A Groenlândia deveria buscar a independência

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O interesse do presidente Donald Trump pela Groenlândia colocou a questão da independência do território no centro das atenções. Essa ilha vasta, mas em sua maior parte árida, foi colonizada pela primeira vez por povos vindos da Islândia no século X. Em 1261, tornou-se um território tributário do rei da Noruega (e, posteriormente, do rei da Dinamarca), mas os assentamentos europeus desapareceram durante o século XV.

Quando missionários dinamarqueses chegaram à Groenlândia, no início do século XVIII, encontraram apenas alguns milhares de inuítes originários da América do Norte espalhados pela ilha. A Groenlândia foi uma colônia dinamarquesa até receber autonomia em 1979. Mas deveria tornar-se independente? A economista Anne Sibert, uma “eurorromântica” convicta (isto é, alguém que tem um forte apego emocional à União Europeia), apresenta alguns argumentos contra a independência da Groenlândia.

Economias pequenas são mais adaptáveis

Sibert argumenta que pequenas economias são mais voláteis do que as grandes porque são menos diversificadas. Seu argumento pode ser válido em alguns casos, mas a Grande Depressão também começou nos Estados Unidos, assim como a crise financeira de 2007–2009. Muitos países pequenos também aprenderam a lidar com crises. Suas economias costumam ser transparentes e adaptáveis, respondendo rapidamente a choques externos.

Nenhuma economia de escala perceptível

Sibert argumenta que as economias de escala prejudicam os Estados pequenos: como a oferta de bens públicos envolve custos fixos, ela costuma ser mais barata por pessoa em países maiores. No entanto, ela está errada. Na realidade, países maiores gastam mais do que países menores em funções essenciais do governo. Em 2023, segundo a OCDE, os Estados Unidos destinaram 6,9% do PIB a serviços públicos gerais (incluindo órgãos executivos e legislativos, relações exteriores, pesquisa básica, serviço da dívida, entre outros), 3,0% à defesa e 1,9% à ordem pública e segurança. No Reino Unido, os respectivos valores foram 6,4%, 2,2% e 2,2%. Os valores da Islândia foram 8,8%, 0,1% e 1,6%. Na Dinamarca, os valores ficaram em 5,8%, 1,8% e 0,9%. Esses números não indicam claramente a existência de economias de escala.

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Mais solidariedade em países pequenos

Sibert argumenta que muitos países são vulneráveis a desastres naturais e danos ambientais, mas que países grandes terão mais facilidade para se proteger contra esses choques. Pode-se argumentar o contrário. Países grandes tendem a ser mais heterogêneos do que países pequenos, o que pode levar a um sentimento de solidariedade mais fraco. Além disso, em países grandes, muitos desastres naturais ocorrem longe do centro do governo, que muitas vezes dá pouca atenção a eles. Um terremoto em Sichuan não passa de uma notícia em Pequim.

Frequentemente, há mais corrupção em países grandes

Sibert argumenta que países pequenos são mais propensos ao nepotismo e à corrupção do que países grandes. Mais uma vez, ela está enganada. Os cinco países nórdicos são relativamente pequenos, mas o nepotismo e a corrupção são raros nesses países. Já o maior país da Europa, a Rússia, é notoriamente corrupto. Embora Sibert seja uma eurorromântica, ela deve se lembrar de que, em 1999, toda a Comissão Europeia teve de renunciar após surgirem evidências de incompetência, compadrio, nepotismo e fraude.

Os groenlandeses conhecem melhor seus próprios interesses do que os dinamarqueses

Argumentos mais convincentes contra a independência da Groenlândia podem incluir a possível falta de uma cultura cívica sólida e a vulnerabilidade estratégica decorrente de ser um país extenso com uma população pequena. No entanto, o principal argumento a favor da independência da Groenlândia é que os groenlandeses provavelmente sabem melhor do que os burocratas de Copenhague o que é melhor para seus próprios interesses. Uma Groenlândia independente não precisa romper todos os laços com a Dinamarca. Ela poderia manter a monarquia (como fazem muitos pequenos países da Commonwealth) e delegar determinadas funções à Dinamarca, à Islândia, ao Canadá e aos Estados Unidos. Provavelmente, deveria seguir o exemplo da Islândia e firmar um tratado de defesa com os Estados Unidos.

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Hannes Gissurarson

Hannes Gissurarson

É professor emérito de ciência política na Universidade da Islândia e comentarista frequente sobre assuntos atuais na mídia islandesa, além de membro da Sociedade Mont Pêlerin. Ele é mais conhecido como um ferrenho porta-voz das políticas de livre mercado ou liberalismo clássico. É bacharel em Filosofia e História e mestre em História pela Universidade da Islândia, além de PHD em Política na Universidade de Oxford.

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