Por que o PSOL é um partido impopular e elitista

O Partido Socialismo e Liberdade (sic), formado por dissidentes do PT, é hoje o partido mais estranho à realidade social brasileira, mais distante do povo comum. Quando instados a responder por que se retiraram do partido de Lula, os fundadores do PSOL alegaram discordar das políticas adotadas pelo governo petista e anunciaram um regresso aos princípios fundamentais do socialismo. Surge o PSOL como a vanguarda dos socialistas “verdadeiros” que levariam adiante um projeto de poder pautado na aproximação com a classe trabalhadora e no combate irrestrito às desigualdades sociais.

A princípio, portanto, o partido seria apenas mais uma legenda de extrema-esquerda (como PSTU ou PCO) voltada à ocupação de espaços entre os trabalhadores, sem expressão nacional, e pretensamente antenada com os interesses e as demandas do “proletariado”. Porém, como nós sabemos, o PSOL defende pautas inteiramente avessas ao gosto popular e é majoritariamente formado, em seus quadros e em sua militância, por uma classe média alienada e pequeno-burguesa. É, em suma, um partido elitizado e impopular. Nenhuma dona de casa e nenhum taxista votaria no PSOL. Disso sabemos, mas por quê? Vamos tentar entender esse fenômeno com dados confiáveis e (talvez) bons argumentos.

Primeiramente, é preciso responder à seguinte pergunta: quem vota no PSOL? Conhecer o eleitorado psolista é importante para podermos rastrear as conexões entre as classes sociais e as bandeiras partidárias. Embora o partido se diga popular e defensor dos interesses do “povão”, quem vota no PSOL é a classe-média e não as “classes populares”.

Dois exemplos são ilustrativos. Nas eleições municipais de 2016, o PSOL fluminense lançou os deputados Marcelo Freixo e Flávio Serafini como candidatos às prefeituras do Rio de Janeiro e de Niterói, respectivamente. No primeiro turno, Freixo conseguiu maioria de votos na zona sul do Rio, região rica e elitizada; Flávio Serafini conseguiu a maior parte de seus votos em Icaraí, bairro litorâneo e com alto custo de vida. Freixo obteve maior votação nos bairros de Cosme Velho e de Laranjeiras e o menor número de votos no bairro de Santa Cruz. Os bairros localizados na zona sul contam com os melhores números no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede os níveis de qualidade de vida em determinada localidade. Já o bairro de Santa Cruz ocupa uma das últimas posições no IDH carioca, com uma população humilde e assolada pela violência urbana.

Leia também:  E se o Museu Nacional tivesse recebido concessão? As chamas da irresponsabilidade estatal

O candidato psolista, como mostra seu mapa eleitoral, foi o preferido da população mais abastada do Rio de Janeiro e o menos votado pelos trabalhadores comuns. Não é de se estranhar que, no segundo turno das eleições cariocas, os números de brancos, nulos e abstenções superaram o número de votos em Freixo. O psolista obteve pouco mais de 1 milhão e cem mil votos, enquanto os votos brancos e nulos e abstenções somaram mais de 2 milhões.

Outro indicador da impopularidade do PSOL é o baixo número de votos em seus candidatos a deputados federais, nas eleições de 2014, se comparados aos mais votados. Entre os deputados federais eleitos pelo Rio, o PSOL reelegeu Jean Whyllys e Chico Alencar, além de levar o neófito (e então desconhecido) Cabo Daciolo ao Congresso. Somando os votos dos três deputados psolistas, temos pouco mais de 390 mil votos. Acontece que o primeiro colocado em todo o estado, Jair Bolsonaro, obteve mais de 460 mil votos. Ou seja, a julgar pelos números, Bolsonaro conseguiu reunir, sozinho, mais votos que os três deputados eleitos pelo PSOL. A popularidade crescente do capitão da reserva logo o levaria à liderança na corrida ao Planalto, quatro anos depois. Poderíamos citar, de passagem, os poucos votos obtidos pelo partido nas eleições presidenciais de 2014, quando Luciana Genro recebeu apenas 1 milhão e meio de votos, pouco mais que Freixo em 2016. Genro passou despercebida e só ganhou atenção nacional quando apontou o dedo para Aécio Neves durante um debate.

Já sabemos, portanto, que o eleitorado psolista é majoritariamente formado por eleitores de classe-média e distanciados da realidade social de amplas faixas do povo brasileiro. Se quisermos entender por que o partido é assim tão estranho para o trabalhador, podemos dizer que o principal fator de distanciamento entre o eleitorado comum e os políticos psolistas é a estranheza incontornável entre as pautas defendidas pelo PSOL e os interesses imediatos e genuínos da maioria dos eleitores. Pautas como a legalização das drogas, a liberação irrestrita do aborto, a leniência penal e a defesa de bandeiras identitárias são absolutamente contrárias às convicções e às necessidades dos trabalhadores que sustentam nossa sociedade. Ninguém imagina a própria avó se identificando com uma feminista de 22 anos.

Leia também:  Escola Sem Estado é melhor do que Escola Sem Partido: será mesmo?

A distância abissal entre o PSOL e a vida real é facilmente verificável. Se o trabalhador convive com a violência desumana do narcotráfico, o psolista prontamente relativiza a culpa dos bandidos; se o trabalhador conhece de perto casos de pessoas destruídas pelo consumo de drogas, o psolista vem defender a liberação da venda de entorpecentes; se o trabalhador está preocupado com o desemprego e a má qualidade dos serviços públicos, o psolista acha razoável priorizar a defesa de causas identitárias. Se o eleitorado é formado majoritariamente por cristãos, evangélicos e católicos, o PSOL calunia os cristãos chamando-os de “fundamentalistas fanáticos”.

Desse modo, o partido vai se isolando da vida real onde a calamidade da insegurança pública e as crises econômicas são pautas urgentes e vai se fechando num mundo particular onde é mais relevante “lacrar” e espernear contra tudo e contra todos. É um caso peculiar de esquizofrenia ideológica. Não é por acaso que Cabo Daciolo, ex-filiado ao PSOL, já ultrapassou Guilherme Boulos nas pesquisas de intenção de votos para a presidência. O jeito histriônico do bombeiro pode soar ridículo para muitos, mas já conquistou mais votos que o terrorista do MST. Isso é prova eloquente da impopularidade de um partido que se quer próximo do trabalhador – nada além do socialismo funcionando.

Outra característica do PSOL é sua elitização. A militância é colhida preferencialmente nos cursos universitários de ciências humanas. Voltado à mobilização de jovens insatisfeitos com abstrações como o “capitalismo global”, “patriarcado” e a “casa-grande”, o PSOL serve de válvula de escape à rebeldia sem causa típica da adolescência e da juventude mais exasperada e impulsiva. Com a militância formada por universitários, o PSOL é logicamente composto por elementos distantes da realidade social do Brasil, onde a maior parte do povo não cursa o ensino superior. É essa militância formada por jovens que frequentam centros culturais, vão ao teatro e ao cinema, leem livros de filosofia (quando leem de verdade, é claro), têm a vida mais tranquila e menos afetada pelos problemas sociais que perturbam o trabalhador comum, como a violência urbana e o desemprego endêmico. O que realmente preocupa a militância psolista é defender cotas para transgêneros no serviço público, não é o inchaço do Estado e o estrangulamento da economia nacional. Formado por jovens chiliquentos e intelectuais estranhos à realidade vivida pelo trabalhador comum, o PSOL vê o mundo pelo próprio espelho: pequeno-burguês.

Leia também:  Marina Silva e seu discurso “sonhático” que nunca muda

Os psolistas vivem com maior conforto material, sem sentir a necessidade de buscar emprego e chegar vivo em casa após todo um dia de trabalho honesto e árduo. Acreditam, em sua megalomania socialista, que seus interesses são naturalmente os mesmos interesses do restante do povo; que suas ideias iluminadas se aplicam adequadamente às situações diárias vividas pelo trabalhador. Prova empírica disso é a quantidade enorme de psolistas que, diante de eleitores de Bolsonaro, não buscam compreender, num esforço intelectual mínimo, as razões pelas quais há tantos trabalhadores comuns desejosos de eleger o capitão como presidente do país. A reação instintiva do psolista é sentir repugnância pelo eleitor de Bolsonaro, como quem se depara com um ser abjeto e desprezível, não com um cidadão brasileiro digno de respeito e atenção.

Isso acontece porque o tribalismo identitário do partido o desligou da vida em sociedade e o encasulou num universo paralelo, onde o cidadão comum e conservador é um “fascista”, onde o comerciante ou o pequeno empresário é um “capitalista”, onde todos os homens são “opressores” e as mulheres são todas umas “oprimidas” indefesas, onde a sedução exercida por Bolsonaro sobre o povo é incompreensível e vista com perplexidade. Deve ser mesmo assustador para um psolista descobrir que a sociedade não é um baile em DCE e que o mundo não se ajusta a seus caprichos ideológicos. Que se iludam e, como um cego em direção ao abismo, continuem caminhando.

 

Referências

  1. https://www.nexojornal.com.br/grafico/2018/04/02/Os-filiados-aos-partidos-brasileiros-g%C3%AAnero-idade-e-distribui%C3%A7%C3%A3o
  2. http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2014/noticia/2014/10/confira-quais-sao-os-46-deputados-federais-eleitos-pelo-rj.html
  3. https://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/06/luciana-leva-psol-a-quarto-lugar-partido-aumenta-bancada-na-camara.htm
  4. http://infograficos.oglobo.globo.com/brasil/a-votacao-no-rio-de-janeiro-por-zona-eleitoral.html
  5. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bairros_do_Rio_de_Janeiro_por_IDH
Gostou do texto? Ajude o Instituto Liberal no Patreon!