Um país que lê pouco é um país que pensa com dificuldade

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A leitura é uma das ferramentas mais poderosas de emancipação individual já criadas pela humanidade. Por meio dela, uma pessoa pode atravessar séculos, dialogar com filósofos mortos há centenas de anos, conhecer experiências de outros povos e desenvolver a capacidade de pensar para além das circunstâncias imediatas em que nasceu. Ler é, em certo sentido, um ato de liberdade.

No entanto, os dados mais recentes sobre os hábitos de leitura no Brasil revelam um cenário preocupante. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, apontou que apenas 47% dos brasileiros com mais de cinco anos haviam lido, integral ou parcialmente, pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Pela primeira vez na série histórica do levantamento, os não leitores se tornaram maioria: 53% da população não havia lido sequer parte de um livro no período analisado. O dado se torna ainda mais expressivo quando se considera a leitura de livros completos. Apenas 27% dos brasileiros declararam ter terminado ao menos uma obra inteira nos três meses anteriores à pesquisa. Além disso, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em comparação com a edição anterior, de 2019. Esses números deveriam provocar uma reflexão nacional. Afinal, o problema da baixa leitura não diz respeito apenas ao mercado editorial, às escolas ou às bibliotecas. Ele está diretamente relacionado à qualidade da cidadania, à capacidade de pensamento crítico e ao próprio futuro de uma sociedade democrática.

Uma das ideias mais importantes da tradição liberal é a defesa do indivíduo como agente capaz de pensar e fazer escolhas. A liberdade, nesse sentido, não significa apenas estar livre de uma proibição estatal. Ser livre também exige autonomia intelectual. Um indivíduo incapaz de interpretar informações, comparar argumentos e questionar autoridades possui uma liberdade mais frágil. Pode até ter formalmente o direito de escolher, mas terá dificuldades para compreender plenamente as consequências de suas escolhas. Foi nesse sentido que o filósofo John Stuart Mill, em sua obra Sobre a Liberdade, defendeu a importância do livre debate e da diversidade de opiniões. Para Mill, uma sociedade que não permite o confronto entre ideias corre o risco de transformar suas crenças em meros dogmas. A leitura é uma das principais portas de entrada para esse confronto intelectual.

Quem lê não é obrigado a concordar com o autor. Pelo contrário: a leitura permite discordar com mais qualidade. Permite compreender um argumento antes de criticá-lo, conhecer ideias opostas e perceber que problemas complexos raramente possuem soluções simples. Uma sociedade de leitores é, portanto, mais difícil de manipular. O cidadão que não lê depende da interpretação dos outros. Quando uma pessoa deixa de ler livros, estudos, textos longos e argumentos desenvolvidos, sua visão de mundo tende a depender cada vez mais de interpretações prontas. Isso não significa que toda pessoa que lê pouco seja incapaz de pensar nem que todo leitor seja intelectualmente independente. Seria uma conclusão arrogante e equivocada. A experiência prática, o trabalho e a convivência social também são fontes importantes de conhecimento. Mas é impossível ignorar que a leitura amplia o repertório humano. O indivíduo que conhece diferentes interpretações sobre economia, política, história e filosofia possui mais instrumentos para formar suas próprias opiniões. Já aquele que recebe suas informações principalmente por meio de frases curtas, vídeos fragmentados e manchetes tende a ficar mais vulnerável ao discurso de quem consegue falar mais alto.

O filósofo Immanuel Kant resumiu o espírito do esclarecimento em uma expressão famosa: Sapere aude, ou “ouse saber”. Para Kant, sair de uma condição de dependência intelectual exigia coragem para usar a própria razão. Essa mensagem continua atual. Uma sociedade livre não precisa de cidadãos que apenas repitam as opiniões de seus líderes políticos, influenciadores ou grupos sociais. Precisa de cidadãos capazes de perguntar, investigar e discordar. A leitura é uma das formas mais eficientes de desenvolver essa capacidade.

A queda no hábito de leitura não é apenas uma impressão subjetiva. A pesquisa Retratos da Leitura mostra uma tendência preocupante: o percentual de leitores caiu de 52%, em 2019, para 47%, em 2024, enquanto a população de não leitores passou a ser majoritária. Entre as razões apontadas para a redução da leitura, a pesquisa revela um aspecto particularmente interessante. Entre os leitores, a principal justificativa para não terem lido mais livros foi a falta de tempo, mencionada por 55%. Entre os não leitores, a razão mais citada foi simplesmente não gostar de ler. Não basta dizer que o brasileiro não lê porque “não tem acesso a livros”. O acesso é um fator importante, especialmente para as populações mais pobres, mas o problema também envolve a formação de hábitos, o ambiente familiar, a qualidade da educação e a competição cada vez maior pelo tempo e pela atenção das pessoas. A pesquisa também aponta a influência crescente de outras formas de entretenimento e consumo de informação. Internet, redes sociais e aplicativos ocupam uma parcela cada vez maior do tempo livre, enquanto a leitura de livros perde espaço. O desafio, portanto, não é apenas colocar mais livros em uma prateleira. É fazer com que a leitura volte a ocupar um lugar relevante na vida das pessoas.

Um dos grandes erros do debate público brasileiro é confundir escolarização com educação. Ter mais anos de estudo é importante, mas frequentar uma sala de aula não garante, por si só, a formação de leitores, cidadãos críticos ou indivíduos intelectualmente independentes.

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O economista liberal Friedrich Hayek alertava para os perigos da arrogância intelectual, a crença de que uma autoridade central possui conhecimento suficiente para organizar toda a sociedade. A sociedade, para Hayek, é complexa demais para ser plenamente compreendida e controlada por um pequeno grupo. Essa percepção exige humildade intelectual, e uma das melhores maneiras de desenvolver humildade intelectual é ler. Quem lê história percebe que sociedades cometeram erros que seus contemporâneos acreditavam impossíveis. Quem lê filosofia descobre que perguntas aparentemente novas já foram feitas há séculos. Quem lê economia aprende que boas intenções podem produzir consequências desastrosas. A leitura ensina uma lição fundamental para uma sociedade democrática: ninguém possui o monopólio da verdade. Por isso, uma educação voltada apenas para a memorização de conteúdo é insuficiente. É preciso ensinar o estudante a buscar conhecimento por conta própria. Um aluno que termina sua formação acreditando que o aprendizado acaba quando deixa a escola dificilmente continuará intelectualmente ativo durante a vida. A verdadeira educação deveria formar leitores permanentes. Ler também é um exercício de responsabilidade individual

A perspectiva liberal também nos lembra que a transformação cultural não pode depender exclusivamente do Estado. É legítimo discutir políticas públicas para bibliotecas, escolas e acesso ao livro, mas seria um erro imaginar que um decreto governamental é capaz de criar, sozinho, o gosto pela leitura. A leitura é, em grande medida, um hábito construído na família, na escola, nas amizades e na comunidade. Pais que leem influenciam filhos. Professores apaixonados por livros podem despertar vocações. Amigos que recomendam obras ajudam a criar novos leitores. Clubes de leitura, bibliotecas comunitárias e instituições da sociedade civil também exercem um papel fundamental. Essa é uma dimensão importante do princípio da responsabilidade individual: cada cidadão pode contribuir para a construção de uma cultura melhor sem esperar uma ordem de cima.

O pensador liberal Alexis de Tocqueville, ao analisar a sociedade americana, destacou a importância das associações voluntárias. Para ele, uma sociedade democrática saudável não poderia depender exclusivamente do governo. Os próprios cidadãos deveriam se organizar e cooperar em torno de objetivos comuns. A promoção da leitura é um excelente exemplo disso. Um país de leitores não será construído apenas por ministérios. Será construído dentro das casas, nas escolas, nas bibliotecas e nas comunidades. A liberdade exige cidadãos capazes de pensar. Existe uma relação profunda entre leitura e liberdade. Governos autoritários, ao longo da história, compreenderam o poder das ideias. Por isso, regimes autoritários frequentemente perseguiram livros, censuraram autores e controlaram a circulação de informações. Uma população que conhece apenas uma versão dos fatos é mais fácil de governar. Já uma população que lê diferentes autores e perspectivas é mais difícil de controlar. Ela compara discursos, identifica contradições e exige justificativas.

O filósofo Karl Popper, defensor da sociedade aberta, argumentava que nenhuma instituição deveria ser considerada perfeita ou imune à crítica. Uma sociedade livre não depende de encontrar governantes perfeitos, mas de construir instituições que possam ser questionadas e corrigidas. Esse espírito crítico não nasce espontaneamente. Ele precisa ser cultivado. Cultivar a capacidade de questionar significa incentivar as pessoas a lerem autores com os quais concordam e, principalmente, autores dos quais discordam. Um liberal deveria ler socialistas. Um socialista deveria ler liberais. Um conservador deveria conhecer os argumentos progressistas, assim como um progressista deveria compreender a tradição conservadora.

A leitura não deve servir para construir trincheiras ideológicas, mas para ampliar horizontes. Mais livros, menos slogans. Vivemos em uma época de excesso de informação e, paradoxalmente, de pouca profundidade. Nunca tivemos acesso tão fácil a tantos conteúdos. Em poucos segundos, qualquer pessoa pode assistir a uma palestra, consultar um documento histórico ou conhecer ideias de autores de diferentes países. Mas acesso à informação não é o mesmo que conhecimento.

O filósofo e economista Ludwig von Mises defendia que uma sociedade baseada na liberdade depende da capacidade dos indivíduos de fazer escolhas e assumir responsabilidade por elas. Para escolher bem, porém, é preciso compreender minimamente o mundo em que se vive. Uma democracia formada por cidadãos que conhecem apenas frases de efeito corre o risco de transformar a política em torcida. O debate público passa a ser decidido não pela qualidade dos argumentos, mas pela capacidade de gerar indignação, medo ou entusiasmo. Por isso, incentivar a leitura é também uma forma de elevar o nível do debate nacional.

O Brasil precisa de menos certezas instantâneas e mais disposição para estudar. Menos slogans e mais argumentos. Menos dependência de “especialistas” que pensam pelo cidadão e mais indivíduos capazes de buscar conhecimento por conta própria. Os dados sobre a leitura no Brasil são preocupantes, mas não devem ser recebidos com pessimismo ou desprezo pela população. O brasileiro não precisa ser culpado por ler pouco, precisa ser incentivado e ter melhores oportunidades para descobrir o valor da leitura. O desafio é cultural e educacional. A formação de leitores deve começar cedo, mas não pode terminar na infância. Adultos também podem descobrir novos livros, novas ideias e novos interesses. Nunca é tarde para começar.

Uma sociedade liberal, livre e democrática não pode se sustentar apenas em leis e instituições. Ela precisa de cidadãos capazes de compreender essas instituições e de questionar aqueles que exercem poder.

Quando um indivíduo abre um livro, ele não recebe apenas informações. Ele entra em contato com outras experiências humanas, confronta suas próprias certezas e amplia sua capacidade de compreender o mundo. Talvez o maior desafio do Brasil não seja simplesmente aumentar um índice estatístico de leitura. O verdadeiro desafio é construir uma cultura na qual o conhecimento seja valorizado como instrumento de emancipação.

Como defendia Kant, é preciso ter coragem para pensar por conta própria.

Um Brasil que lê mais não será automaticamente um país perfeito, mas certamente terá cidadãos mais preparados para reconhecer falsas promessas, questionar o poder, defender suas liberdades e construir soluções para os próprios problemas. A liberdade política começa nas instituições, mas a verdadeira liberdade também começa na mente. Poucas ferramentas são tão poderosas para libertar a mente quanto um livro.

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Isaías Fonseca

Isaías Fonseca

É pecuarista e empresário, associado 2 do IFL-BH, estudioso e adepto do liberalismo clássico.

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