Por que o PT é o queridinho dos ricos?

Print Friendly, PDF & Email

A Atlas/Bloomberg divulgou nesta semana uma pesquisa de avaliação do governo em abril de 2026. Os dados acerca da renda dos eleitores afastam a narrativa de que a rejeição ao PT vem principalmente dos ricos. A maior rejeição aparece nas faixas intermediárias, enquanto as faixas superiores apresentam saldo mais favorável ao governo. Noventa por cento dos brasileiros ganham menos de R$ 3,5 mil, sendo que a maior rejeição ao governo (-33,4% saldo da aprovação) vem das faixas de renda familiar entre R$ 2 mil e R$ 3 mil.

Já nas faixas superiores, o quadro se inverte: entre quem ganha de R$ 5 mil a R$ 10 mil, a aprovação supera a rejeição, e, entre os que ganham acima de R$10 mil, o governo registra o melhor saldo positivo, com 48,5% de “ótimo/bom” contra 42,1% de “ruim/péssimo”. Além disso, quem ganha R$ 10 mil está entre os 5% mais ricos do Brasil.

Isso mostra que é falsa a narrativa de que a rejeição do PT é entre os ricos. Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (Psol), candidato apoiado pelo PT, teve desempenho relevante em áreas de maior renda. No segundo turno, por exemplo, venceu em apenas três das 57 zonas eleitorais da cidade, e sua maior votação porcentual foi no Bela Vista (um bairro de alto padrão), onde obteve 55,24% contra 44,76% de Ricardo Nunes (MDB).

Por que ricos podem ter uma visão positiva de governos que os menos abastados não têm? A aparente contradição de ricos apoiarem a esquerda desaparece quando abandonamos a ideia ingênua de que a política é movida apenas por altruísmo ou por conflito simples entre ricos e pobres.

Muitas pautas associadas à esquerda — protecionismo, política industrial, expansão estatal, regulação, estatais, controle das redes e redistribuição — não prejudicam igualmente todos os ricos. Pelo contrário, frequentemente beneficiam elites conectadas, setores protegidos, burocracias, grandes empresas reguladas e profissionais de alta renda que sabem operar dentro do Estado. Isso significa que, para o rico, votar na esquerda tem um custo baixo na sua vida. Quer dizer, votar na esquerda por ideologia, ou por pertencimento de grupo (pertencer ao grupo que realmente se diz preocupado com os mais pobres), por sinalização de virtude ou por convicção não vai afetá-lo tanto.

Quando o governo amplia suas atividades no fornecimento de serviços, isso não afeta diretamente o rico. Os indivíduos menos abastados precisam utilizar serviços estatais por necessidade. Já o rico usa por opção.

Se a qualidade da escola estatal for ruim, o rico consegue pagar uma mensalidade em uma escola privada. Se você gasta horas em filas de hospitais estatais, o rico pode pagar uma consulta em um hospital particular.

Deseja receber nossos conteúdos por e-mail?

* indica obrigatório

Ricos podem defender a desmilitarização da Polícia Militar: moram em bairros seguros e com bastante policiamento ou muitas vezes em condomínios com muros altos, seguranças privados e câmeras vinte e quatro horas. O pobre depende exclusivamente da segurança pública.

O aumento da inflação não pesa a mesma coisa para todos. Se a inflação faz o valor da compra do mês no mercado subir de R$ 800 para R$ 900, esses R$ 100 reais de aumento significam 6,7% da renda de uma pessoa que recebe R$ 1.500 reais — enquanto, para a pessoa que recebe R$ 10 mil, o aumento é de 1%. A inflação machuca muito mais o pobre.

Além disso, os ricos podem comprar títulos públicos que são baseados na inflação, podem mandar seu dinheiro para outros países ou investir em empresas que os retornos são maiores que a inflação. Já o pobre só tem o trabalho. Se ele não pode se mudar de país, ele fica preso e indefeso contra a inflação.

Funcionários públicos também estão inclinados a votar em candidatos que têm simpatia ou prometem manter ou expandir o setor público. Isso significa que seus empregos estão assegurados. No Brasil, é muito mais atraente trabalhar no setor público. Pessoas com mesma escolaridade e funções semelhantes, recebem 72% a mais que um trabalhador do setor privado. Os salários também crescem muito mais no setor público.

Para os megaempresários, isso também é benéfico, visto que a esquerda os protege da concorrência nacional e internacional. Já para o pobre, proteger empresas significa que ele vai ter acesso a menos produtos e produtos mais caros.

Proteger significa menor concorrência, menor concorrência significa maiores lucros para essas empresas em setores protegidos. Os empresários empregam muitas pessoas, e uma falência pode custar muitos votos dos trabalhadores revoltados com seus empregos perdidos.

Não à toa, um dos maiores oligarcas do Brasil, Rubens Ometto, tentou aproximação com o presidente Lula depois de sua vitória em 2022. Uma garrafa de vinho de R$ 5 mil reais junto com um cartão escrito à mão: “Caro Presidente, conforme prometido, espero que goste!!! Abraços”.

Ometto é dono de uma fortuna estimada em R$ 45 bilhões e é um dos maiores oligarcas do Brasil. Diferentemente de mim, de você, eleitor, e de uma pessoa que recebe R$ 2 mil, Ometto depende muito mais da aproximação política. A concorrência é muito danosa para os seus grandes lucros. Quanto maior o poder do Estado de regular, tributar, subsidiar, proteger, contratar e punir, maior o incentivo para grupos tentarem capturar esse poder. Isso significa que o Estado se torna uma arena em que quem tem mais recursos tende a jogar melhor o jogo.

O apoio de parte dos mais ricos à esquerda não é uma contradição. Ele pode ser explicado pelo fato de que elites econômicas, culturais e burocráticas conseguem capturar benefícios do Estado ou se proteger dos custos das políticas que defendem. Já os mais pobres e a classe média baixa vivem diretamente os efeitos de inflação, serviços públicos ruins, insegurança e baixa mobilidade socioeconômica.

*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.

Faça uma doação para o Instituto Liberal. Realize um PIX com o valor que desejar. Você poderá copiar a chave PIX ou escanear o QR Code abaixo:

Copie a chave PIX do IL:

28.014.876/0001-06

Escaneie o QR Code abaixo:

Adriano Dorta

Adriano Dorta

É estudante de economia, com foco de pesquisa em escolha pública e economia política.

Deixe uma resposta

Pular para o conteúdo