Por que é tão difícil se livrar da esquerda

O governo de Cristina Kirchner iniciado em 2007 e finalizado em 2015 muito se assemelha ao período petista no Brasil.

Num resumo resumidíssimo…

A amigona de Dilma Rousseff estatizou empresas e implementou uma política de subsídios nas áreas de transporte e energia (de 0,8% do PIB em 2006, para 4,8% do PIB em 2015), explodindo a dívida pública, impedindo que o estado realizasse os investimentos que prometia, o que piorou os serviços públicos. O calote da dívida anunciado em 2014 afastou ainda mais os investidores estrangeiros. A economia piorava a cada dia. O desemprego aumentava. A inflação (que em 2012 foi proibida de ser divulgada) corroía a renda dos argentinos, especialmente dos mais pobres, enquanto a presidente socialista criava literalmente centenas de órgãos públicos para abrigar milhares de partidários em cargos de diretoria, concedendo ao funcionalismo público como um todo sucessivos aumentos de salários e pensões.

Maurício Macri herdou um país onde cerca de 1/3 da população estava na pobreza (o pior número desde 1998), com 1,7 milhões de argentinos em condição de miséria.  

(Para saber os detalhes da tragédia econômica da Argentina, recomendo a leitura de O Mito do Governo Grátis, de Paulo Rabello de Castro)

Com o término do governo de Cristina Kirchner, a justiça argentina pode investigar a corrupção daquele período.

Noutro resumo resumidíssimo…

Praticamente todo o alto escalão do governo de Cristina Kirchner estava envolvido em grandes esquemas de desvios de dinheiro público.

O ex-Secretário de Obras Públicas foi preso após ter sido descoberto que ele havia enterrado US$ 8 milhões num terreno de um convento.

O ex-Ministro da Economia e o ex-Presidente do Banco Central foram denunciados por crimes de fraude monetária e lavagem de dinheiro.

O ex-vice-Presidente foi condenado a 5 anos de prisão por crime de corrupção.

Num cofre de banco em nome da filha de Cristina Kirchner, de apenas 26 anos de idade, a justiça encontrou US$ 4.6 milhões em espécie.

A própria Cristina Kirchner foi acusada de crimes de fraude monetária, corrupção, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Foi descoberto que ela havia transferido mais de US$ 500 milhões para o exterior por meio de contas fantasmas.  

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Um dos esquemas de corrupção levantados pela justiça argentina rendeu mais de US$ 340 milhões em propina para membros do governo de Cristina Kirchner. Outro, que rendeu US$ 56 milhões, foi delatado pelo motorista que documentava todas as entregas de dinheiro vivo que ele fazia ao casal Kirchner.  

Ao todo, a socialista responde a 12 processos criminais e aguarda julgamento de um pedido de prisão (fontes ao final do texto).

A despeito disso, no último domingo ela foi eleita vice-presidente da Argentina na chapa liderada pelo seu ex-Chefe de Gabinete Alberto Fernandéz, que fez questão de gritar “Lula libre” no discurso da vitória. O pior de tudo: Alberto e Cristina fizeram campanha prometendo fazer novamente − mas em maior nível − tudo que haviam feito antes.

A eleição na Argentina ainda causa um grande constrangimento aos liberais brasileiros por causa do fracasso do governo de Maurício Macri, visto como liberal.

As críticas dos liberais ao governo Macri podem ser resumidas ao gradualismo de suas reformas que, justamente por serem graduais, desgastaram demais sua popularidade e seu poder político, sem qualquer resultado positivo, fazendo-o apelar para o congelamento de preços, o que, obviamente, piorou ainda mais a situação.

Minha análise da tragédia argentina se entrelaça à realidade brasileira: é muito difícil – talvez impossível – consertar em poucos anos um país que esteve sob o socialismo.

Gosto de fazer uma analogia:

Imaginem uma pessoa com sobrepeso e diversos problemas de saúde decorrentes de péssimos hábitos alimentares. Um dia, ela procura um curandeiro que promete corpos saudáveis e bonitos em pouquíssimo tempo e sem grandes sacrifícios.

“Você tem de comer mais gorduras, mais carboidratos e mais açúcares, porque são essas coisas que darão energia ao seu corpo; e quanto mais energia, mais disposição você terá para gastá-la, o que estimulará os músculos sem que você precise ficar refém de academia e dietas. Essa coisa de educação alimentar e exercícios físicos são conceitos burgueses fracassados”, ouviu do curandeiro.

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Depois de certo tempo, com ela já se dando conta de que sua condição física havia piorado, o curandeiro passa para a segunda fase do programa:

“Você precisa fumar maconha e cheirar cocaína para que sua mente consiga te fazer enxergar a verdade de que você está muito melhor do que antes. Você precisa acreditar que está melhor”.

A paciente fez o que ele pediu, piorando ainda mais, mas conseguiu se livrar dele antes de morrer. Enfim, procurou um médico.

No caso da Argentina, o médico recomendou exercícios físicos que não cansavam e dietas que pouco cortavam gorduras, carboidratos e açucares. “Você precisa de um tratamento mais gradual, para seu corpo ir acostumando aos poucos com um novo estilo de vida”, argumentou o médico.

A Argentina mais uma vez tentou, mas não viu resultado positivo. Acabou voltando ao curandeiro.

O que tento dizer é que as providências socialistas sempre tornam mais graves os problemas já existentes e criam muitos outros. A esquerda corrói de tal forma as instituições, envenena de tal maneira a sociedade, que fica muito difícil reverter o quadro.

Seus atores investem tanto no aparelhamento do estado, na distribuição de direitos, na concessão de subsídios e na supervalorização dos funcionários públicos porque sabem que qualquer ação contra isso dificilmente será aprovada por parlamentares, justamente porque lhes causaria grandes prejuízos eleitorais.

Pense sob a ótica de um deputado:

Como votar em favor do fim de políticas de subsídios se elas jogam as empresas numa realidade para a qual não estavam preparadas, sabendo que a primeira reação delas será demitir funcionários?

Como votar em favor do fim de políticas de subsídios em setores de energia e transporte sabendo que os preços desses serviços iram disparar?

Como votar em favor de um programa de austeridade fiscal e de corte de gastos sabendo que ele requer a extinção de cargos e de órgãos do governo, privatização de empresas e demissão de dezenas de milhares de funcionários, alguns deles indicados pelo próprio deputado ou por seu partido?

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Como votar em favor do pagamento da dívida sabendo que a oposição de esquerda irá propagandear que ele ajudou a “tirar dinheiro do povo para dar aos banqueiros”?

Como votar em favor do corte de privilégios e da flexibilização das leis trabalhistas enquanto a imprensa, os artistas, os intelectuais e os professores universitários gritam que isso irá acabar com os “direitos dos trabalhadores”?

Para completar a tragédia…

Como esperar que um deputado vote em favor de medidas que endureçam o combate à corrupção sendo que o próprio deputado pratica esse tipo de crime?

Explica-se, assim, a razão de até parlamentares da direita se oporem a aprovar medidas propostas por um governo de direita.

Ao corromper o estado e o mercado, a esquerda perpetua sua força. A desgraça social e econômica por ela promovida faz o povo pedir mais e mais providências governamentais. Para isso, a esquerda pede poder para atuar contra os “sabotadores” e distribuir de forma mais “justa” as riquezas do país. Ganha. Em pouco tempo, o país se transforma numa Venezuela.

Mesmo que a oposição consiga tirar a esquerda do poder, ela muito dificilmente conseguirá consertar tudo o que foi feito de errado mantendo a popularidade. Na eleição seguinte, a esquerda volta ao poder com respaldo para fazer tudo de novo e muito mais.

Jair Bolsonaro gosta de dizer que cumpre uma missão divina. Então, é melhor ele entender que não bastará fazer um governo “melhorzinho” do que os anteriores. Ele precisa fazer nada menos do que um milagre.

O brasileiro comum não tem partido, não tem ideologia. Ele troca de candidato com extrema naturalidade. Muitos que outrora votaram em Lula e Dilma votaram em Jair Bolsonaro e não vacilarão em voltar ao PT se esse governo não lhes oferecer resultados reais. Se em três anos Jair Bolsonaro não conseguir enxugar os gastos, promover grandes obras, fazer a renda do cidadão comum crescer e o desemprego e a violência despencarem a olhos vistos, veremos o PT voltando ao poder em 2022 com ainda mais força.

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/04/pobreza-atinge-345-da-populacao-na-argentina-em-2016-diz-estudo.html
https://tvuol.uol.com.br/video/imprensa-acusa-cristina-kirchner-de-desvios-de-500-milhoes-de-dolares-04020C1B386ED8C95326
https://veja.abril.com.br/mundo/cristina-kirchner-vice-presidente-encara-doze-processos-na-justica/
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/06/ex-secretario-de-obras-publicas-da-argentina-e-preso-enterrando-dinheiro-20160614120003622360.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/19/internacional/1550538405_925907.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/17/internacional/1537215722_751630.html
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/08/23/cadernos-das-propinas-entenda-o-escandalo-pelo-qual-cristina-kirchner-e-investigada-na-argentina.ghtml
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/15/internacional/1468594801_998759.html
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João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.