O Estado encarece a vida e o crédito vira sobrevivência

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O superendividamento da população brasileira deixou de ser um problema individual para se tornar um dos sintomas mais evidentes de uma economia estruturalmente desequilibrada. Milhões de brasileiros convivem diariamente com parcelas, cartões de crédito, empréstimos, financiamentos e contas atrasadas. Para uma parcela crescente da população, o crédito já não representa um instrumento para antecipar investimentos ou realizar projetos, mas uma forma de sobreviver até o próximo salário. Os números ajudam a dimensionar o problema. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, o maior patamar da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Além disso, quase 30% das famílias possuíam dívidas em atraso, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de obrigações financeiras permanecia em níveis elevados.

Sob uma perspectiva liberal, esses números exigem uma análise mais profunda do que a simples condenação moral do consumidor. É confortável atribuir o endividamento exclusivamente à falta de educação financeira ou ao consumo irresponsável. Evidentemente, decisões individuais importam, e educação financeira é necessária. No entanto, não se pode ignorar o ambiente econômico em que essas decisões são tomadas. Quando o custo de vida cresce, a renda perde poder de compra e o crédito é extremamente caro, o endividamento deixa de ser apenas uma escolha e passa, muitas vezes, a ser uma consequência previsível do próprio funcionamento da economia.

Um dos principais elementos da crise de endividamento brasileira é o extraordinário custo do crédito. Dados recentes do Banco Central indicam que a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas alcançou 64% ao ano em junho de 2026. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias chegou a 49,8% e o comprometimento da renda com dívidas atingiu 28,5%.

É importante compreender o significado desses números. Uma economia saudável deveria permitir que o crédito fosse utilizado principalmente para financiar investimentos, aquisição de bens duráveis e projetos capazes de aumentar a produtividade e o patrimônio das famílias. No Brasil, porém, uma parcela significativa do crédito é utilizada para cobrir despesas correntes, reorganizar dívidas anteriores ou compensar temporariamente a perda do poder de compra.

Como observava Frédéric Bastiat, uma das grandes dificuldades da política econômica é enxergar não apenas os efeitos imediatos de uma medida, mas também suas consequências indiretas e futuras. O crédito fácil ou emergencial pode resolver um problema momentâneo, mas, quando contratado a juros excessivos, transforma uma dificuldade presente em um problema ainda maior no futuro. A dívida, nesse contexto, funciona como uma espécie de imposto sobre o amanhã. O consumidor recebe recursos hoje, mas compromete uma parte crescente de sua renda futura. Quando milhões de famílias fazem isso simultaneamente, o resultado é uma economia com menor capacidade de consumo, investimento e poupança.

O Estado também pesa no orçamento das famílias. Uma análise liberal não pode ignorar a responsabilidade do Estado na deterioração do poder de compra da população. O cidadão brasileiro não administra seu salário em um ambiente de livre escolha. Antes mesmo de decidir como gastar sua renda, ele já enfrenta uma complexa estrutura de impostos diretos e indiretos, além de custos regulatórios que se incorporam aos preços de praticamente todos os produtos e serviços.

O trabalhador produz, recebe seu salário e, antes de consumir, vê uma parcela relevante de sua renda ser absorvida por tributos. Ao comprar alimentos, energia, combustível, medicamentos e outros bens essenciais, volta a pagar impostos embutidos nos preços. O resultado é que o orçamento familiar precisa sustentar não apenas as necessidades privadas, mas também uma estrutura estatal frequentemente cara e ineficiente.

Essa realidade é especialmente cruel para as famílias de menor renda. A própria PEIC mostra que o endividamento é mais elevado entre os lares com renda de até três salários mínimos, grupo no qual a inadimplência também é significativamente superior à observada entre as famílias mais ricas. O problema, portanto, não é simplesmente que o brasileiro “gasta demais”. Muitas vezes, ele vive em uma economia na qual custa caro demais simplesmente existir. Inflação, juros e a armadilha do crédito. A inflação também desempenha um papel central nesse processo. Quando os preços sobem persistentemente, o poder de compra dos salários diminui. A família que conseguia pagar suas despesas básicas com determinada renda passa a enfrentar um déficit mensal. A solução imediata costuma ser o cartão de crédito, o cheque especial ou o empréstimo pessoal, mas essa solução pode se transformar rapidamente em uma armadilha.

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O Banco Central tem o dever de combater a inflação, e taxas de juros elevadas são um dos instrumentos utilizados para isso. O problema é que, em uma economia marcada por desequilíbrios fiscais, baixa produtividade, insegurança jurídica e elevado risco econômico, o combate à inflação frequentemente ocorre em um ambiente no qual o custo do crédito já é estruturalmente alto. O resultado é paradoxal: o cidadão sofre primeiro com a perda do poder de compra e, depois, com o encarecimento do crédito utilizado para compensar essa perda. Em outras palavras, o brasileiro é pressionado dos dois lados. Quando consome, enfrenta preços elevados. Quando precisa recorrer ao crédito, enfrenta juros elevados.

Não é por acaso que a inadimplência atingiu números históricos. Dados divulgados pela Serasa indicaram que mais de 83 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em 2026, representando mais da metade da população adulta. O fenômeno também não parece ser temporário: uma parcela expressiva dos inadimplentes atuais já enfrentava restrições financeiras há uma década, demonstrando o caráter persistente do problema.

Superendividamento não se resolve com mais dependência

Diante desse cenário, é comum surgirem propostas de novas linhas de crédito subsidiadas, renegociações permanentes e programas estatais destinados a administrar os efeitos do endividamento. Embora algumas medidas possam aliviar situações emergenciais, é necessário cuidado para não tratar apenas os sintomas. Uma economia não se torna mais saudável simplesmente porque o Estado transfere ou reorganiza dívidas. Se os custos estruturais permanecem os mesmos, a população pode voltar a se endividar pouco tempo depois.

O liberalismo defende que a verdadeira solução deve estar na criação de condições para que o cidadão dependa menos do crédito para manter seu padrão básico de vida. Isso significa uma economia mais produtiva, maior liberdade para empreender, concorrência real no sistema financeiro, simplificação tributária, responsabilidade fiscal e redução dos obstáculos que encarecem a produção e o consumo. Milton Friedman defendia que não existe almoço grátis. Toda política pública tem custos, mesmo quando esses custos não aparecem imediatamente. Subsídios são pagos por impostos, déficits públicos precisam ser financiados e a expansão irresponsável dos gastos pode gerar inflação, juros mais altos ou aumento da dívida pública. Por isso, prometer soluções fáceis para o endividamento sem discutir a origem do problema pode apenas transferir a conta de um lugar para outro.

Defender uma visão liberal não significa absolver o indivíduo de suas escolhas. Educação financeira, planejamento, poupança e consumo consciente são fundamentais. O cidadão precisa compreender que crédito não é renda e que uma parcela aparentemente pequena pode esconder um custo financeiro gigantesco. Mas responsabilidade individual não pode servir como desculpa para ignorar a responsabilidade das instituições. É incoerente exigir planejamento financeiro perfeito de uma população submetida a inflação, tributação complexa, crédito caro e sucessivas incertezas econômicas. Da mesma forma, não é razoável imaginar que programas governamentais de renegociação serão suficientes enquanto milhões de brasileiros continuam sendo empurrados para novas dívidas. A liberdade econômica pressupõe indivíduos responsáveis, mas também um Estado que reconheça os limites de sua atuação. Quanto mais caro, burocrático e imprevisível é o ambiente econômico, menor é a capacidade das pessoas de planejar suas próprias vidas.

O superendividamento brasileiro é um retrato de uma população que, em muitos casos, passou a financiar o presente com um futuro que já está comprometido. Os números atuais revelam uma sociedade pressionada pelo alto custo de vida e por um sistema de crédito que pode transformar pequenas dificuldades em longos ciclos de dependência financeira. A solução não está em demonizar o consumidor nem em acreditar que o Estado pode, sozinho, administrar eternamente as consequências das dívidas. É preciso atacar as causas estruturais: reduzir o custo de produzir e consumir, ampliar a concorrência, fortalecer a responsabilidade fiscal, aumentar a segurança jurídica e criar um ambiente no qual o trabalho e a poupança sejam alternativas mais viáveis do que o endividamento permanente.

Como alertava Bastiat, é preciso olhar além do que se vê. O parcelamento que parece facilitar uma compra hoje pode representar renda comprometida amanhã. O benefício estatal que parece gratuito possui um custo que será pago por alguém. A dívida que parece uma solução temporária pode se transformar em uma prisão financeira. O Brasil precisa, portanto, de menos ilusões financeiras e mais liberdade econômica. Não para abandonar o cidadão à própria sorte, mas para devolver a ele aquilo que uma economia excessivamente onerosa muitas vezes lhe retira: a capacidade de construir o próprio futuro sem precisar endividá-lo todos os meses.

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Isaías Fonseca

Isaías Fonseca

É pecuarista e empresário, associado 2 do IFL-BH, estudioso e adepto do liberalismo clássico.

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