Por que os liberais não deveriam apoiar Jair Bolsonaro?

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A conturbada situação política do Brasil tem intensificado o debate em busca de soluções para o país. Muito tem se falado nas eleições de 2018 e na possibilidade de Jair Bolsonaro ser alçado como presidenciável, o que demanda uma análise sobre ele e suas ideias.

Inicialmente, cabe a reflexão: Bolsonaro é propositivo e apresenta soluções para um país mais próspero ou apenas reativo ao legado do governo petista? É difícil analisá-lo pois não se sabe qual o seu projeto para o país (se é que ele existe). Não há posicionamentos claros declarados abertamente. O que sabemos é retirado de discursos e entrevistas concedidas pelo parlamentar, o que exigiu muita pesquisa para o presente texto.

Assim, é possível afirmar que mesmo em declarações recentes, as falas do deputado fluminense expressam quase sempre opiniões genéricas. Então não sabemos se ele manteve seus posicionamentos ou se mudou de ideia, tampouco a profundidade e execução daquilo que ele defende.

Se por um lado Jair Bolsonaro se diz defensor de uma sociedade de mercado, na prática suas ações entram em conflito com o discurso. Por exemplo: historicamente ele é contra a privatização de estatais e se absteve de votar no ano passado no Projeto de Lei da Terceirização (PL 4330/04), temáticas defendidas pela maioria dos que anseiam por mais liberdade econômica.

Em recente entrevista para a rádio Gaúcha o político entrou em contradições: apesar de tantas críticas ao petismo, defende barreiras alfandegárias tal como Dilma já lançou mão em sua gestão. Trata-se, portanto, de uma mente aparentemente confusa.

No tocante às liberdades individuais, apesar de defender abertamente a revogação do estatuto do desarmamento como política pública de segurança, não há registros de defesa da descriminalização das drogas, por exemplo. Ademais, é abertamente contra a adoção de crianças por casais gays, pautas sólidas entre defensores da liberdade individual, o que nos faz estranhar a popularidade de Bolsonaro entre aqueles que se definem politicamente como liberais.

Vale lembrar que no sétimo capítulo, intitulado de “Fascistas”, da obra Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo (2013), do escritor Leandro Narloch, foi feita uma pesquisa para saber quais parlamentares concordavam com as ideias da ideologia italiana. As assertivas analisadas defendiam apego à coletividade em detrimento ao indivíduo, e Bolsonaro foi o segundo parlamentar que mais concordou com elas.

Em outro espectro, desconhecendo, ou ignorando os benefícios da livre imigração (recomendo fortemente esse site aqui), Bolsonaro se manifestou a favor de barreiras migratórias. Essa relativização de Direitos Humanos para alguns indivíduos aproxima Bolsonaro dos discursos marxistas, que por sua vez argumentam o caráter subjetivo dos Direitos Humanos, posição tão criticada por pensadores liberais.

Os defensores do deputado argumentam que ele é incorruptível, e que pode moralizar o país após a o legado de corrupção petista. No entanto, a argumentação de Bolsonaro não passa por uma veemente e fundamentada defesa da redução de poder de um Estado discricionário, contrariando estudos empíricos que demonstram que Estados menos interventores possuem menor percepção de corrupção

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Se por um lado Dilma caiu por não saber dialogar com o legislativo, Bolsonaro também não demonstra muito sucesso: há mais de duas décadas atuando como deputado ele se mostrou pouco influente, haja vista que nenhum projeto de lei de sua autoria foi sancionado e passou a vigorar. Além disso, nas comissões que faz parte no congresso, não tem sido indicado como relator de Projetos de Lei. Não se trata aqui de uma defesa por mais leis, pois sou crítico da produção legislativa brasileira, mas considerando que o parlamento propõe inúmeros PLs (em sua maioria ruins, ao meu ver), ele tem a intenção de aprová-los. Tudo isso enfraquece o protagonismo ao qual muitos querem alçá-lo, e que é necessário para um Chefe do Executivo.

A aclamação de muitos simpatizantes de Bolsonaro, portanto, não tem relação com seus posicionamentos econômicos, tampouco por uma eventual defesa às liberdades civis. Independentemente de suas ideias, Bolsonaro é uma voz de coragem num mar de oposição acovardada. Sua performance combativa, em um ambiente de desilusão e desmotivação, fruto de mais de uma década de lulo-petismo, cativa eleitores apolíticos. Tudo isso é fortalecido por um notável vácuo de lideranças, sendo essa a principal motivação do fenômeno “Bolsomito”.

É incômodo, vale dizer, a idolatria aos políticos – o que abre brechas para a ascensão de políticos populistas. O caráter messiânico atribuído a Bolsonaro, por parcela significativa de seus apoiadores, confirma que não há um plano, apenas a personificação de expectativas de dias melhores proporcionados por determinado político.

Vale ponderar que a ida de Jair para o PSC, partido que nas eleições de 2014 tinha em seu programa a privatização da Petrobrás, colocando uma “vaca sagrada” em debate, pode representar mudanças de pensamentos e o estabelecimento de um manifesto claro de intenções e propostas por parte de Bolsonaro. Por enquanto, além do apego, por parcela do eleitorado, da possibilidade do político ser um “salvador”, não vemos um projeto estruturado.

Recentemente Bolsonaro deu mais um indicativo de ser confuso ideologicamente, ao atacar a PEC 241 com argumentos bizarros e em seguida mudar seu posicionamento.

Pensando em longo prazo, bem resumiu Luiz Felipe Pondé ao dizer que “figuras como Marco Feliciano e o Bolsonaro estão dentro de um estereótipo […] que atrapalham a percepção do que seria uma Direita Liberal no Brasil.”

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