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Que derrubem (ou queimem) todas as estátuas…

Escrevi este ensaio em junho de 2020, quando houve na Inglaterra uma onda de ataques às estátuas de grandes líderes identificados com a direita. Não me foi de muito esforço virar minhas críticas da óbvia absurdeza das atitudes juvenis para a enfadonha resposta conservadora, carregada daquela sempre presente tacanhez e pequeneza de visão que, como bem expôs G.K. Chesterton, parece se voltar a evitar que os erros do passado sejam corrigidos.

Duas negativas me foram dadas, por motivos diversos, e o ensaio não foi publicado. Confiei, no entanto, que, passados os tempos, nada mudaria; confiei em minhas próprias palavras: se há algo que é tradição entre as modas passageiras nas civilizações ocidentais, é a velha moda de queimar, derrubar, cortar cabeças de estátuas. E aqui estamos nós, de novo, um ano depois, no mesmo cenário: jovens mimados queimam estátuas, velhos mimados publicam resmungos em jornais.

Um ano depois, disponibilizo a você, leitor, minha reflexão sobre o tema: que queimem todas as estátuas, mas que deixem meu banco de praça na Pedro Lessa e minha grama verde na Redenção intactos.

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Foi com choque que os analistas políticos do mundo inteiro receberam as notícias de que turbas de jovens simpatizantes com o movimento Black Lives Matter vêm derrubando estátuas em Londres e que tentaram fazer o mesmo com a estátua de Winston Churchill em Westminster[1]. Apesar de ter sobrevivido ao ataque, a estátua de Churchill foi danificada no processo, o que gerou a ira da ala conservadora do pensamento no mundo, especialmente do Brasil. Artigos foram escritos, odes a Churchill foram feitas; para nossos conservadores, derrubar estátuas e monumentos é atacar a história da civilização e os jovens deveriam protegê-la a todo custo[2].

Contudo, não há muita surpresa nisso. Se há algo que é tradição entre as modas passageiras que vão e voltam nas civilizações ocidentais, esse algo é o fato de que jovens mimados derrubam estátuas.

Sim, jovens mimados derrubam estátuas.

Mas jovens mimados não só derrubam estátuas como derrubam governos, derrubam famílias, derrubam leis e escolas de pensamento, religiões e derrubam seus próprios pais. Ser jovem é confiar no novo e, por conseguinte, é derrubar tudo aquilo que é velho.

O confronto de gerações não só é algo natural, como é algo saudável. Ele acontecerá no seio de toda família, percorrerá os corredores de cada escritório, será visto em novas táticas e técnicas, seja no campo de futebol, seja no campo de batalha. Nas palavras de Burke, um estado desprovido de meios para alguma mudança é desprovido também de meios para sua conservação[3].

Toda tradição conforme vemos passou por diversas reformas até chegar à forma como vemos e que ao fim buscamos conservar. Toda tradição depende de indivíduos revolucionários que busquem o novo, e que enfrentarão por parte do velho uma ira desmedida que pode ser traduzida como mero apego à tradição por rasteira covardia. Muito pior que um jovem mimado é um velho mimado[4].

O velho, assim como o novo, luta para manter o seu valor, mas não necessariamente está certo somente por fazê-lo, e nem necessariamente está errado somente por isso. Assim como o novo deve olhar para o velho com respeito, o velho deve estar seguro de que já foi novo um dia e garantir espaço para mudanças respeitosas, para a continuidade íntegra dos tempos.

O mais impressionante em todo esse ataque às estátuas não é que os revolucionários as tenham elegido como alvo – eles sempre voltarão seus olhos para o que é material, vide a Bastilha –, mas sim que conservadores as tenham colocado no patamar de monumentos da civilização ocidental – e é exatamente esse o motivo que leva os revolucionários a quererem derrubá-las: o fetiche conservador com estátuas.

As estátuas realmente foram o pilar das civilizações romanas, realmente foram as colunas que sustentaram a soberba monarquia francesa, de fato foram as muralhas dos egípcios, a fortaleza dos kaiseres alemães. É por isso que os revolucionários que buscaram enfrentar esses governos sempre procuraram as estátuas, pois era realmente nas imagens grandiosas que residia o poder ilusório desses tantos déspotas; e o progresso exige que eles sejam sempre substituídos por novos déspotas.

Acreditar que a derrubada de estátuas ou de monumentos afeta de alguma forma a Inglaterra é não compreender de onde vem o poder desse país que, dia após dia, de forma tímida e muitas vezes tosca, mostra ao mundo que a civilização ocidental só é grandiosa porque emana de tudo aquilo que é pequeno.

É caminhando pela Trafalgar Square que um observador desatento começaria a afirmar que a tradição britânica que Burke tanto jurou proteger repousa nos descomunais leões que protegem a Nelson’s Column. É passeando por Westminster sem o olhar voltado às sutilezas da vida que um analista político acreditaria firmemente que a beleza que tanto importa a Scruton se traveste na sublime delicadeza de Westminster Abbey, na imponência com que se debruça o Big Ben sob o Thames ou mesmo no esplendoroso anjo dourado do Queen Victoria Memorial em frente ao Buckingham’s Palace. Mas esses são só os monumentos da coroa[5], os monumentos da grandeza, os monumentos dos turistas.

Uma caminhada mais atenta, no entanto, apresenta ao flaneur uma Londres um tanto quanto diferente. Ao passear pelo St. James Park e descansar para apreciar a vista, um observador provavelmente se sentará em um dos milhares de bancos de parque com pequenos memoriais voltados à lembrança de pessoas queridas por alguém[6]; e é neles que se sustenta a grandeza da Inglaterra que Hitler não conseguiu sobrepujar.

Londres é a cidade dos pequenos monumentos, e isso se estende por toda a Inglaterra. Monumentos erigidos por comunidades locais aos vizinhos que lutaram na Segunda Guerra Mundial, declarações de amor eterno espalhadas pelos bancos da cidade, os ônibus eternamente vermelhos, as fachadas vitorianas das casas, os pequenos jardins que separam a porta de entrada das casas das calçadas, os centenários pubs e suas histórias locais com seus personagens históricos absurdamente londrinos, os substanciais cafés-da-manhã, os lindos parques mantidos manualmente pelas vizinhanças, os cisnes da Rainha. Há uma Londres de monumentos de grandiosidade real que sustenta toda a aparente grandiosidade que concedemos a ela.

Compreender a timidez e a pequeneza das fundações da Inglaterra é o passo mais importante para a compreensão de todo o Império Britânico e de suas virtudes, bem como de suas vitórias, mas, mais ainda, da sua vitória na Segunda Guerra Mundial.

O que fez Churchill imenso não foi sua compreensão das táticas militares, como ele de fato compreendia, não foi ser um líder teimoso, como ele de fato foi, não foi evitar negociações com genocidas, não foi confiar numa vitória impossível. O que fez Churchill grandioso foi o fato de ele compreender o pequeno inglês, foi a sua percepção de que os ingleses jamais moveriam um músculo pelo Reino Unido, eles não dariam um twopence inglês pela Coroa Britânica, mas, apesar disso, um pequeno inglês jamais permitiria ver seus irmãos ingleses serem humilhados e escravizados por bullies estrangeiros. Dentre todas as incríveis características de Churchill, a maior delas foi a de compreender o espírito inglês como um verdadeiro englishman. E é no espírito inglês que reside todo o diferencial que levou a Inglaterra à vitória sobre Hitler.

A Operação Dynamo, que marcou a retirada dos soldados da praia de Dunkirk, é considerada por muitos uma das mais notáveis retiradas estratégicas da história militar; e é, de fato. Mas o mais incrível nessa operação, e mais simbólico e talvez irônico, é que, em meio ao bombardeio realizado pelas forças militares cientificamente avançadas de Hitler, com sua tecnicamente infalível Blietzkrieg e seus monstruosos Panzers, a retirada dos soldados ingleses foi feita por barcos pesqueiros, botes salva-vidas, barcos de passeio e embarcações à vela. Nas palavras do próprio Churchill, “era impossível afundar a Armada dos Mosquitos. Em meio à nossa derrota, a glória refulgiu para a gente da ilha, unida e invencível, e a história das praias de Dunkirk há de brilhar em qualquer registro que se preserve de nossos feitos[7]”.

E isso se demonstrou por diversas e diversas vezes durante a Guerra, de seu início até seu fim. Oito mil aviões Spitfire, tão temidos por Hitler, foram construídos em oficinas, galpões e depósitos de ônibus espalhados por toda a Inglaterra, pelas mãos de ingleses não-qualificados para tal serviço, mas movidos pelo amor não à sua pátria, mas aos seus irmãos – por tantas vezes também odiados – ingleses.

A Segunda Guerra Mundial não conta a história da vitória de Sir Winston Leonard Spencer-Churchill sobre Adolf Hitler, como infelizmente nossos conservadores brasileiros ainda acreditam. O conto da Segunda Guerra Mundial nos cativa com a vitória da união voluntária e privativa dos pequenos ingleses, todos, de Churchill à Rainha Elizabeth[8], contra Adolf Hitler e sua horda de mercenários patriotas. Muitos anos antes Shakespeare já previra isso em Macbeth, “seus soldados não os move o amor; ordens somente cumprem. Começou a notar que a dignidade do título de rei lhe envolve o corpo como faria a roupa de um gigante a um anão que a roubasse”. E, em toda guerra, é o nobre vestido com trapos aquele que triunfa.

Toda civilização que se uniu ao redor de seus ídolos pereceu perante líderes mais fortes. A eternamente fraca França e sua ideologia fanática não era páreo para Herr Hitler, e isso se demonstrou na derrota fácil por submissão operada pelos teutônicos. Enquanto isso, na ilha, Oscar Wilde debochava que “não conhecer nada sobre seus grandes homens é um dos elementos essenciais da educação inglesa”. Todos os homens que marcharam por este planeta e venceram o fizeram por motivos muito mais privativos do que patrióticos – o amor por coisas que muitas vezes sequer merecem esse amor, como sua esposa ou seu vizinho.

Enquanto os conservadores brasileiros consideram um ultraje a não eleição de Churchill para o cargo de Primeiro-Ministro após a Segunda Guerra Mundial, pois nada de ingleses entendem e tudo de política sabem, a verdade é que nada é mais natural. Como George Orwell bem explica em seu fantástico ensaio The Lion and The Unicorn, há uma inexplicável tendência dos ingleses em verem-se como iguais e agirem em conjunto em momentos de suprema crise, como uma família. Quando essa crise passa, no entanto, os vizinhos voltam a brigar, as famílias voltam a eleger suas ovelhas-negras, a frivolidade de seus habitantes volta a imperar. Os ingleses não se unem em torno de um desejo irrefreável de livrar sua nação de todos os males; eles se unem porque querem manter os pequenos vícios que sempre tiveram – e com isso, acabam por manter suas virtudes também.

A verdade é que a caminhada da turba de jovens mimados destruidores de estátuas não é preocupante. Eles derrubarão Churchill, e Thatcher, talvez Shakespeare, possivelmente a Rainha Vitória. Eles derrubarão todos os grandes feitos, grandes homens e grandes mulheres, assim como Hitler fez. Eles caminharão exigindo a renúncia da coroa, exigirão a volta ao continente, exigirão melhorias no welfare state e o fim de todos os vícios. Em sua caminhada, passarão direto pela estátua de Hodge, The Cat, gato alimentado com ostras por Dr. Johnson[9], frequentador assíduo do centenário pub Ye Olde Cheshire Cheese – que também não será derrubado jamais –, onde discutia ferozmente por trás de um ou dois pints com Edmund Burke e James Boswell nas reuniões do The Club, posteriormente frequentado por Adam Smith e Lord Acton – Churchill foi recusado por ser controverso demais. Eles não se darão conta da London Library, biblioteca privada criada por Charles Dickens, Thomas Carlyle e John Stuart Mill para competir com a British Library, que teve como membros Virginia Woolf, Charles Darwin, Arthur Conan Doyle, George Bernard Shaw, T.S. Eliot[10] – e Churchill, que se tornou Vice-Presidente da biblioteca a convite. Eles jamais atacarão o chá da tarde, ou a paixão dos ingleses por cachorros, jamais atingirão o bacon defumado, o humor autodepreciativo ou o sistema de medidas ridículo e ultrapassado que utilizam. Sherlock Holmes está à salvo, James Bond e os Beatles também.

Eles não enxergarão nada do que faz dos ingleses os ingleses, e, portanto, a Inglaterra está segura. Eles atacarão o Reino Unido, de fato, mas como G.K. Chesterton já disse, “o Império Britânico pode anexar o que quiser, mas nunca anexará a Inglaterra[11]”. Eles irão invadir Westminster um dia, mas eles nunca invadirão Picadilly.

O único fato realmente preocupante em tudo isso é que nossos conservadores passem desapercebidos por isso também. Que eles digam defender uma Inglaterra que não existe, e venham ao Brasil criar um Brasil que também não existe, que tentem forçar ídolos para derrubar os ídolos que já foram forçados ao brasileiro. O que o brasileiro precisa é de paz para viver e voltar a criar sua própria história, seu próprio espírito, com seus jeitinhos e chiados, com seus sertanejos e suas vaquejadas, seu açaí com camarão, seu forró e seu baião, seu mate no fim da tarde.

O brasileiro não precisa de estátuas, não precisa de monarquias ou de repúblicas, não precisa de aristocratas, não precisa de novas constituições, de economistas e de presidentes fortes, de legislações salvadoras, de teorias incríveis. Um dia provavelmente precisará, quando houver algo para ser conservado. O brasileiro precisa ser deixado em paz, precisa do fim das guerras culturais, do fim das análises macro, do fim dos comentaristas políticos e políticos profissionais; precisa da união, voluntária e privativa, em torno das coisas pequenas que sustentam uma civilização.

Se há um princípio do conservadorismo a ser respeitado, um princípio que todo conservador autêntico deveria conhecer e reconhecer, e defender, é o de que toda grande história começa com um homem pequeno em uma toca. Todo o resto é mera consequência.

[1] Ensaio escrito à época dos acontecimentos. No entanto, o ritmo das pautas bombásticas com fim determinado é por demais ágil, não conseguindo o autor acompanhá-lo. Tudo bem: As notícias são ultrapassadas; os princípios do conservadorismo, no entanto, são eternos.

[2] Alguns exemplos: https://revistaoeste.com/os-ataques-a-churchill-e-o-que-temos-a-ensinar-aos-ingleses/; https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/guilherme-macalossi/antifascistas-e-antirracistas-e-a-revisao-historica-de-winston-churchill/

[3] BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France. Oxford World’s Classics. p 21

[4] É de Shakespeare que se retira a ideia de que não necessariamente a passagem do tempo leva ao acúmulo de sabedoria, ou mesmo que o velho seria sempre mais sábio que o novo. “Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio”, disse o Bobo, em SHAKESPEARE, William. Rei Lear.

[5] Quando perguntada sobre o fato do Palácio de Buckingham ter sido bombardeado, a Rainha Elizabeth respondeu: “I’m glad we’ve been bombed. It makes me feel I can look the East End in the face.” East End é um dos distritos mais pobres de Londres.

[6] Quem viu o filme “Um Lugar Chamado Notting Hill” provavelmente deve se lembrar da aparição de um destes monumentos privados e secretos.

[7] CHURCHILL, Winston S. Memórias da Segunda Guerra Mundial – Volume I. Rio De Janeiro: Editora Nva Fronteira. p 310-311

[8] Considerada por Hitler, à época, “a mulher mais perigosa da Europa” por conta de seu apoio popular.

[9] Samuel Johnson, que em uma conversa com James Boswell explicou muito bem a grandiosidade da pequeneza inglesa: “Sir, if you wish to have a just notion of the magnitude of this city, you must not be satisfied with seeing its great streets and squares, but must survey the innumerable little lanes and courts. It is not in the showy evolutions of buildings, but in the multiplicity of human habitations which are crowded together, that the wonderful immensity of London consists”.

[10] T.S. Eliot, que uma vez declarou: “whatever social changes come about, the disappearance of the London Library would be a disaster to civilisation

[11] CHESTERTON, Gilbert K. Tremendas Trivialidades: Os Dois Ruídos.

*Igor Damous é advogado criminal.

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