Reitoria da UFRJ, assuma sua responsabilidade e aceite as consequências

Após o horror que acometeu o Museu Nacional, reduzindo a cinzas muito de seu acervo e estrutura e comprometendo a preservação da memória histórica nacional e do patrimônio histórico-científico mundial, o ainda presidente Michel Temer esteve reunido com empresários e banqueiros. A intenção era discutir uma possível ajuda privada para a reconstrução e manutenção do museu.

Na terça-feira, os ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, da Educação, Rossielli Soares e da Cultura, Sérgio Sá Leitão, conforme registra a Época, criticaram a gestão da UFRJ, afirmando que não faltaram recursos destinados à instituição. Sá, por exemplo, frisou, com base em dados divulgados no próprio jornal O Globo, que o envio de recursos do MEC à universidade carioca aumentou nos últimos anos, à proporção que o repasse da universidade para a gestão do Museu Nacional diminuiu.

Entre 2014 e 2017, a UFRJ recebeu R$ 500 milhões a mais; a universidade aumentou suas despesas com custeio de pessoal e reduziu os repasses. Até agosto, apenas R$ 98 mil foram destinados ao incinerado bicentenário. A quem se pode, com justiça, acusar de descaso ou de manuseio indevido do orçamento? Diante dos flagrantes sinais de incompetência e potencial lesivo da gestão psolista de Roberto Leher na UFRJ, os banqueiros e empresários impuseram ao presidente da República uma condição para colaborarem: a edição de uma Medida Provisória para retirar o Museu Nacional da alçada da universidade.

Eles não acreditam no radical socialista e fundador do PSOL, nem nos seus subordinados que chegam até a constar dos quadros do PCdoB, para administrar o resultado de seus investimentos – e estão absolutamente certos em assim pensar. A universidade que, como outras parceiras esquizofrênicas, é palco para cursos sobre o “golpe de 2016” e manifestos políticos de quinta categoria, não mobiliza uma fração mínima da atenção que mereceriam os tesouros mais importantes sob seus cuidados.

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Michel Temer tem muitos defeitos e seu governo também. Não é justo, entretanto, fazer coro aos histéricos da esquerda e acusá-lo pelo que fez de certo. Os números demonstram que o teto de gastos, na verdade uma ferramenta algo tímida, conquanto necessária, de contenção das despesas públicas, não tem rigorosamente nenhuma conexão com o trágico destino do Museu Nacional. A iniciativa privada, afastada de qualquer atuação no Museu, muito menos é responsável. No momento em que sinaliza para uma solução – ou, antes, um remendo, pois o que foi destruído não pode ser solucionado -, há que se lhe dar ouvidos. Ela tem créditos.

O que não tem créditos é o psolismo que domina a UFRJ. A UFRJ não pode se escusar de sua culpa com base em sentimentalismo barato. Não pode se julgar no direito de apontar para terceiros. Entretanto, é o que faz, diante da ponderação do governo de que, quem sabe, ela deve ser responsabilizada por isso e de que o futuro do Museu deve ser retirado de seu poder – porque o passado já foi e não volta mais. Eis o que grasna a reitoria:

“Qualquer medida a fim de retirar da UFRJ o Museu Nacional representaria ato arbitrário e autoritário contra a autonomia universitária e a comunidade científica do país. O Museu Nacional não é uma instituição dedicada exclusivamente à guarda de acervo. Além da guarda dessa memória, da cultura do país e do mundo, ali se produz conhecimento, ciência de ponta reconhecida pela Capes com a nota 7, maior índice de avaliação possível para uma instituição acadêmica no Brasil. O Museu Nacional é uma unidade da UFRJ de ensino, pesquisa e extensão, cuja indissociabilidade é prevista no artigo 207 da Constituição Federal. O corpo altamente qualificado de docentes, pesquisadores, estudantes e servidores técnico-administrativos em educação do Museu jamais poderia se submeter a uma Organização Social ou qualquer outra instituição que não seja a UFRJ.”

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Arbitrário e autoritário… Autoridade tirânica, invencível, insuperável, é a autoridade da cegueira ideológica, da incompetência, da falta absoluta de senso de prioridades demonstradas pela gestão da UFRJ. Minha querida universidade,  a mesma que mantém o Canecão às traças; que tinha sido avisada pelo menos desde 2004 pelo então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, de que o museu “vai pegar fogo” – afinal, ele disse à época, “são fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”; que não admite fazer parceria com a iniciativa privada para dinamizar e proteger os nossos bens públicos e históricos, com o estúpido receio de transformá-los em “mercadorias”; ela é, personificada em seus “pseudogestores”, lamento dizer, a verdadeira responsável pela perda do que estava sob sua tutela.

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Em vez de demonstrar integridade, o reitor, nas primeiras horas após o incêndio, preferiu culpar o Corpo de Bombeiros pela incapacidade de apagar o fogo. Primeiro o governo, o teto de gastos, o neoliberalismo, agora o Corpo de Bombeiros… Vamos cessar de fantasias debiloides e de perseguir abstrações para imputar a elas uma responsabilidade moral que é concreta, próxima, patente, material, e que, até o momento, não pesou minimamente, sob a forma das esperadas consequências, sobre os ombros de quem merece.

A verdade é que há chamas ainda mais persistentes que o Corpo de Bombeiros jamais poderia anular: as chamas da teimosia covarde de Leher – e, em benefício da verdade, da dos reitores que o antecederam, inclusive no ciclo petista, que não demonstraram capacidade de mobilização para prevenir o que há 14 anos já se anunciava.

As chamas da inércia, da paralisia, da submersão no mais obtuso ativismo e no olvido do menor traço de eficiência. Luzia, o fóssil humano mais antigo do continente, sobreviveu a mais de dez mil anos; se sua destruição for confirmada, não terá sido páreo para a gestão da UFRJ – de todo modo, inegavelmente, uma adversária à altura.

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