Relação de causa e efeito


FRANCISCO LACOMBE *
'O gabinete do coletor de impostos', pintura
‘O gabinete do coletor de impostos’, pintura

Um aumento de gastos públicos só é visto pelos seus benefícios de pagar mais aos funcionários, sem entender que isto exige aumento de impostos, que dificulta o progresso e o crescimento econômico. Os gastos são imediatos, o aumento dos impostos vem a seguir. Uma parte da população nem percebe que paga imposto; alguns chegam a pensar que só os ricos pagam.

Nem sempre é fácil perceber essa relação. Por exemplo: imaginemos que um porto público seja privatizado. Com a administração empresarial, os empregados em excesso são dispensados, os investimentos aumentam, o porto passa a ter mais eficiência e produtividade. Os preços cobrados aos exportadores e importadores caem, o tempo de espera no cais diminui, aos poucos isto viabiliza uma série de negócios de comércio internacional que eram inviáveis com a administração pública e, em consequência, esses negócios passam a investir mais e contratar mais empregados, portanto, no conjunto, o emprego aumenta, a riqueza aumenta e o bem-estar da população cresce.

A população não percebe que isto tudo aconteceu por causa da privatização ocorrida alguns anos antes. Só percebe que a privatização “alienou um patrimônio” e dispensou empregados.

Outro exemplo é a privatização das telefônicas. Existem hoje mais de 200 milhões de celulares. Eram dois milhões na época da estatal. Quase 90% das residências hoje têm telefones, eram 19% antes da privatização. Sem a privatização o avanço nas comunicações teria sido mínimo porque o governo está superendividado e não tem condições de investir. Este avanço gerou enorme facilidade nas comunicações que aumentou a produtividade de uma infinidade de atividades e, em consequência, aumentou a renda.

No entanto, o povo não percebe a relação de causa e efeito entre a privatização e o aumento da sua renda, viabilizado, em grande parte, pelas facilidades de comunicação. Ironicamente, o governo Lula se vangloria do aumento da renda, beneficiando-se, entre outras coisas, de uma medida que ele sempre combateu: as privatizações, até mesmo na campanha para o segundo mandato.

Uma reforma na legislação trabalhista que desonere os custos empresariais irá, no médio prazo, tornar o País mais competitivo, estimular novos investimentos, criar novos empregos e gerar mais renda para a população.

O povo só percebe a diminuição de “direitos” dos empregados que se dá no curto prazo.

Em economia, planta-se hoje para se colher depois de alguns anos ou mesmo, em alguns casos, de algumas décadas. As relações de causa e efeito entre o que se planta e o que se colhe não são percebidas pela maior parte da população. Por isso, os governantes tomam decisões populares no curto prazo, mesmo sabendo dos malefícios que elas acarretam no longo prazo.

Os governantes têm todo interesse em perpetuar essa falta de entendimento, mantendo a população ignorante, porque só lhes interessam as próximas eleições e não as próximas gerações.

* PROFESSOR DE ADMINISTRAÇÃO

 

IMAGEM: WIKIPÉDIA
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