais algumas décadas, infelizmente. E isso é algo com que Israel, seu povo e os judeus do mundo afora terão de aprender a conviver.

Curiosamente, existe uma imagem dos judeus como pessoas “endinheiradas” ou “pão duras”. É algo um tanto pejorativo e anedótico, mas de onde vem isso?

A questão dos estereótipos é muito antiga. Vem da Idade Média, quando os judeus eram proibidos de ter terras e só podiam lidar com o comércio e com as transações financeiras. O judeu primeiramente foi impelido para essa “tradição” e depois estigmatizado como usurário por conta dela. Mas o judeu tem o hábito de subverter tudo, então o raciocínio é sempre esse: “se vão nos obrigar a ser meros cobradores de impostos, então seremos os melhores cobradores de impostos do mundo”. “Se só podemos vender diamantes, ninguém terá melhores diamantes que nós”, e por aí vai… Outra coisa bastante subversiva do judeu é o humor. Nada é mais subversivo. E todas as piadas que você conhece sobre judeus “pão duros” foram criadas e espalhadas por… Judeus!

Finalmente, que benefícios a comunidade judaica, historicamente tão perseguida e hostilizada, pode especialmente colher ao sustentar por ideais os princípios de uma ordem liberal na sociedade?

O judeu passou dois mil anos exilado. Todo exílio começa amargo, para se tornar aceitável ao longo do tempo e terminar doce. O judeu alemão de 1930 era muito mais alemão do que judeu. O judeu polonês de 1935 tinha muito mais amor à terra polonesa do que à terra da então Palestina. Então a tendência é sempre essa. E o judeu sempre acaba contribuindo com a sua nação, até que algum novo projeto de poder surja e use o antissemitismo como amálgama. Essa foi a “rotina” dos judeus em todos os países do Ocidente nos últimos dois milênios. Então, enquanto existe uma normalidade democrática, o judeu está confortável, assimilado e trabalhando pela sociedade. Uma realidade liberal, a meu ver, é o “céu de brigadeiro” da condição judaica. É quando ela mais prospera. E o melhor sinal de deterioração desta normalidade é quando o antissemitismo aparece. É o que se vê hoje na França, na Ucrânia, na Argentina e, de um modo ainda tímido, no próprio Brasil. Foi por isso que a catalã Pilar Rahola chamou os judeus de “os canários da mina”, porque eles servem de termômetro da temperatura autoritária numa sociedade.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).

Um comentário em “Série “Espiritualidade e Pensamento Liberal” – Victor Grinbaum (Judaísmo)

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    21/03/2015 em 7:05 am
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    Parabéns pelo excelente trabalho.

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