O amor não entra na urna
Tenho uma péssima notícia para quem procura o candidato perfeito. Ele não concorre.
Flávio Bolsonaro não seria minha primeira escolha. Não sou bolsonarista, não pretendo ser e já passei da idade de procurar pai, mito ou salvador na política. Presidente é empregado temporário da República. A devoção é que insiste em querer estabilidade. Mas eleição não é Tinder. Chega uma hora em que é preciso parar de procurar o perfil ideal e olhar quem está na tela.
Se a escolha concreta for Lula ou Flávio, sei exatamente onde não estarei. Não quero mais o PT. Não quero um Estado voraz para cobrar e indigente para entregar. Não quero a pobreza administrada como patrimônio político. Auxílio para quem precisa é proteção social. O que o pobre precisa é de porta de saída, não de gerente de permanência.
Dispenso também as aulas de moral do autoproclamado campo do amor e do bem. Do bem para quem?
Há uma esperteza antiga nessa superioridade. Primeiro, declara-se proprietário da virtude. Depois, o ódio alheio continua sendo ódio, enquanto o próprio ganha eufemismos elegantes: indignação democrática, consciência social, defesa dos oprimidos. Nasce o ódio do bem. Aquele que agride com a consciência absolutamente tranquila.
O “nós contra eles” não nasceu com Bolsonaro. O bolsonarismo apenas ofereceu ao petismo o inimigo perfeito. Finalmente o amor encontrou alguém que podia odiar em público.
Quanto à elite que tanto acusam, não me interessa a caricatura do sujeito que odeia o PT porque encontrou o pobre no aeroporto. Interessa-me outra, muito mais concreta. Aquela que fala há décadas em nome dos pobres enquanto se perpetua no topo do poder.
Sou judeu. Posso criticar Netanyahu sem aceitar a hostilidade e o antissemitismo de Lula a Israel. Não terceirizo minha consciência. Muito menos para Brasília.
Chega então a hora menos romântica, aquela em que a convicção encontra a aritmética. Se a escolha se reduzir a Lula ou Flávio, Flávio terá meu voto. Sem camiseta, sem mito, sem fanatismo e sem procuração moral.
Voto útil não é amor. É consequência. Na política, desconfio especialmente de quem oferece amor em troca de poder. O amor deveria ser gratuito. O poder jamais é.



