Ainda sobre o equívoco de Olavo de Carvalho e Antonio Gramsci

De meio século para cá, uma vulgata racionalista de origem marxista, positivista e keynesiana governava os espíritos e as políticas. Por ondas sucessivas, a partir da Europa, esse sistema ideológico havia conquistado, sob tonalidades diversas, o conjunto do mundo desenvolvido e do subdesenvolvido. A própria ideia de modernidade acabou por se identificar com o conceito de planificação, uniformização social, de igualitarismo e centralização estatal. O individualismo, nessa perspectiva, surgia como sinal ultrapassado de um estado de espírito reacionário e deveria, pelo menos, submeter-se a uma organização voluntarista da sociedade. Mas essa bela arquitetura fez-se em cacos.

Colocado intencionalmente sem aspas, o trecho acima foi extraído de um depoimento do professor e liberal clássico franco-americano Guy Sorman no meu livro A Façanha da Liberdade, publicado em 1985 pelo Estadão. Ele está ali falando dos anos 1980, ou seja, 30 anos atrás. Quando o liberalismo começou a perder sua timidez… e avançar. A esquerda pensava que as sorrateiras ações gramscistas seriam suficientes para perpetrar seu plano de domínio hegemônico. Mas a coisa não é tão simples.

Retomo o assunto do artigo anterior porque, de certa forma, a repercussão se deu com críticas fundamentadas e de alto nível. À exceção de dois ou três comentários de ódio – a favor e contra -, as críticas se mostraram maduras. Entretanto, essas manifestações patinaram em conceitos ainda confusos. Trata-se de uma antiga polêmica que foi soterrada pelas vitórias pontuais e ilusórias da esquerda nos últimos anos. Quero reafirmar a prevalência do liberalismo clássico sobre o conservadorismo na questão da relevância para o combate aos intervencionistas.

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Em primeiro lugar, os alunos do grande Olavo de Carvalho – a quem respeito muito e de quem reconheço a importância intelectual, inclusive na práxis do combate ideológico – precisam se desvencilhar um pouco das amarras e estudar com afinco a escola austríaca atendo-se um pouco mais aos escritos de Hayek. Por quê?

Por causa da chave mestra do grande enigma – pouco e raramente abordada por Olavo de Carvalho (e desconhecida por Gramsci) – que é o sistema inconsciente, profícuo e produtivo na vida em sociedade: a ordem espontânea. Esta nasce da vasta, profunda e ininterrupta cooperação humana na busca de vivência, convivência e sobrevivência. Um acordo tácito que se manifesta a despeito da vontade consciente dos viventes. Vejam bem: tudo, mas absolutamente tudo, o que contraria essa ordem espontânea acaba dando errado.

O grande inimigo dessa organização (seja ela exógena ou endógena, nas palavras de Hayek) é o intervencionismo. Trata-se de uma presunção humana nascida desde Rousseau, que criou uma espécie de linhagem político-filosófica da “providência intencional” visando a um “mundo melhor”. Mas apenas causa confusão temporária como uma nesga de fumaça numa colmeia de abelhas. A ordem é bagunçada, parece o caos, mas logo volta-se ao dia-a-dia da fluidez sistêmica.

Na economia, basta verificar dois exemplos recentes. A crise financeira americana de 2008 foi causada pela intervenção do Estado no mercado imobiliário. Fumaça na colmeia. A greve dos caminhoneiros em 2018 parou o Brasil e quase leva a uma crise econômica de enormes proporções. Foi causada pela nefasta intromissão do governo petista no mercado de caminhões e, portanto, no de transporte de mercadorias em nível nacional. Pode demorar, mas a artificialidade de decisões sobre o livre agir humano (a ordem espontânea) vai mostrar seus desvios e efeitos colaterais funestos.

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O mesmo se dá, num segundo patamar de relevância, na superestrutura. O gramscismo nada mais é do que a interferência intencional e planejada de uma ideologia na moral e no caldo cultural que nasce da ordem espontânea. A tal da hegemonia buscada por Gramsci através de seus intelectuais orgânicos é utópica. Ela cresce, causa barulho, leva a esquerda ao poder pontualmente, mas logo tudo se desfaz em crises, tragédias e atraso na reconstituição da ordem espontânea.

Dois exemplos recentes: chavismo na Venezuela e lulopetismo no Brasil. Eles demonstram que as tentativas são cada vez mais fugazes. Os mais de 100 milhões de mortos deixados pelas experiências socialistas do século XX exibem o lado mais trágico dessa história, mas não serão mais replicados. Acontecendo através das armas físicas ou das armas culturais, o resultado será sempre, em pouco tempo, a frustração dos intervencionistas e o drama de suas vítimas.

O professor Guy Sorman, na obra citada – um intelectual que à época tinha apenas 41 anos de idade – defendia a tese hayekiana: “A ordem espontânea será sempre superior à ordem decretada”. É incrível como podemos, grosso modo, chamar Keynes de um gramsciano da economia e taxar Gramsci como o keynesiano da educação e cultura. Sempre uma espécie de racionalismo pós-moderno que não frutifica. E lembro-me aqui do axioma bíblico insuperável: você conhece a árvore por seu fruto. Onde prevalece um mercado livre, dinâmico e gerador de riquezas ininterruptas, como nos Estados Unidos, o marxismo cultural encontra mais dificuldade para furar a ordem espontânea da moral e dos costumes. O liberalismo econômico é o alicerce. No Brasil, se os governos anteriores tivessem sido liberais, com menos estado e mais mercado livre gerador de riquezas, muito dificilmente o PT teria chegado ao poder,

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O que me surpreendeu foi a percepção aguda, ou intuição, do presidente eleito Jair Bolsonaro. Bem antes de saber sequer se iria para o segundo turno, já havia tomado a sua principal decisão. A despeito de a sua preocupação até obsessiva estar no campo dos costumes, tratou de compor seu eventual governo a partir de um economista verdadeiramente liberal. A intuição do capitão lhe dizia que a relevância da batalha estaria na principal manifestação da ordem espontânea: o mercado livre e dinâmico.

Ele poderia subestimar isso e colocar qualquer técnico de renome no posto, centrando suas preocupações com os futuros auxiliares em pastas favoráveis ao conservadorismo. Não, isso ele deixou para depois do pleito. Nada como ter noção de relevância.

*Sobre o autor: Claudir Franciatto é jornalista e escritor.

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