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Imigração: melhorando o Brasil desde 1500

Este fim de semana estive em Macacos, que é um local a 25 minutos de Belo Horizonte conhecido pelo ecoturismo. Hospedei-me em um local chamado Recanto do Suíço – Restaurante e Pousada, que, como o nome já diz, é de propriedade de um ex-morador de Berna. Meu alemão estava um pouco enferrujado, mas, se entendi bem, Herr Willi, além de ter criado um hotel e restaurante, está também criando um parque ecológico de 22 mil metros quadrados. Ele é o presidente da associação de turismo do distrito e o seu irmão, Fritz, se tornou recentemente o presidente da associação comercial do vilarejo. A tese dos irmãos Willi é simples: Macacos – MG tem um potencial turístico pouco aproveitado* e, se eles conseguirem organizar melhor a comunidade, todos seriam beneficiados.

Sem dúvida os irmãos Willi geram valor para o Brasil, mas eles estão a anos-luz de serem os únicos imigrantes a prosperarem por aqui. Francesco Matarazzo chegou pobre e deixou um império industrial. Samuel Klein saiu de um campo de concentração na Europa para se tornar o fundador das Casas Bahia. Joseph Safra abandonou o Líbano na década de 50 para se tornar o brasileiro mais rico do mundo até o momento de sua morte. Porém, seria possível afirmar que de maneira geral a imigração é algo positivo para a economia de um país?

Há muitos argumentos contra a imigração, sendo os mais comuns relacionados aos efeitos supostamente negativos que a imigração tem sobre o mercado de trabalho do país anfitrião e, mais especificamente, seu impacto sobre o emprego e os salários. De acordo com os defensores das restrições à imigração, os imigrantes não só aceitam empregos de nativos, mas também têm um efeito depressivo sobre os salários. No entanto, a teoria econômica não apoia essas afirmações. Em primeiro lugar, a economia não é um jogo de soma zero: o número de empregos disponíveis não é finito. Além disso, conforme mostrou Alex Tabarrok, os imigrantes não são apenas produtores, mas também consumidores – logo, sua chegada tende a expandir a demanda.

Vale ressaltar que, ao contrário da sabedoria convencional, não são apenas os imigrantes altamente qualificados que criam externalidades positivas nas economias de acolhimento. Nos países ricos, os imigrantes de baixa qualificação tendem a aceitar empregos de baixa produtividade (já que muitas vezes não têm ensino superior ou não falam o idioma), liberando assim a mão-de-obra nativa a empregos de maior produtividade (pressupondo-se o livre comércio e um mercado de trabalho flexível).

Sobre os salários, a lei da oferta e demanda diz que um aumento na oferta de trabalho inevitavelmente causaria salários mais baixos. Porém, conforme dito anteriormente, imigrantes também são consumidores. Assim, como bem mostrou Benjamin Powell em seu artigo An economic Case for Imigration, mais imigrantes também significam uma maior demanda por bens e serviços, o que por sua vez resulta em uma maior demanda por mão de obra, evitando uma queda generalizada dos salários. Mesmo nos casos em que os salários em um determinado setor são temporariamente empurrados para baixo, salários mais baixos levam a custos mais baixos para as empresas, o que geralmente resulta em preços mais baixos para os consumidores devido ao processo de competição.

Outro argumento comum contra a imigração é que estrangeiros estariam mais propensos a cometer crimes, mas, de novo, ao olhar os números, essa afirmação não se sustenta. Butcher e Piehl (2007) examinaram as taxas de encarceramento para homens de 18 a 40 anos nos censos de 1980, 1990 e 2000. Os dados mostram que em todos esses anos os imigrantes têm menos probabilidade de serem encarcerados do que os nativos, com a diferença aumentando a cada década. Em 2000, os imigrantes tinham taxas de encarceramento correspondendo a um quinto das taxas dos nativos. Uma explicação para o fenômeno é que, como a punição para os imigrantes que cometem crimes são bem altas (além de cadeia, há a deportação), isso os torna menos propensos a infringir a lei.

E o que aconteceria se as barreiras à migração fossem parcial ou totalmente eliminadas em escalada global? Michael Clemens, pesquisador sênior do Center for Global Development, escreveu um artigo intitulado Economics and Immigration: Trillion-Dollar Bills on Sidewalk, onde ele fez uma revisão da literatura acadêmica sobre o assunto. Se todas as barreiras à mobilidade da mão de obra fossem removidas, o PIB mundial aumentaria na faixa de 50% a 150%.

Von Mises certa vez comparou as barreiras migratórias a barreiras tarifárias. Escreveu o austríaco: “Visto do ponto de vista da humanidade, o resultado (das barreiras migratórias) é uma diminuição da produtividade do trabalho humano, uma redução na oferta de bens à disposição da humanidade. As tentativas de justificar em bases econômicas a política de restrição da imigração estão, portanto, condenadas desde o início.”

Claro que imigração tem seus problemas. A mãe do Felipe Neto, por exemplo, é portuguesa. Porém, a literatura econômica é bem clara: imigração é algo positivo para um país.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

*Essa tese poderia ser aplicada para o Brasil inteiro, mas não vem ao caso no momento.

Fontes: https://www.independent.org/news/article.asp?id=1737

https://www.independent.org/issues/article.asp?id=486

https://www.econlib.org/library/Columns/y2010/Powellimmigration.html

http://pubs.aeaweb.org/doi/pdfplus/10.1257/jep.25.3.83

https://fee.org/articles/the-evidence-weighs-in-favor-of-immigration/

https://fee.org/articles/by-the-numbers-do-immigrants-cause-crime/

https://www.ncjrs.gov/criminal_justice2000/vol_1/02j.pdf

https://www.nber.org/papers/w13229

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