Os Homens e as moscas

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Quanto mais brutal o cheiro, mais as moscas vêm; quanto mais degradado, corrompido, decomposto, mais moscas voam ao redor do lixo; quanto mais infecto, sujo e insalubre, mais as moscas pousam no lixo para comer e, claro, desovar.

Esses insetos, apesar de pequenos, podem fazer um tremendo estrago. No livro do Êxodo, a quarta praga é um enxame colossal de moscas que destrói o conforto e a saúde dos egípcios – e, nos tempos contemporâneos, não podemos esquecer-nos da quantidade de doenças e sujeiras que moscas podem transmitir.

Como as moscas, Homens trazem males e zanzam em lugares onde a corrupção está assentada? Se sim, eles vivem da e na corrupção. Transmitem a sujeira e as doenças do Homem assim que transitam de uma pilha de corrupção para outra. Essa característica vale para todo tipo de mal que consegue um espaço para se sustentar, criando laços e um terreno fértil para crescer e se multiplicar. Nós, como moscas, apenas estaríamos seguindo nossa natureza?

Se considerarmos o Homem como um reles animal, preso aos seus instintos e ao caos da evolução das espécies, somos apenas como um tipo de animal que cresceu demais em número e, por isso, tem sua própria existência ameaçada. Como moscas, cervos, ursos e peixes, estamos apenas flutuando em um mar de acasos do existir. O único critério que, talvez, definisse um bem dentro de nossos seres seria o da propagação da espécie – então a única sujeira seria a sujeira que macularia a espécie.

Mas nós não somos reles moscas. É verdade que zanzamos por aí propagando e nos mergulhando no mal, porém também é verdadeiro o oposto: existe um bem e esse bem não está só em nossa espécie. C. S. Lewis, em sua Abolição do Homem, é bem claro: se o instinto nos governa, então teremos que adentrar em um caos maior ainda, pois existirão situações onde instintos irão se contradizer. O instinto de autopreservação de um pode ser contrário ao instinto sexual de outro. Como resolveríamos esse problema?

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Como condenaríamos estupros, no caso exemplificado acima? Se, como moscas, somos apenas desdobramentos complexos e longos de nossa animalidade, então não há males, no mínimo. O estupro seria uma sujeira, é verdade, mas só estaríamos em nossos papeis de moscas. Para este inseto em específico, viver sujo é viver naturalmente.

Daí que nós não podemos ser reduzidos ao que os outros animais são. O pessimismo se torna um bloqueio à racionalidade quando ele se confunde com a própria realidade humana. Temos potencialidades inatas para fazer o bem ou o mal, independente de nossa condição de animais. A moral, aplicável somente aos Homens, é justamente o campo onde se definirão as atitudes certas e erradas. Mesmo a caçada aos contextos para saber se algo é correto é algo que só faz sentido se existir um correto. O estuprador que se justifica no instinto sexual que os primeiros hominídeos já possuíam não pode ser considerado o certo, por exemplo. A mulher vítima desse estuprador, por outro lado, mesmo se vier a matar seu agressor, deve ser considerada a que agiu de maneira correta. Por quê?

Mais uma vez: porque não podem existir apenas sujeita, no reino dos Homens. A Justiça, a Verdade, o Belo… são o que nos separa dos animais, são as características que nos fazem transcender os outros primatas, até. A capacidade que temos (ainda que imperfeita) de alcançar esses Bens Supremos é aquilo que nos coloca acima do restante do mundo físico.

O pessimismo, nesse caso, só levaria ao nada. Este nada é o que deveríamos pensar em relação às mazelas e bondades deste mundo? Não. Somos incapazes de sermos indiferentes, incapazes da apatia total. O verdadeiro apático não se importa se é sangrado ou se é afagado, se ocorre um estupro ou um ato de justiça, nem mesmo se a higiene bucal é importante.

O apático não se importa com sua saúde, com a política, com o conforto, com a Justiça, com a Beleza, com a Verdade, ou mesmo com a mentira. Ele é opaco como um vidro transparente e translúcido como uma parede de concreto, ou seja, ele não é. Ele sequer existe no mundo real.

Não existem niilistas, porque existem Homens.

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduado e Mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense.

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