Poupança vs consumo

JOÃO LUIZ MAUAD*

“’Parsimony, and not industry, is the immediate cause of the increase of capital. Industry, indeed, provides the subject which parsimony accumulates. But whatever industry might acquire, if parsimony did not save and store up, the capital would never be the greater.” Adam Smith

Escrevi no início da semana um comentário em cuja epígrafe havia uma frase de John Maynard Keynes.  Um amigo que leu aquele texto protestou: “precisava colocar uma frase do lorde intervencionista?” Sim, respondi, por mais que discordemos das idéias de alguém, sempre haverá alguma coisa aproveitável, especialmente quando se trata de um pensador inteligente.

E Keynes era, sem dúvida, um pensador inteligente.  Talvez por isso mesmo suas idéias sejam tão nocivas para o mundo, tal qual o foram as de Marx.  De todas as teorias enunciadas por Keynes, no entanto, acho que a mais destrutiva e daninha é aquela que contrapõe poupança e consumo.

A base dessa teoria é que os indivíduos, ao poupar seus recursos “em excesso”, contribuem para prejudicar os níveis de renda agregada da  economia.  Chamam a isso de “Paradoxo da Parcimônia”.  Segundo uma estranha lógica, algo que é benéfico para os indivíduos, as famílias e as empresas de modo geral, ou seja, a parcimônia e a prudência nos gastos e, conseqüentemente, o aumento dos níveis de poupança, seria ruim para a sociedade como um todo.

O crescimento da riqueza, longe de ser dependente da abstinência [poupança] dos ricos, como é comumente suposto, é mais provável que seja impedida por ela“, escreveu  John Maynard Keynes, em sua “Teoria Geral do Emprego, dos Juros e do Dinheiro”.

No mesmo diapasão, em seu “Tratado sobe o Dinheiro”, ele é incisivo sobre o aspecto negativo da poupança: “Quanto mais virtuosos nós somos, mais parcimoniosos, mais obstinadamente ortodoxos em nossas finanças pessoais e nacionais, mais a renda deverá cair” (…) “Poupar é uma ação do consumidor individual e consiste no ato negativo de abster-se de gastar toda a sua renda atual no consumo“.

Como conseqüência da disseminação dessa teoria e de sua grande aceitação nos meios acadêmicos, jornalísticos e políticos, a atitude do cidadão comum – que um dia acreditou nas virtudes da poupança, do trabalho duro e da disciplina como caminho para uma vida melhor – também mudou.  O homem massa de nosso tempo vive a vida sem pensar muito no futuro e, quando pensa, candidata-se a um emprego público (risos).

Graças a Keynes, é dominante a mensagem de que o consumo – não a poupança e a produção – é o motor da economia.  Essa filosofia da gastança, seja ela pessoal ou governamental, é mais do que apenas má teoria econômica. Trata-se da doutrina majoritária do pensamento econômico contemporâneo.

De acordo com essa doutrina, o governo, através de seus agentes iluminados, é quem sabe qual é o nível ótimo de demanda agregada para que a economia se mantenha sadia (quanta pretensão!!).  Em resumo, e utilizando as palavras de Paul Krugman, talvez o maior keynesiano vivo: “a virtude individual pode ser um vício público … tentativas de consumidores de fazer a coisa certa, através do aumento da poupança, pode deixar todos em pior situação”.

Ora, é certo que se alguém resolve poupar cem reais, está automaticamente abrindo mão de utilizar o dinheiro para consumo imediato.  Ocorre que só fazemos tal opção visando o consumo futuro.  Ninguém poupa por sadismo.  Daí porque quem poupa espera ser remunerado pelo sacrifício, o que é feito através da cobrança de juros. Em outras palavras, o poupador está fazendo um investimento.  Na verdade, a poupança não é outra coisa senão uma forma diferente de gastar os recursos, no sentido de que não será o seu dono quem os gastará diretamente, mas outra pessoa (tomador/investidor).

Muitas vezes, o aumento dos níveis de poupança pode ser induzido  por força de incertezas quanto ao futuro.  Isto geralmente ocorre em épocas de crises recessivas, quando os níveis de desemprego crescem e, junto com eles, o temor quase generalizado de que o nosso emprego possa ser o próximo. Nesta última hipótese, os keynesianos advogam uma intervenção drástica do governo, não só em relação ao aumento de seus próprios gastos, mas também para reduzir as taxas de juros artificialmente.

Só há um probleminha com esse raciocínio.  As pessoas passaram a consumir menos porque havia uma recessão instalada.  Logo, não foi o incremento da taxa de poupança a causa da recessão.  Pelo contrário, aquela é provavelmente conseqüência desta.

Por outro lado, como ensinou Jean-Baptite Say, é a produção que induz o consumo, não o inverso.  Não é por mero acaso que os maiores consumidores são exatamente os maiores produtores, sejam eles pessoas ou países.  Logo, o aumento ou redução da demanda agregada são efeitos do crescimento ou da retração da economia, não a sua causa.

Infelizmente, esta verdade, tão cristalina para qualquer Robinson Crusoé perdido numa ilha deserta, continua ainda encoberta por incontáveis sofismas, para alegria dos demagogos de plantão.

*ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

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