O que podemos aprender com o Mundo de Gelo e Fogo?

George R. R. Martin, criador das afamadas Crônicas de Gelo e Fogo, não apenas criou um mundo atrativo e uma trama terrivelmente boa, empolgante, mas construiu um universo coeso e, social e culturalmente firme, concreto, embasado nas características que formam e formaram a História do Homem, ou seja, a humanidade em si.

Apesar da semelhança entre a História real e a composição de Martin, não podemos esquecer-nos da existência de elementos fantasiosos em seu mundo. Magia, seres fantásticos, doenças inexplicáveis, maldições, premonições, profecias, criaturas humanoides, enfim… uma série de elementos que não existem no mundo em que vivemos, mas que têm suas presenças confirmadas no Mundo de Gelo e Fogo. Mesmo com a existência de tais características fantásticas (no significado literal do termo), A criação de Martin não deixa de ser parecida – e imensamente – com a realidade.

A própria “introdução” da obra em si já é algo com um considerável peso histórico. O livro não é tratado como se fosse uma narrativa contada pelo próprio autor, mas sim por um personagem dentro do mesmo cosmo do escrito. Tal personagem é baseado, nada mais, nada menos, no historiador medieval, como o clérigo responsável por determinar a genealogia de uma família nobre, ou de uma personalidade conhecida, responsável por escrever a História de um povo, como São Gregório, bispo de Tours.

Os meistres do Mundo de Gelo e Fogo, como um bom olhar pode perceber, são inspirados nos capelães de castelos na Idade Média, mas também no monge, no alquimista, no clérigo da universidade, no servidor “público” medieval. O conhecimento científico, literário, “folclórico” e histórico está nas mãos dos meistres (mas também nas dos septões, os sacerdotes), que são servos de Senhores de Terras na saga, fato que ocorre com o clero católico no medievo[1].

Apesar do escritor fictício da obra espelhar um historiador medieval, é preciso ter em mente que elementos da crítica historiográfica contemporânea também existem. Certas indagações e ponderações feitas pelo meistre (o Meistre Yandel) refletem os dilemas e questões existentes no século XIX e, principalmente, no XX, como a desconfiança em relação ás fontes primárias e secundárias, os relatos, as existências de certos personagens e as datas precisas de certos eventos históricos – Martin não deixa de imprimir elementos de várias épocas e culturas reais em sua ficção fantástica. Apesar de ser baseada na Idade Média, é importante notar a presença de outras “tonalidades” temporais e culturais em seus escritos.

O início de fato da obra possui uma marcação cronológica própria. Com o principal interesse nos Sete Reinos (e, portanto, no Continente de Westeros), o meistre fala do que seria a “Primeira Era”, chamando-a de Era da Aurora. Não se sabe, no cosmo do livro, qual é a idade dessa era. Números como quarenta mil e quinhentos mil anos aparecem, contudo, sabem-se que o mundo não era letrado, os homens eram grosseiros e viviam em tribos; as semelhanças com o nosso mundo não são meras coincidências. Os nossos neolítico, mesolítico e paleolítico compartilham semelhanças com a Era da Aurora, onde a humanidade não havia dominado das letras e a vida tribal era a norma.

A Era da Aurora, apesar da falta da escrita, consegue, ainda, transmitir ecos de seu passado distante para o presente. É sabido da existência de humanos em Essos, o continente ao oriente de Westeros, contudo não há presença humana no próprio Westeros. Existem indícios suficientes – como ossadas – para provar que apenas dois povos humanoides viviam no continente dos Sete Reinos: os Gigantes e os Filhos da Floresta[2].

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É interessante notar a presença arqueológica dos Filhos da Floresta, onde algumas peças manufaturadas (como facas) resistiram ao tempo, além dos rostos que esculpiam nas árvores. Boa parte do que se conhece dos gigantes e dos Filhos da Floresta também vêm dos relatos dos Primeiros Homens, estes que desbravaram e quase dizimaram as populações nativas do continente de Westeros, pois detinham uma tecnologia superior às facas de sílex dos Filhos da Floresta e mais organização do que estes e os Gigantes. É com os Primeiros Homens que, também, vem a escrita e a cultura humana para Westeros. Canções passam o passado para o presente, histórias e relatos de acontecimentos antigos, agora, podem ser transmitidos por bocas de Homens, mas também por mãos. Graças à oralidade da cultura dos Primeiros Homens é que meistres como Yandel podem ter um vislumbre do que foram os Filhos da Floresta e os Gigantes, uma vez que estes foram sumindo, com o passar dos milênios.

É com os Primeiros Homens que a construção histórica de Westeros se parece com a História da Inglaterra. Em ordem cronológica, em nossa História, o que hoje é a Inglaterra teve populações autóctones, ao menos até os levantes indo-europeus chegarem até lá, há milhares de anos atrás. Os Povos Celtas[3] dominaram a região, depois pelos romanos (mesmo que, etnicamente, não tenham dominado o atual território do reino inglês e do principado galês), mas depois da retirada das forças romanas, durante a crise final do Império, os celtas voltaram a exercer influência no sul do contemporâneo Reino unido, ao menos até a chegada dos saxões, vindos do centro da Germânia.

São os povos da saxônia que mais se parecem com os Primeiros Homens. Pela Ordem cronológica e pelo germinar da formação dos sete grandes reinos de Westeros (como os sete reinos ingleses antes da unificação), os Primeiros Homens se assemelham aos saxões, mas também traços dos normandos (aqueles que tomaram a Inglaterra dos saxões) também são visíveis, como fortes circulares, uma característica comum no estilo de defesa normando.

E por me referir aos normandos, estes têm outro paralelo no Mundo de Gelo e Fogo: os povos ândalos – estes possuindo uma perícia maior na metalurgia, levando o aço para os campos de batalha de Westeros e, com o tempo, suplantando todos os Primeiros Homens com sua imigração avassaladora e, claro, seus costumes, suas línguas e sua religião. Apesar dos normandos não serem os responsáveis pelo desencadear do catolicismo na Grã-Bretanha (sendo este introduzido por missionários cristãos desde quando o que é hoje p território da Inglaterra e o País de Gales eram partes da Britannia romana) e, portanto, não exista um paralelo da religião na História real, a língua e os costumes foram extremamente afetados pelos ândalos.

Os normandos eram escandinavos afrancesados, tendo sua origem na imigração para o noroeste da França de vikings comandados por Rollo, com a autorização do rei Carlos, o Simples, no século X. Quando Guilherme I invade os reinos saxões da Inglaterra, em 1066, ele carrega consigo uma imensa carga cultural. A nobreza inglesa, por muito tempo, fala apenas em francês e o atual inglês, na realidade, é uma fusão da língua anglo-saxã mais antiga com o francês medieval – o mesmo ocorre em Westeros e, a exceção do Reino do Norte, todos os outros reinos são anexados, por casamento ou por guerra, pelos ândalos.

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Contudo, em diferença aos normandos – que tinham um líder, este que viria a ser o primeiro rei da Inglaterra –, os ândalos não unificam Westeros. Reinos são criados, destruídos, dinastias ascendem e morrem nas entranhas dos séculos.

A união dos reinos se dá pelos Targaryen, sob o comando de Ageon, o conquistador, e suas esposas-irmãs – descendentes de uma civilização perdida (literalmente esmagada pela erupção de um super-vulcão), tinham dragões e os usaram como armas durante a conquista. Tomaram os maiores reinos, queimaram vilas, cidades, exércitos, mataram lordes e reis e, claro, fizeram outros se ajoelharem diante seu poderio.

Como na História Inglesa, sete reinos são unificados em apenas um, sob a égide de um monarca, com a força da espada, com sague e fogo – e esse é o lema dos Targaryen.

Mas, para ser mais conciso, é necessário enfatizar algo: Westeros, tendo o seu embasamento no mundo real, é mutável. Reis, senhores menores, jogos de poder, culturas inteiras, guerras, etc., nunca permanecem para sempre no mapa. Eles destruíram um quadro geral, uma ordem pré-existente, criando uma nova, mas em sua própria pluralidade mutante destroem a si próprios.

“Destruir” não é necessariamente uma obliteração total da ordem vigente. Sabemos que, em qualquer cenário, é necessário que exista uma conservação do passado para qualquer progresso, portanto as ordens, elites e entendimentos de mundo são mantidos sob a égide da casa Targaryen. A religião é conservada, as tradições dinásticas e políticas, de forma igual. Os grandes reis do passado, agora, assumem os lugares de grandes lordes, apenas abaixo do monarca, mas conservando sues vassalos. A organização, é verdade, se baseia completamente no feudalismo de nossa realidade. Os exércitos, as guerras, as leis, os podres, são, todos, parecidíssimos com aqueles que existiam no Ocidente Europeu do medievo.

A mutabilidade e a conservação no mundo em que se passam as crônicas de Martin é, de fato, aquilo que bate derradeiramente de frente com ideias de matriz rousseauniana. O mundo é feio, imprevisível, e a ordem aparente, a moral vigente, podem ser rasgadas tão facilmente como um reles pedaço de papel.

O mal no mundo não se deve aos arranjos sociais, a sociedade em si, tampouco aos esquemas de poder que dominam o cenário de Westeros. O mal vem do Homem, de suas paixões, de seus interesses e crenças. Camponeses não replicam o “mal social” feito pelos “esquemas de poder”, mas provocam e criam o mal por necessidade, por aproveitamento, por crenças que envolvem suas noções de justiça, pelos elementos que compõem sua cosmovisão, seus conhecimentos e, claro, pela situação que permeia suas vidas. O mesmo vale para o nobre, o guerreiro, o mercenário, o rei.

Reis e lordes justos, sóbrios, mecenas e que, por sua administração e interesses, fazem a economia crescer, a manutenção da ordem prosperar, afinal, podem ter seus constructos benéficos desaparecerem do dia para noite, depois de uma sucessão hereditária ruim, um casamento malfeito, uma guerra, seca, desastres de todos os tipos, saques…

Há um verdadeiro “turbilhão” que envolve o “jogo dos tronos”, onde o acaso juga junto com os movimentos e os indivíduos desse mundo, moldando-o.

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A lição do mundo que envolve a história escrita por Martin, além de todas as tramas, é que este mesmo mundo, por si, não dá terreno para uma teleologia de justiça, bem e coesão social. O acaso, as marés do tempo, dos interesses, e a própria natureza influenciam as coisas, criam esse mal, e também um bem. Aprende-se, com Martin, que o Homem é pequeno demais para almejar consertar um mundo “inconsertável”.

[1] Com a queda da Roma Ocidental, todos os centros de conhecimento do mundo antigo na Europa Ocidental – e no Norte ocidental da África – foram comprometidos. Bibliotecas queimaram, acervos foram destruídos e homens do saber foram chacinados. A única instituição que sobreviveu à barbárie foi a Igreja e sua “ponta de lança” da época, os mosteiros. Muito populares já no final da antiguidade, os mosteiros conservaram os escritos antigos. Temas como a matemática, gramática, geometria, literatura, poesia, agricultura, botânica, biologia, geologia, filosofia, teologia, astronomia, arquitetura; uma gama de conhecimentos imprescindíveis para a época. Os monges consideravam de matéria espiritual a conservação e o desenvolvimento do saber científico, o que possibilitou a sobrevivência de todo o legado pagão, nas mãos da espiritualidade cristã – Criado, desta forma, o terreno que gerará, já na Baixa Idade Média, a criação do Método Científico.

[2] É importante notar a mistura de um discurso historiográfico contemporâneo e antigo nessas páginas. A comparação de fontes, ou a visita de locais de importância histórica é algo feito desde Heródoto, na Grécia antiga; o uso de ossos de criaturas pré-históricas para comprovar a existência de gigantes e dragões durante a Idade Média e a Idade Moderna também é comum, porém o meistre Yandel age de forma contemporânea. Sua escrita mostra um sistema complexo de conhecimento dado pela Cidadela, interligando todos os meistres do Mundo de Gelo e Fogo, com uma linguagem própria de historiadores mais recentes e, por isso, em minha suposição, tenham métodos gerais mais parecidos com os nossos do que com os dos Antigos e Medievais, carentes de uma sistematização metodológica clara (ou existente).

[3] Um dado interessante é que os povos celtas tiveram uma data de expansão grande, após se assentarem na Europa. Como membros da família linguística dos Indo-europeus – povos que colonizaram a Europa, o subcontinente indiano, a Península da Anatólia, o atual Paquistão e a Ásia Central –, os celtas se expandiram consideravelmente a partir da Europa Central, chegando a tomar totalmente as Ilhas Britânicas, a atual França, Alemanha, Portugal e boa parte da Espanha. Suas incursões chegaram a rivalizar com as grandes potências etruscas e latinas da península Itálica, sendo responsáveis pelo primeiro grande saque a Roma, assim como sendo autores das primeiras invasões bárbaras na Grécia Antiga e chegando, até mesmo, a colonizar o centro da Península da Anatólia (atual Turquia). A presença desse povo no território da Anatólia foi marcante até a invasão turca aos territórios do Império Bizantino, na Idade Média – na aparência, e na forma que são apresentados, os celtas lembram os Filhos da Floresta, assim como os Primeiros Homens lembram os saxões.

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduando em História, Licenciatura, pela Universidade Federal Fluminense, colunista do Instituto Liberal.