O país que deve e quer descansar
Recentemente me deparei com a manchete da Folha de S.Paulo, esse boletim paroquial da nossa intelligentsia mais perfumada. Por um instante, o delírio parece real; habito uma espécie de Nárnia verde-amarela onde a matemática é uma opinião e o esforço, uma grosseria. Mas não. É apenas o Brasil em sua obstinada recusa de ser um lugar sério.
Recordo-me do embaixador Carlos Alves de Souza Filho, que, em um surto de honestidade diplomática e para eterno erro de atribuição ao general Charles de Gaulle, sentenciou a nossa natureza: o Brasil não é um país sério. O calote generalizado é a prova técnica de que ele continua coberto de razão.
Os números são de uma vulgaridade constrangedora. Quase 70% da população está endividada. Um em cada cinco brasileiros já vive no atraso, e, como um sintoma quase obsceno desse desastre, quase metade daqueles que recorreram a familiares não honrou o compromisso. Nem o afeto escapa. O calote, por aqui, deixou de ser exceção moral para se tornar ambiente.
Endividar-se não é, por si, um pecado. Em economias civilizadas, o crédito é instrumento de construção. Aqui, transformou-se em anestesia social. Parcela-se o presente, renegocia-se o passado e empurra-se o futuro para um território onde a lógica foi suspensa por conveniência política.
Mas o erro está em tratar o calote como drama individual. Não é. É aritmética. Quando o Estado transforma a irresponsabilidade fiscal em método, o efeito não é ideológico; é corrosivo. A inflação devora, os juros punem e o crédito, que deveria ser motor, vira freio.
Crédito caro não é abstração para economistas de gravata borboleta. É asfixia. O varejo depende da prestação para respirar; a agricultura depende do financiamento para plantar. Quando o crédito encarece, não se está apenas punindo o consumo; está-se comprometendo a própria capacidade de gerar riqueza. O país não paga porque já não produz o suficiente nem para sustentar as próprias ilusões.
O resultado é uma inadimplência em cascata, quase mecânica. O consumidor não paga porque não pode; a empresa não recebe porque o cliente desapareceu; e o sistema financeiro, em vez de lubrificar as trocas, passa a administrar o inventário da decadência.
É nesse cenário que surge a proposta, entre o surreal e o patético, de reduzir a jornada de trabalho. Trabalhar menos. Ganhar o mesmo. Como se produtividade fosse uma variável decorativa, ajustável por decreto. É o triunfo do ilusionismo econômico sobre a realidade.
Acredita-se, com uma devoção à fantasia que dispensa lógica, que é possível inverter a ordem das coisas; consumir antes de produzir, distribuir antes de gerar, descansar antes de entregar. Uma fantasia confortável e estruturalmente falida.
Produtividade não nasce de vontade política, mas de capital, tecnologia, gestão e de uma disposição incômoda de fazer mais e melhor. Reduzir a jornada em um ambiente já improdutivo não é avanço. É a oficialização da escassez com verniz de conquista. A inadimplência em massa não é crise; é diagnóstico. Um país que desaprendeu a relação entre esforço e resultado passa a viver de promessa, parcelamento e desculpa.
Não é o devedor que quebra o sistema. É o sistema que decide fingir que a dívida não existe. Até o dia em que a realidade não dá prazo. Ela dá o veredito.



