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Os motivos para o total colapso da economia russa

Nós estamos nos aproximando de um momento histórico: o total colapso da economia russa. O motivo todos vocês já sabem: são as sanções do Ocidente. O que vocês talvez não saibam é como e por que esse castelo de cartas vai cair. Esse é o objetivo deste texto.

Putin recentemente disse que os países ocidentais declararam “guerra econômica” à Rússia. Apesar de ser um termo novo, ele está absolutamente correto em dizer que as sanções são uma operação de guerra não-declarada contra seu país. A ideia é maximizar o choque sistêmico para paralisar as cadeias tecnológicas, o que levará a uma derrota militar que acarretará a queda do regime. Sim, derrotas militares humilhantes podem derrubar regimes e dentro da história russa temos pelo menos dois exemplos.

Tanto contra o Afeganistão (década de 80) quanto contra o Japão (1904-5), o discurso foi mais ou menos parecido: temos um inimigo fraco, menos desenvolvido tecnologicamente, com menos recursos e com um poder militar inferior. Cheios de confiança, os russos se lançaram contra esses povos e sofreram derrotas constrangedoras que eventualmente levaram ao fim dos regimes vigentes — o regime do Partido Comunista e o czarismo, respectivamente. Não estou dizendo que as derrotas foram as únicas causas, mas sem dúvida tiveram um importante papel para o fim de uma áurea de invencibilidade. A guerra contra a Ucrânia até o momento segue esse roteiro – já se passaram duas semanas e nada de Kiev (que está a 300 km da fronteira) ser tomada.

Vale ressaltar que os conflitos citados no parágrafo anterior não causaram grandes perdas – tanto econômicas quanto humanas – para a Rússia. Porém, a guerra contra a Ucrânia é bem diferente e o povo russo já está sentindo na pele os problemas que ela vem trazendo. Todos nós vimos uma multidão de russos indo até o McDonald’s e a IKEA depois de tais empresas anunciarem que vão fechar suas operações no país.

A inflação disparou e o rublo conseguiu a proeza de valer menos que o peso argentino.

O Banco Central da Rússia proibiu hoje as pessoas de comprarem dólares ou euros em dinheiro por três meses. Curiosamente, ele não proibiu a conversão de rublos para dólares ou euros em suas contas bancárias. Em outras palavras, um russo está autorizado a manter moeda estrangeira em bancos (russos). O que ele não pode é sacar dinheiro. Mesmo assim, milhares de russos estão fazendo filas nos caixas eletrônicos do país para sacar rublos. Motivo? Há uma enorme possibilidade de Putin confiscar as poupanças dos cidadãos.

A destruição de cadeias tecnológicas já começou a ocorrer e é algo ainda pior quando se está em meio a uma guerra. A maior produtora de automóveis, a Avtovaz, começou a interromper sua produção. As fábricas da Renault e da Hyundai na Rússia também pararam. Por quê? Falta de microchips, que já é um grande gargalo na indústria moderna e que a Rússia não produz. A China teoricamente poderia preencher a lacuna, mas levará anos para isso acontecer (ela também importa), ao passo que muitas fábricas já estão parando a produção e demitindo trabalhadores. Quem é especialmente vulnerável? Aqueles que trabalham para o mercado interno. Destruída a demanda doméstica, não precisamos mais de produtores nacionais.

Aguardem que haverá demissões em larga escala em breve. Vale ressaltar que a Rússia depende imensamente de caminhões para abastecer suas tropas na Ucrânia, então sem microchips, sem caminhões também. Além disso, Zelensky destruiu os principais pontos de conexão de sua malha ferroviária com a Rússia no início da invasão, dificultando ainda mais o problema dos russos. Há uma falta enorme de veículos para auxiliar na logística militar. Todos nós já vimos imagens e notícias de tanques russos abandonados por falta de combustível. Creio que em breve aparecerão em massa imagens de soldados se rendendo ou abandonando seus postos por fome.

Sobre a demanda internacional, a situação é um pouco mais complexa. Temos dois lados: exportação e importação e, em resumo, a Rússia é uma exportadora de hidrocarbonetos (seu grande comprador é o Ocidente) e importadora de tecnologia. Seus clientes já começaram a se movimentar para depender menos do produto russo. Os americanos estão se re-aproximando dos venezuelanos, algo que foi muito bem visto por Maduro. Disse o mandatário bigodudo: “Tivemos uma reunião, posso classificá-la de respeitosa, cordial, muito diplomática (…) Lá estavam as bandeiras dos Estados Unidos e da Venezuela e se viam muito bonitas. As duas bandeiras, unidas, como devem estar”. Os alemães se recusaram a ligar o NordStream 2 – um gasoduto que conecta a Rússia à Alemanha. Além disso, há a questão das greves. Em uma indústria petroquímica em Nizhnekamsk ocorreu uma greve devido à perda de poder de compra do salário e acredito que esta não será a única. Porém, ressalto que, no campo de exportação, o cenário ainda não está tão grave.

Porém, na parte de importação, podemos afirmar que o caos já começa a se instalar. Além dos já citados microchips, outro exemplo são os sistemas de computador da Cisco. A empresa parou suas operações; e pretende bloquear e parar de dar manutenção nos equipamentos. Poderia haver alternativas potenciais para a dependência tecnológica do Ocidente? Sim, a China. Sabemos que Putin está determinado a se reorientar para a China. Porém, há alguns problemas nesse plano.

Em primeiro lugar, a parceria russo-chinesa é muito desigual. A China pode ter qualquer parceiro comercial, enquanto Moscou só tem Beijing. Em outras palavras, os chineses vão disparar o preço de suas exportações para a Rússia e comprar recursos russos a preço de banana. Ou seja, a Rússia se tornará uma colônia econômica chinesa. Em segundo lugar, algumas instituições governamentais russas nunca chegaram a um consenso sobre as relações com a China, e, por isso, a integração econômica com Beijing não foi feita antes da guerra. Além disso, Putin não poderia imaginar que o boicote do Ocidente à Rússia seria deste tamanho.

Agora é tarde. Os russos não têm nem tempo hábil nem material humano antes do colapso para fazer a integração. Um exemplo disso é a questão logística: a Rússia “europeia” (onde mora a maior parte da população) se conecta à Ásia somente pela ferrovia transiberiana. Um único acidente e o trânsito é interrompido, como pode ser visto em 2021. Ano passado uma enchente danificou uma ponte e o tráfego parou. Depois de cinco dias de conserto já havia mais de quinhentos trens esperando. É um gargalo enorme.

Por último, temos o fator mais grave de todos. Ele aumentará o choque sistêmico, impedirá a substituição de importações, prejudicará as exportações, dificultará a integração com a China e obstruirá a produção doméstica. Estou falando da fuga de cérebros. Todos os russos com um mínimo de inteligência entendem como as perspectivas são aterrorizantes. As pessoas estão saindo em massa para onde quer que possam ir, sendo o destino mais popular da emigração a cidade de Tbilisi, capital da Geórgia, tal qual todos os voos já estão reservados (vale lembrar que o espaço aéreo está fechado). A linha férrea com destino a Helsinque também está abarrotada.

E quem está saindo? Bem, a resposta óbvia é “dissidentes e quem discorda do que está acontecendo”. Mas outra resposta é: quem tem habilidades profissionais ​​que os torna empregáveis ​​no mercado internacional, que na prática é um sinônimo para profissionais de tecnologia, TI e engenharia (ciências exatas no geral). Putin sabe disso e já começou a dar incentivos para tais profissionais, liberando-os do alistamento militar.

Dmitry Rogozin, CEO da empresa aeroespacial estatal Roskosmos, emitiu uma ordem executiva proibindo seus funcionários de irem para o exterior, entendendo corretamente que eles poderiam não retornar. Porém, uma coisa é a Coreia do Norte prender seus cidadãos, outra coisa bem diferente é a Rússia. É muito território para que simplesmente seja possível fiscalizar todas as entradas e saídas.

No primeiro mandato da Dilma Rousseff, eu achava que estava presenciando a tempestade perfeita se aproximando da economia brasileira. O que está prestes a acontecer com a Rússia vai fazer de nossa crise de 2015/6 uma brincadeira de criança. Vão ser décadas para o país (se é que vai) conseguir se recuperar do que está por vir mais à frente.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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