A sociedade não perdeu a eleição
Por que o destino de um país não cabe nas mãos de quem o governa.
No domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para o quarto mandato com pouco menos de 52% dos votos válidos, numa virada sobre Flávio Bolsonaro, que havia terminado o primeiro turno à frente. Para quase metade dos brasileiros que foram às urnas, a noite terminou com a sensação conhecida de toda derrota política: a perspectiva de mais quatro anos de frustração, retrocesso e impotência. Para a outra metade, a vitória renovou a esperança de que o governo seja capaz de entregar aquilo que promete.
Os dois sentimentos, embora opostos, partem da mesma premissa. Ambos supõem que o destino de uma nação se decide no Palácio do Planalto, e que a eleição de um presidente equivale à escolha do futuro do país. É essa premissa que merece ser examinada, porque ela está errada — e o erro não é inofensivo.
Governos podem perturbar profundamente o funcionamento de uma sociedade. Podem destruir riqueza, corroer instituições, desorganizar mercados, desestimular o investimento e impor custos que levam gerações para ser reparados. Ninguém que conheça a história do século XX pode tratar o poder político como irrelevante. Mas existe uma diferença fundamental entre a capacidade de perturbar uma ordem e a capacidade de criá-la. E é nessa diferença que reside a maior parte daquilo que chamamos de país.
O que um governo é
Antes de perguntar o que esperar de um governo, convém perguntar o que um governo é. Ao contrário de qualquer outra organização da sociedade, o Estado não depende da adesão voluntária daqueles com quem se relaciona. Uma empresa precisa convencer o cliente a comprar; uma associação precisa convencer o membro a permanecer; uma igreja precisa convencer o fiel a voltar. O Estado não precisa convencer ninguém. Seus instrumentos são a ordem, a proibição, o tributo e, em última instância, a força. Sua função essencial é coordenar a sociedade pela coerção: impor regras, arbitrar conflitos e punir quem as viola.
Desenvolver um país é outra coisa. Desenvolvimento é descoberta — de novas necessidades, novos produtos, novas formas de produzir e de cooperar. A descoberta depende justamente daquilo que a coerção não fornece: liberdade para experimentar, preços que indiquem o que vale a pena, lucros que recompensem os acertos e prejuízos que eliminem os erros. O governo não opera sob esse teste. Não arrisca o próprio patrimônio, não sofre prejuízo quando erra e não precisa da aprovação voluntária de ninguém para continuar existindo. Tudo o que distribui foi antes retirado de quem produziu.
Esperar que um governo desenvolva um país é, portanto, um erro de categoria — como esperar que o juiz de uma partida marque os gols. No máximo, o juiz garante que as regras sejam respeitadas; quanto mais interfere no jogo, pior o jogo fica. Por isso a pergunta que domina cada eleição — qual candidato vai desenvolver o Brasil? — já parte de uma premissa equivocada. Nenhum vai. O desenvolvimento, quando vem, vem de outro lugar.
O que a Ásia ensina
Se o desenvolvimento fosse obra de bons governos, os países que mais cresceram nas últimas décadas seriam os mais bem administrados. Não foi o que aconteceu. A Índia conviveu com uma das burocracias mais pesadas e corruptas do mundo — a ponto de seu sistema de licenças ter ganhado nome próprio, o License Raj. A Indonésia passou mais de três décadas sob a ditadura de Suharto, sinônimo de corrupção e nepotismo. O Vietnã continua governado por um partido único de inspiração comunista. Nenhum desses países pode ser apontado como modelo de boa administração, e, em vários aspectos, seus governos foram piores do que o brasileiro.
No entanto, desde o início dos anos 1990, a renda por habitante da Índia, medida em paridade de poder de compra, mais que quadruplicou; a da Indonésia triplicou; o Vietnã deixou de ser um país arrasado pela guerra para se tornar uma potência exportadora. No mesmo período, a renda por habitante do Brasil cresceu cerca de 60%.
Pode-se objetar que esse crescimento foi planejado — que a Ásia é o triunfo do Estado desenvolvimentista. A cronologia desmente a objeção. A Índia só decolou depois de 1991, quando desmontou boa parte do sistema de licenças e abriu sua economia. O Vietnã começou a crescer com o Doi Moi, em 1986, quando o próprio partido comunista abandonou o planejamento central e abriu espaço à iniciativa privada e ao comércio.
Há ainda um elemento que costuma passar despercebido. A própria fragilidade desses Estados — incapazes de regular tudo, de tributar tudo, de controlar tudo — oferecia exatamente o que o capital procurava: populações imensas dispostas a trabalhar e condições para absorver a produção que as economias superreguladas da Europa e dos Estados Unidos já não conseguiam sustentar. Fábricas, tecnologias e conhecimento migraram para onde havia menos obstáculos.
Não foi a força desses governos que atraiu o capital; foi justamente a incapacidade deles de alcançar boa parte da vida econômica. O ponto de virada, em cada caso, não foi o momento em que o governo passou a fazer mais, mas o momento em que passou a impedir menos. Governos ruins, autoritários e corruptos não impediram o desenvolvimento quando deixaram espaço para que milhões de pessoas buscassem melhorar a própria vida.
O desenvolvimento não é obra de governos. É obra das pessoas, quando o governo sai do caminho.
A ordem que ninguém projetou
Friedrich Hayek mostrou que a maior parte da ordem social não foi desenhada por ninguém. Ela emerge das ações de milhões de indivíduos, e toda ação nasce do mesmo ponto: o sentimento consciente da escassez, do qual surge o propósito. É o sentimento que atribui valor às coisas, não o raciocínio — a razão apenas escolhe os meios. Perseguindo esses propósitos com conhecimentos dispersos e muitas vezes tácitos, as pessoas ajustam continuamente seus planos umas às outras, formando uma estrutura de cooperação que nenhuma mente — ou ministério — seria capaz de conceber.
Aqui está o limite de qualquer planejamento, por maior que seja a boa vontade de quem planeja. Não se trata de falta de capacidade de processamento: o valor não é uma grandeza objetiva à espera de cálculo. Ele existe no sentimento de cada pessoa, muda com as circunstâncias e só se revela nas trocas. Os preços livres são o termômetro desse valor — a resultante das escolhas de milhões de pessoas, visível para todos. Esse foi o ponto de Ludwig von Mises: sem preços livres, não há como saber o que é escasso, o que é abundante e onde os recursos são mais urgentes. O problema do planejador não é de inteligência, mas de informação.
Por isso uma sociedade se parece menos com uma máquina operada por um condutor e mais com um fenômeno natural de grande escala, cuja força resulta de incontáveis movimentos que ninguém comanda. O governo pode erguer barreiras, desviar cursos e provocar enormes estragos. Não pode ordenar que a sociedade deixe de se transformar nem decidir para onde ela vai. A ordem espontânea não pede autorização para existir.
O país real e o país administrado
O Brasil é uma demonstração eloquente dessa resistência. Nas últimas quatro décadas, o país atravessou hiperinflação, cinco moedas, o confisco da poupança, dois impeachments, crises fiscais recorrentes, governos de orientações opostas e uma sucessão interminável de mudanças nas regras que regem a atividade produtiva. Qualquer manual de economia preveria, diante desse histórico, uma sociedade paralisada.
Não foi o que aconteceu. Nesse mesmo período, o agricultor brasileiro passou a operar com sistemas de precisão, máquinas guiadas por satélite e uma produtividade que transformou o país num dos maiores produtores de alimentos do planeta. Pequenos comerciantes passaram a vender pela internet para clientes que jamais conheceriam pessoalmente. Trabalhadores incorporaram ferramentas de inteligência artificial à sua rotina antes que qualquer regulamentação soubesse defini-las. O sistema de pagamentos instantâneos alterou os hábitos de dezenas de milhões de pessoas em poucos anos.
Costuma-se atribuir ao governo parte do mérito por esses avanços, mas a ordem dos acontecimentos mostra quem conduziu quem: a estabilização só veio depois que a hiperinflação tornou o país ingovernável e a sociedade já se protegia com todo tipo de indexação; a modernização dos pagamentos, quando a tecnologia e o mercado já haviam tornado obsoleto o sistema anterior. O Estado esteve sempre atrás, agindo sob pressão — e, ao lado dessas reações tardias, encareceu o crédito, inflou a burocracia e desviou recursos para atividades improdutivas.
Essa resistência não é acaso. A ordem espontânea está sujeita a uma espécie de seleção natural imposta pela escassez: práticas, hábitos e formas de organização que permitem atravessar as dificuldades se preservam e se difundem; as que fracassam desaparecem. Uma sociedade submetida durante décadas a choques inflacionários, confiscos, mudanças bruscas de regras e instabilidade política não passa por esse ambiente impunemente — ela é moldada por ele. O brasileiro aprendeu a indexar preços antes que o governo o fizesse, a proteger suas reservas de decisões arbitrárias, a recorrer à informalidade quando a formalidade se tornava inviável, a improvisar soluções quando as instituições falhavam e a desconfiar de promessas oficiais. Cada solavanco eliminou estratégias frágeis e selecionou comportamentos mais resilientes.
O resultado é uma capacidade de adaptação distribuída, forjada pela própria adversidade, que continua operando independentemente das preferências de quem ocupa o poder. É ela que explica por que o país real é sempre muito maior do que o país administrado, por que tantas previsões apocalípticas feitas a cada eleição acabam não se confirmando — e por que a sociedade brasileira chega aos próximos quatro anos mais equipada do que imagina para enfrentar o que vier. Poucos povos foram tão treinados pela instabilidade.
Venezuela e Argentina: os limites do dano
O exemplo que alimenta os temores mais sombrios é o venezuelano. Décadas de controle de preços, expropriações, captura da estatal de petróleo e repressão política produziram um colapso econômico raro em tempos de paz e a emigração de milhões de pessoas. Mas a Venezuela não foi arrasada por uma guerra. Suas cidades, estradas, poços e refinarias continuam lá, ainda que degradados pela falta de investimento. O que o regime destruiu não foram as coisas, mas as condições para usá-las: os preços que orientavam a produção, a moeda que permitia o cálculo econômico, a segurança jurídica e a confiança que sustentavam as trocas. Com a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro, abriu-se uma transição incerta. Mas a mera possibilidade de reconstrução diz algo essencial: as pessoas, seus conhecimentos e sua disposição de recomeçar nunca deixaram de existir.
A Argentina mostra o passo seguinte. Depois de décadas de inflação crônica, controles cambiais e moratórias, o país passou a devolver liberdades: menos controles, menos emissão de moeda, menos barreiras a quem produz. Depois do ajuste de 2024, a economia cresceu 4,4% em 2025, puxada pela agropecuária, pela mineração e pelos serviços financeiros. Ninguém precisou reinventar a população, o território ou as jazidas. Os agricultores, engenheiros e comerciantes já estavam lá; o que mudou foi parte das restrições que os impediam de agir.
A capacidade produtiva de uma sociedade não desaparece porque suas instituições funcionam mal. Fica reprimida, desperdiçada ou desviada — para a informalidade, para a proteção contra a inflação, para outros países. Quando as condições mudam, ela volta a se manifestar. A recuperação não é instantânea, mas é uma tendência inevitável da ordem espontânea: basta permitir que aconteça. A riqueza não nasce de decretos. Nasce da ação humana, que jamais deixa de buscar meios de superar a escassez.
Por que o Brasil não está condenado a ser a Venezuela
O temor de que o Brasil siga o caminho venezuelano reaparece a cada eleição. Quem se tranquiliza costuma apontar um freio específico: para uns, é o centrão, que barganha tudo, mas não deixa ninguém governar sozinho; para outros, é uma burocracia permanente, uma espécie de deep state que sobrevive a qualquer governo. Ambos enxergam uma parte e a confundem com o todo. O freio não está num lugar; está em toda parte — nos governos estaduais com bases próprias de poder, num agronegócio que responde a mercados globais e não a ministérios, nas igrejas e associações com enorme capacidade de mobilização, numa rede de comunicação que não depende da grande mídia tradicional nem de verbas oficiais, num Congresso em que o PL e seus aliados são maioria, em milhões de interesses que não se deixam reduzir a uma única orientação política. Ninguém o projetou, e, por isso, ninguém consegue desmontá-lo de uma vez. É ordem espontânea.
O Estado não produz riqueza; vive do que extrai da sociedade. Como todo parasita, depende da sobrevivência do hospedeiro. O economista Mancur Olson descreveu essa lógica ao distinguir o bandido itinerante, que saqueia tudo e segue adiante, do bandido estacionário, que pretende continuar extraindo amanhã e, por isso, tem interesse em que sua vítima continue produzindo. A seleção natural da escassez não atua apenas sobre a sociedade. Atua também sobre quem vive dela.
A máquina pública brasileira passou por esse processo. O confisco de 1990 cobrou um preço político tão alto que nenhum governo desde então ousou repeti-lo. A hiperinflação desmoralizou governo após governo, até que o próprio sistema político produziu o Real e, depois, a Lei de Responsabilidade Fiscal — não por virtude, mas por sobrevivência. Quando essa lição foi esquecida, a cobrança veio de novo: a recessão de 2015 e 2016, uma das mais profundas da história do país, somada às manobras fiscais que tentavam escondê-la, levou o próprio sistema a ejetar Dilma Rousseff do Planalto.
Ao longo de décadas, a estrutura que se alimenta da sociedade brasileira aprendeu, a duras penas, os limites além dos quais aciona o sistema imunológico do hospedeiro. Quem a ensinou foi a própria sociedade, que a cada abuso cobrou o preço. Na Venezuela, o regime que consumiu o hospedeiro terminou isolado, empobrecido e, por fim, derrubado. No Brasil, entre desejar controlar a sociedade e conseguir controlá-la existe uma distância imensa — e essa distância é ocupada pela própria sociedade.
A sacralização da política
Grande parte da angústia que acompanha as eleições nasce de uma superestimação do poder político. Quando se acredita que o governo determina o futuro de uma nação, cada eleição vira um juízo final: a vitória do próprio candidato assume ares de redenção; a do adversário, de catástrofe. É a lógica da política convertida em religião, que transfere para o Estado as esperanças e os medos que deveriam estar distribuídos entre as muitas esferas da vida — e entrega a terceiros o controle sobre o próprio ânimo.
Governos, no entanto, são transitórios. A sociedade os antecede e continua existindo depois deles. Enquanto um presidente ocupa o cargo, as pessoas seguem trabalhando, estudando, empreendendo, formando famílias, desenvolvendo tecnologias e procurando soluções para seus problemas. O processo de transformação social não é suspenso por quatro anos à espera do próximo pleito. Governos podem torná-lo mais lento, mais caro e mais penoso. Mas governantes são atores da história como todos nós — mais um entre milhões de agentes, não seus autores.
O que resta fazer
Diante de um governo com o qual não se concorda, existem respostas mais produtivas do que o desespero ou a resignação — e tampouco a rebeldia reativa, que só serve para nos colocar no alvo do sistema.
A primeira é recolocar a política em seu devido lugar. O voto não é o instrumento de alternância que as teorias da democracia prometem; é, antes, um mecanismo de controle do próprio sistema, que não se reveza de fato — apenas troca de verniz a cada eleição para manter a ilusão dos incautos. Fiscalizar governantes, defender liberdades e disputar ideias continuam tendo valor, mas nada disso exige acreditar que o futuro se decide nas urnas.
A segunda é reconhecer que a transformação da sociedade ocorre continuamente e, em grande parte, fora das instituições políticas. Uma inovação tecnológica pode alterar a vida de milhões de pessoas sem ter sido concebida por nenhum governo. Uma nova forma de organização econômica pode tornar obsoletas estruturas que pareciam permanentes. Uma mudança cultural pode transformar comportamentos que nenhuma legislação conseguiria impor. As maiores mudanças da vida brasileira nas últimas décadas não foram votadas.
A terceira é construir a própria cidadela de soberania individual, fora do alcance dos tentáculos do sistema: o conhecimento que cada um acumula, o patrimônio que constrói, as relações voluntárias que estabelece, a independência que consegue construir. Essa autonomia é também uma forma de limitar o alcance do poder. Uma sociedade composta por pessoas menos dependentes de decisões centralizadas é uma sociedade mais difícil de controlar. Esse tema merece tratamento próprio, e voltarei a ele.
A sociedade é maior do que o Estado
Nenhum governo deve ser considerado irrelevante. O poder coercitivo é real, e suas consequências podem ser enormes. Mas sua capacidade é a de perturbar a ordem, não a de destruí-la — e muito menos a de criá-la.
Um governante pode ordenar o fechamento de uma empresa; não pode ordenar o surgimento de uma inovação genuína. Pode restringir trocas comerciais; não pode eliminar as necessidades que levam as pessoas a cooperar. Pode dificultar a circulação do conhecimento; não pode determinar quais ideias serão descobertas. Pode tributar o fruto do trabalho; não pode produzir, por decreto, a disposição de trabalhar.
A ordem espontânea não depende da boa vontade de governos para se manifestar. A sociedade possui uma dinâmica própria, que não está disponível ao comando político e que tende, sempre que lhe permitem, a prosperar. Por isso, diante de mais quatro anos de um governo que metade do país rejeitou, talvez a pergunta decisiva não seja o que acontecerá conosco até o fim do mandato. A pergunta é o que continuaremos capazes de construir, apesar das circunstâncias.
Presidentes passam, governos terminam, regimes desaparecem. A sociedade continua. E sua força criativa nunca coube na ambição de quem deseja controlá-la.
*Flávio Amoedo é Engenheiro de Transformação Digital e autor de A Arquitetura Oculta da Mente e de vários outros livros.



