O Avesso do Conservadorismo de João Pereira Coutinho

Acabo de ler o recente artigo de autoria do conservador luso João Pereira Coutinho intitulado “Olavo de Carvalho tem espada sarcástica, mas faz marxismo do avesso”, autor por cuja obra cultivo elevado apreço, mas que a meu ver perdeu totalmente a mão nesse texto, demonstrando profundo desconhecimento tanto do país (do qual afirma ser vantajoso, para fins de análise, manter o devido distanciamento físico e intelectual), quanto da essência da obra de Olavo de Carvalho ao imputar-lhe a falsa ideia de que a esquerda consistiria de uma alegada “tirania mundial” ou de um “poder onipresente e invisível” (palavras que o filósofo pode até vir a ter empregado en passant em algum de seus inúmeros textos, mas que jamais representaram o tema central de suas extensivas considerações a respeito do comunismo).

Olavo alega, sim, tratar-se este de uma força global predominante e avassaladora, que atua de forma dissimulada e por intermédio de agentes que, na maior parte das vezes, ignoram seu protagonismo em favor do movimento; algo muito diferente dos chavões a que apegou-se o articulista para fundamentar suas críticas.

Coutinho demonstra desconhecer totalmente o mais que notório e amplo aparelhamento das escolas e universidades, da mídia e do estado pela ideologia progressista de esquerda, tanto no país quanto em nível mundial (o que é digno de estranheza dado seu notório grau de erudição e — suponho eu — abrangência de conhecimento) e, num simplório (e um tanto cínico) tautologismo, mostra-se surpreso com o fato de que a tal revolução marxista ou, no mínimo, uma flagrante manipulação de resultados eleitorais não tenha ainda se manifestado com a justa robustez, ou que as universidades e a mídia não tenham obtido maior êxito na suposta lavagem cerebral que diuturnamente nos administram de forma despudorada (notadamente nas páginas da própria Folha para a qual o desatento articulista contribui).

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O autor demonstra ainda desmesurada surpresa com as atuais manifestações populares pró-Bolsonaro, ignorando tratar-se de um fenômeno relativamente recente (manifestações populares espontâneas pró-direita tiveram sua tímida estreia no Brasil apenas a partir de 2013, anos após a publicação das obras de Olavo, objeto de sua crítica), restrito a uma majoritária, porém surpreendentemente baixa parcela da população, a qual aparenta ter recém-despertado — seja por consciência ou desespero — do kafkiano pesadelo progressista que gradualmente tomou conta de nosso país durante os últimos 26 anos.

Por fim, João Pereira Coutinho, agindo analogamente aos chamados “isentões” que abundam por essas plagas (das quais, como já citado, o autor admite manter distância intelectual), utiliza-se de um sutil, porém mais do que típico argumento canhoto para posicionar o pensamento de Olavo de Carvalho à extrema direita, ao cotejá-lo a seus mais radicais opositores, colocando-os todos no mesmo baú dos “marxistas” (sejam eles de sinal positivo ou trocado, como sugere Coutinho), igualando-o à mais reles esquerda canina, repetidora de bordões e submissa ao uivo de seus mais rudimentares dog whistles — quando os assíduos leitores do filósofo bem sabem que seus mais que ferozes impropérios dirigidos aos ímpios (ao contrário dos insípidos bordões proferidos por estes), nunca são desacompanhados de vasto embasamento factual e dos mais didáticos exemplos dos desvios de moral e de caráter que os motivaram em primeira instância.

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Conforme afirma com propriedade Sir Roger Scruton, a grande diferença entre um conservador e um esquerdista está no fato de o primeiro, ao contrário do segundo, ter como objetivo mostrar que o adversário está errado, não que ele é imoral, desumano ou monstruoso.

Bem, Olavo a meu ver demonstra com destreza ímpar (e abundância de ilustrações — no mais das vezes incontestáveis) que os esquerdistas estão essencialmente equivocados e desvela ainda, de quebra, sem papas na língua, sua faceta mais torpe, hipócrita e ignóbil, (contribuindo sobremaneira para despertar o grande contingente de pessoas que encontra-se ainda  surpreendentemente sob o efeito entorpecente daquela mesma doutrinação marxista de que Coutinho zomba ao insinuar sua inocuidade), corroborando insofismavelmente aquilo que desde 2013 surgiu de forma espontânea no seio das multidões e hoje ressoa consonantemente nas mentes daqueles que possuem o privilégio de penetrar o cerne das ideias do indômito filósofo da Virgínia: “Olavo Tem Razão!”

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Sobre o autor: Vicente Rondon é economista, professor, consultor e músico. Especialista e mestre em gestão de negócios, é estudioso das teorias sobre liberalismo econômico e conservadorismo.

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