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Rainha, zangão ou operárias: quem é você no enxame do digital?

“Somos desprogramados por meio dessa nova mídia [digital], sem que possamos compreender inteiramente essa mudança radical de paradigma. Arrastamo-nos por trás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Um enxame digital! Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências dessa embriaguez. Essa cegueira e a estupidez simultânea a ela constituem a crise atual” – trecho da obra No enxame: perspectivas do digital, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han.

As mídias digitais e as redes sociais trouxeram consigo a transposição de diversas fronteiras, sejam elas territoriais, estatais, econômicas ou sociais. Hoje, um jovem brasileiro pode aprender fotografia com um mestre americano e, ainda, a um preço acessível a um número muito maior de pessoas do que há apenas alguns anos.

Por outro lado, a rapidez da comunicação digital, ao mesmo tempo em que possibilitou a rápida construção de ídolos, a partir de uma postagem “viral”, por exemplo, também potencializou as reações a eventuais equívocos ou opiniões impopulares dessas mesmas figuras públicas que ajudou a criar. É a chamada “cultura do cancelamento”, uma forma de banimento ou boicote a um indivíduo que tenha cometido um equívoco ou emitido uma opinião adversa, polêmica. É uma forma moderna de ostracismo.

Na Grécia Antiga, por exemplo, o ostracismo ateniense era um dispositivo político para exilar ou banir da cidade-estado algum cidadão que representasse ameaça à ordem democrática ou a pessoas suspeitas de corrupção, tanto do espólio público, quanto da moral social. Anualmente, os atenienses reuniam-se na Ágora e, quando consideravam um indivíduo uma ameaça à comunidade, votavam seu afastamento pelo período de dez anos. A votação era feita por meio da inscrição do nome dos candidatos em pedaços de cerâmica que lembravam ostras e eram chamados ostraka em grego (“óstraco”, em português), donde vem o nome “ostracismo”.

Fácil perceber, portanto, que o ostracismo era, teoricamente, uma ferramenta de defesa do regime democrático. Ocorre que a democracia ateniense, vale lembrar, era reservada somente a homens livres, de pai e mãe atenienses, com mais de 18 anos de idade. Mulheres, escravos e estrangeiros não desfrutavam de participação política, de modo que somente um décimo da população participava do mundo político ateniense.

Conta-se que houve muitos casos de condenação ao ostracismo sem razão legítima, motivados apenas pela falta de popularidade do condenado entre o povo. O filósofo Sócrates, por exemplo, foi acusado de corromper os jovens a quem ensinava seu método filosófico. Até mesmo Péricles, considerado o pai da democracia ateniense, chegou a ser bastante votado para ser ostracizado, mas nunca chegou a sofrer efetivamente o banimento.

Percebe-se, pois, que, desde a Grécia Antiga, eram utilizados mecanismos de exclusão de determinados sujeitos como forma de defender a democracia. Em prol da suposta defesa da sociedade democrática, vozes e opiniões impopulares foram silenciadas – poderia haver contradição maior?

Desse modo, o fenômeno do “cancelamento”, do banimento de pessoas em razão de suas opiniões, não é nada de novo sob o sol. Ocorre que as mídias digitais fazem com que tal fenômeno se dê mais frequentemente e ganhe dimensões significativamente maiores, em um espaço de tempo cada vez menor. É por isso que, ao mesmo tempo em que temos um mundo de possibilidade em nossas mãos, temos, na mesma proporção, ceifada a nossa liberdade de expressão.

Dito isso, creio que podemos ir além e questionar, ainda, o outro lado da moeda: aquelas pessoas responsáveis pelo cancelamento (muitas vezes, nós mesmos) são também livres em sua opinião?

Cada vez mais, nossa intimidade está sendo espionada, nossas opiniões sendo vigiadas, e nossa mente, condicionada. Mesmo dentro de casa, não existe mais meia furada, pijama rasgado, chinelo trocado – hoje tudo é “instagramado”’. Os padrões ideais – a tal “família margarina” –, que antes víamos apenas ao ligar a televisão, agora vivem sempre em nossas mãos, adentram em nossos quartos, nossas camas e até mesmo no momento mais privado no banheiro.

Abrimos o celular e somos bombardeados com novos produtos que precisamos ter, lugares a que precisamos ir, livros que precisamos ler, séries que precisamos ver…. E, sem saber como nem por que, passados poucos minutos, tudo aquilo já foi precisamente incutido em nossos desejos mais íntimos e em nossa mente.

O mundo conspira cada vez mais contra a nossa individualidade, e ser nós mesmos tornou-se um ato de rebeldia. Cada vez mais, e sem perceber, abrimos mão do ser, e buscamos apenas pertencer. Construir nossas opiniões sem sucumbir ao algoritmo é um ato de resiliência, e mantê-las, mesmo após um “cancelamento” coletivo daqueles que discordam de nós (ou também daqueles que não têm coragem de discordar destes últimos) é um ato de bravura.

No enxame do mundo digital, a tomada de consciência é o primeiro passo para escolher quem vamos ser: os zangões, que são sacrificados em prol da manutenção da ordem posta; as operárias, que seguem no automático, fazendo as tarefas de modo absolutamente irrefletido e condicionado; ou as abelhas rainhas, aquelas que colocam ovos, que plantam ideias que transformarão o futuro da colmeia.

No enxame do mundo digital, pois, quem é você? Seu lugar é fruto da sua livre escolha ou é aquele que escolheram para você?

*Lívia Dalla Bernardina Abreu é Associada I do Instituto Líderes do Amanhã.

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