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Liberdade de imprensa e o controle dos anseios autoritários do Estado

Hoje, dia 7 de junho, comemora-se o dia nacional da liberdade de imprensa, data comemorativa estabelecida para nos lembrar sempre da importância dessa liberdade que, no Brasil, por muitas décadas, nos foi negada por nossos governos ditatoriais.

A liberdade de imprensa é uma condição indispensável para o estabelecimento da democracia. Mesmo que não seja perfeita, a imprensa tem papel essencial na limitação e controle dos anseios autoritários do governo e, quando limitada por este, não consegue de fato exercer sua função. O que já deveria ser um consenso nos últimos anos passou a se tornar mais raro: cada vez mais vemos políticos e membros influentes da sociedade desdenharem da liberdade de imprensa e tratá-la como mero detalhe – muitas vezes justificando esse posicionamento por um suposto viés ou “posicionamento muito opinativo” por parte da mídia. Ora, bobagem! Essa demonização da imprensa não passa de uma tentativa de encontrar, para os erros do governo, um bode expiatório. Afinal, é função do jornalismo divulgar aquilo que não quer que se saiba – o contrário não passa de propaganda. Relembrando o grande mestre Millôr Fernandes: “A imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Entretanto, devemos ficar muito atentos a esses ataques feitos à imprensa que no governo Bolsonaro se tornaram cotidianos, mas estão longe de ser novidade. O melhor exemplo disso ocorreu em 2014 quando o então ministro Gilberto Carvalho se pronunciou sobre a famigerada proposta petista de regulação da mídia: “Ninguém mais que nós vai defender a liberdade de imprensa, MAS, a meu juízo, o excesso de editorialização, adjetivação e colunismo que acabou ganhando peso enorme na imprensa tem feito um estímulo ao ódio que nós vimos nos últimos tempos (…) queremos sentar com vocês, gente séria da imprensa, para fazer uma análise de como o Brasil está sendo passado para as pessoas, de como a realidade é traduzida efetivamente”. Por “excesso de editorialização” entende-se uma mídia muito opinativa e por “como passar o Brasil para as pessoas” entende-se a maneira que melhor agrada ao governo. Não é necessário me prolongar muito nesse trecho para demonstrar o absurdo que ele representa.

Não há nada que melhor descreva a relação entre governo e mídia no Brasil que a anedota trazida pelo humorista Groucho Marx: “a política é a arte de procurar problemas, encontrá-los, diagnosticá-los de forma incorreta e depois aplicar [mal] o remédio errado”. É muito cômodo para o governo apontar dedos, acusar a mídia de “ser opinativa demais” e evitar, até os 45 do segundo tempo, fazer uma autocrítica de suas ações. Afinal, não foi o governo que errou, são os meios de comunicação que são tendenciosos demais na hora de noticiar os fatos do dia ou são os colunistas do O Globo que têm raiva do presidente e o criticam ferozmente em suas colunas. O inferno são sempre os outros e enquanto isso o país continua a descender cada vez mais entre a criação de novos privilégios aos amigos do rei e a proposição de reformas que jamais serão votadas por inteiro, se tornando nada mais que uma versão atualizada do teorema de Lampedusa: para que tudo fique muito parecido com o que sempre foi, não mudamos mesmo nada de muito fundamental, mas continuamos cultivando o mito das reformas, gastando energias políticas e sociais, correndo na esteira, para no fim resolver aquilo que não passa de consensos fáceis. Por isso, quando chegar em 2022 e ouvir aquele candidato desdenhar da liberdade de imprensa, afaste-se e busque alguém realmente preocupado com essa história de democracia.

* Artigo publicado originalmente na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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