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Os liberais e os argumentos contra-intuitivos

“São necessárias somente algumas poucas palavras para estabelecer uma meia-verdade, enquanto precisamos de extensas e áridas dissertações para demonstrar uma verdade inteira”.  Frédéric Bastiat

A leitora Priscila fez o seguinte comentário, a respeito da minha “Carta aberta a Marco Antônio Villa”:

“Sinto muito meu caro, mas o texto de Villa foi perfeito. Ele tem total razão em dizer que os liberais brasileiros não tem muito do que se orgulhar. Principalmente hoje, que metem os pés pelas mãos o tempo todo e não conseguem provar ao povo a sua relevância na sociedade.”

Embora a leitora não tenha impugnado um só dos meus argumentos, nem tampouco reforçado qualquer dos argumentos do Villa, não posso deixar de concordar com ela num ponto.  Os liberais brasileiros precisam melhorar muito o seu poder de convencimento, se quiserem conquistar os corações e mentes do povo.  Caso contrário, o liberalismo tupiniquim jamais deixará de ser um mero enclave intelectual e político, sem qualquer relevância.

Em nossa defesa, entretanto, eu diria que os liberais enfrentam um problema muitas vezes difícil de resolver – não só no Brasil, mas em qualquer lugar do planeta, embora no Brasil isso seja mais pronunciado, devido baixo padrão educacional e cognitivo da maioria.  Resumidamente, o argumento pela liberdade, muito frequentemente, é um argumento contra-intuitivo, ou seja, não parece provável à primeira vista, quando avaliado apenas pela nossa intuição ou pelo senso comum.  Em outras palavras, argumentos liberais, não raro, vão de encontro à intuição, às emoções e outros processos cognitivos fora da racionalidade dedutiva.

Como bem destacou John Stossel, “é preciso trabalho duro para superar a atração do cérebro por soluções simples. Não é fácil convencer as pessoas de que às vezes a melhor maneira de os governos resolverem um problema é fazendo menos, não mais. É mais fácil admirar o ativista ou político que fala sobre ajudar os menos afortunados do que um empresário ganancioso que quer ficar rico vendendo-lhe coisas baratas. Aqueles de nós que enxergam a expansão da esfera privada como a melhor maneira de ajudar as pessoas têm uma batalha muito difícil pela frente”.

O fato é que as primeiras impressões, muitas vezes até “óbvias” para alguns, estão freqüentemente erradas. Assim como os sentidos pouco treinados de nossos antepassados lhes diziam que a terra era orbitada pelo sol (para eles, isso parecia óbvio), os sentimentos do homem comum também lhe dizem que a legislação do salário mínimo faz bem aos trabalhadores menos qualificados, que ajuda externa aos países pobres melhora a vida das pessoas e que tabelamentos de preços em época de inflação ou crises de oferta serão benéficos aos consumidores. Em todos estes casos, porém, como bem sabem os liberais, nossas impressões iniciais são absolutamente enganosas.

Com efeito, não é fácil convencer as pessoas de que o livre mercado é melhor para todo mundo, ainda que, a curto prazo, alguns percam os seus empregos devido à concorrência externa.  Que legislações trabalhistas rigorosas como a nossa prejudicam os trabalhadores menos qualificados, enquanto beneficiam sindicalistas e que tais.  Ou que o socialismo gera pobreza e desolação, apesar de suas pungentes intenções.  É difícil convencer as pessoas – especialmente por conta de sentimentos indizíveis, mas presentes em quase todos os seres humanos – de que pobreza e desigualdade são coisas absolutamente distintas.  Que pode haver redução drástica da pobreza, ainda que a desigualdade de renda aumente.  Que os preços são determinados pela oferta e demanda, e não pelos custos de produção.  Que o valor de um produto está relacionado à sua utilidade marginal, bem como na sua escassez momentânea, e não na quantidade de trabalho necessária à sua produção.

Outro complicador está em que os princípios do liberalismo, muito mais do que fornecer um guia de ação política, informam sobre o que não se deve fazer, contrariando a vocação de ativistas políticos e indivíduos voluntariosos, sempre ávidos a resolver os problemas da humanidade da noite para o dia, de preferência através da lei.  Aqueles princípios nos dizem, por exemplo: Não controlem os preços. Não socializem a medicina. Não aumentem os impostos. Não inflem a oferta de moeda. Não coloquem entraves ao comércio. Não proíbam as drogas.  Não burocratizem a economia.  Convenhamos, isso é tudo que políticos profissionais, demagogos e ativistas da dita “justiça social” não gostariam de ouvir.

A verdade é que, cada geração, pelo menos nos últimos 200 anos, tem testemunhado a batalha entre aqueles que, de um lado, querem usar o poder do Estado para manipular a realidade a fim de que ela caiba em seus devaneios, e, de outro, os liberais, que enxergam a futilidade e inutilidade desta manipulação.  Trata-se de uma batalha incessante e inglória, em que cada pequena vitória deve ser comemorada, embora jamais tenhamos certeza de que a “guerra” será vencida.

Portanto, meu caro amigo leitor, se você é daqueles que acredita no ideário liberal como fonte de justiça, progresso, liberdade e prosperidade, prepare-se para enfrentar batalhas nada fáceis contra o outro lado, tendo sempre em mente que a tarefa deles é bem mais simples que a nossa.

A propósito, estas dicas do Laerence Reed, traduzidas pelo Fábio Ostermann, podem ser de grande valia para aqueles que desejam aventurar-se na disseminação das ideias liberais.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

7 comentários em “Os liberais e os argumentos contra-intuitivos

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    12/01/2015 em 7:38 pm
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    De fato os preços se devem à oferta e demanda, porém os custos induzem à REDUÇÃO da PRODUÇÃO a fim de diminuir a oferta e ser possível um preço compensador.

    Similarmente, quando não é possível aumentar a produção para atender a demanda, isto induz ao AUMENTO do preço para diminuir a demanda, a fim de que esta possa ser atendida.

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    12/01/2015 em 7:34 pm
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    Vamos por partes:

    “Que os preços são determinados pela oferta e demanda, e não pelos custos de produção. Que o valor de um produto está relacionado à sua utilidade marginal, bem como na sua escassez momentânea, e não na quantidade de trabalho necessária à sua produção.”

    Não é bem assim. Os custos influenciam, SIM, nos preços. Isso é fácil de perceber. Afinal, ninguém persistirá vendendo algo por preço abaixo do custo.

    Assim, se os impostos são altos, o empresário terá que aumentar o preço no mercado a fim de que cubra os custos.
    Ocorre que preço mais alto tende a atrair menos consumidores e, desta forma, o empresário terá que DIMINUIR a OFERTA DELIBERADAMENTE ou irá a FALÊNCIA.

    Ou seja:

    1 – A inflação de moeda induz a subida generalizada de preços. Uma vez que a demanda com moeda disponível será maior do que a oferta possível de atende-la.
    …Daí elevação geral de preços, também chamada “inflação”

    2 – A inflação de custos induz a uma redução da produção a fim de igualar a demanda com moeda disponível a um quantitativo com preço capaz de superar os custos de investimento e produção e ainda permitir a remuneração do trabalho do empresário.
    …Daí a redução das quantidades produzidas para não haver encalhe pela elevação dos preços para que cubram os custos. …Também chamada RECESSÃO.

    Eis a razão de INFLAÇÃO de preços e da RECESSÃO.

    • João Luiz Mauad
      12/01/2015 em 9:52 pm
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      Caro Pedro,

      De fato, numa economia cada vez mais complexa e dinâmica, os custos de produção, pelo menos num primeiro momento, tendem a influenciar os preços ofertados. Porém, a maior prova de que eles não são determinantes é o fato de muitas empresas falirem por não conseguir vender seus produtos e serviços por preços que cubram os custos de produção. De fato, o sonho de qualquer empresário seria ter certeza de que venderia sempre seus produtos pelo preço por ele determinado, independentemente da vontade do consumidor.

      O artigo cujo link segue abaixo, escrito já há alguns anos, explica um pouco mais detalhadamente o meu comentário.

      http://www.midiasemmascara.org/arquivos/6429-a-teoria-do-valor-e-o-mito-da-mais-valia.html

      Abraço

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        13/01/2015 em 10:01 am
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        Caro Mauad,
        eu entendi perfeitamente o que você quis dizer. Minha observação é exatamente que preços e custos não são independentes como pode a afirmação fazer parecer.
        O que ocorre é que aquilo cujo a demanda não permite preços capazes de cobrir os custos, simplesmente não é produzido ou leva empresas à falência por incapazes de produzir a custos menores que o preço de mercado.

        Quando um empreendedor planeja produzir algo, que pode ser inédito ou não no mercado, ele avalia os custos que terá e mesmo a possível demanda para adequar o empreendimento ao preço que terá que cobrar. Sobretudo num produto inédito o produtor estipula um preço inicial que cubra seus custos. Se não puder atender à demanda a tal preço ele ELEVARÁ o PREÇO e se encalhar a produção, ele REDUZIRÁ a QUANTIDADE que PRODUZIRÁ a fim de que o preço compense os custos.

        O valor, este sim, é SUBJETIVO. Daí cada um avalia subjetivamente qual o preço que esta disposto a pagar por um produto.
        Assim, pelo lado do CONSUMIDOR os custos não influenciam nos preços. Então eu CONCORDO com você.
        Porém, pelo lado do PRODUTOR os custos influenciam fortemente os preços. Então eu DISCORDO de você.

        A questão é sob qual ponto de vista estamos fazendo afirmações. Exatamente por isso eu escrevi que “não é bem assim”.
        O fato do mercado atuar sob a ótica do consumidor, não implica em desprezo por custos de produção na estipulação dos preços. Tanto que as quantidades produzidas são aumentadas ou reduzidas a fim de cobrir custos. Já a ideia de remuneração ótima num balanceamento entre oferta e demanda para determinado preço, esta sim pode se desprezada com o objetivo de ganhar mercado.

        O fato de custos influenciarem preços não implica em valor. A estúpida farofa da “mais valia” tem a pretenção de estabelecer um valor objetivo para os bens e serviços, numa tosca confusão entre valor e preço. A coisa é tão estúpida que o próprio Marx resolveu explicar uma estupidez com um mistério. Assim, como como é absolutamente e objetivamente idiota afirmar que o valor se deve à quantidade de horas trabalhadas, o politiqueiro contornou tal estupidez preconizando a padronização de quantidades de horas trabalhadas para estabelecer o valor de cada bem ou serviço. O interessante é saber de tal embusteiro o critério objetivo com que estabeleceria os valores padrão para uma infinidade de modelos e tipos de serviços. Ceratamente o critério seria o abítrio dos “iluminados”. Ou seja, o estúpido afirma basear-se na quantidade de horas para inventar a mais valia – que nada é senão a remuneração do trabalho intelectual do empreendedor – mas diante da estupidez de tal afirmação, contorna mudando a própria premissa que deu origem a sua “ciência” do valor.

        Hora, há uma turma de libertários marxistóides que andam a preconizar que o trabalho intelectual do criador ou empreendedor não possui valor remunerável. Assim, tais esquisitos dogmáticos estão propagandeando o absoluto desrespeito ao DIREITO de PROPRIEDADE INTELECTUAL. Dizem-se libertários e para defender exclusivamente o direito de propriedade material invocam, exatamente, a estupidez marxista que atribui ao capital a origem do direito de propriedade do empreendedor.

        Ora, tanto para Marx quanto para estes Marx-libertaróides somente o trabalho braçal e o capital estabelecem o direito de propriedade.
        Assim, pela mesma arbitrariedade com que Marx afirmou que o capital não deveria originar direito de propriedade, mas somente o trabalho braçal, os marx-libertaróides afirmam que o trabalho intelectual não deve gerar direito de propriedade, mas apenas o trabalho braçal (que produz bens fisicos) e o capital.

        Claro que isso não é por acaso e nem gratuito.
        Grandes grupos empresariais se incomodam com o direito de propriedade intelectual, tendo que pagar patentes e sobretudo tendo que incorrerem em custos de pesquisas e desenvolvimente a fim de não serem ultrapassados por indivíduos criativos que patenteiam suas criações e mesmo podem iniciar empreendimentos de rapido crescimento para abalar os ja estabelecidos.
        Desta forma, desprezando-se o direito de propriedade intelectual os grandes grupos com grande disponibilidade de capital crédito podem facilmente sufocar pequenos empreendedores criativos. Já que estes pequenos e criativos empreendedores terão os resultados de seu trabalho intelectual roubado por qualquer um, sob os aplausos de marx-libertaróides. Logo quem tem maior disponibilidade de capitaln e crédito pode facilmente TOMAR a ideia alheia e criar empreendimentos capazes de atender ao mercado e sufocar o progresso de quem investe na criação de bens e serviços sem muito capital. Os grandes empreendimentos estariam desestimulados a investir em pesquisa, pois que seus resultados seriam apropriados gratuitamente por qualquer um que obteria maiores lucros por não ter custos a recuperar.

        Ou seja, sem o direito de propriedade intelectual, aqueles com fartos recursos disponíveis ficariam a espreita para apropriarem-se de inventos e descobertas alheias sem terem que incorrer em custo algum. Ou seja, o criador teria que emprender sem levar em conta os custos de seu investimento, já que seus concorrentes não teriam tal custo a recuperar, podendo de imediato produzir em grande quantidade e determinar o preço de mercado equilibrando oferta e demanda.

        Enfim, aproveitei apenas para expor algo um tanto pertinente à questão. Já que tais marx-libertaróides emporcalham as ideias libertárias com sua militância interesseira e tão estúpida e arbitrária quanto a ds marxistas.

        Em tempo, o direito de propriedade decorre do trabalho. Obviamente quem possui a propriedade tem direito de negocia-la, cede-la ou troca-la livremente. Assim, tanto o trabalho braçal quanto o intelectual dão origem ao direito de propriedade e não o malvado capital que Marx e seus libertaróides afirmam ser a origem. Um negando e outros afirmando, ambos baseados na própria estupidez.
        Aliás a argumentação dos marx-libertaróides já me premiou com fartos risos, de tão estúpida e arbitraria que é. …rsrs

        Forte abraço.

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        13/01/2015 em 1:21 pm
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        Se custos em nada influenciassem nos preços, certamente que a redução de impostos não acarretaria redução de preços, como o caso do IPI, por exemplo.
        Ocorre que o governo teve que optar por diminuir os custos da produção de determinados itens a fim de que a baixa demanda para o preço capaz de cobrir custos não resultasse em redução da produção a fim de manter os preços.

        Há subida de preços devido tanto ao excesso de moeda criada sem lastro tanto quanto os preços sobem devido ao aumento de custos, notadamente da carga tributária que é custo.

        Assim, há inflação de moeda e nflação de custos cuja consequência é a elevação de preços.

        Quanto ao valor, este sim, é absolutamente subjetito e cada um tem uma faixa de preço para aquilo que valoriza subjetivamente. Então o preço de mercado é apenas um equilibrio entre a quantidade do que se esta disposto a ofertar por determinado preço e a demanda para este preço. Vai daí que os custos geram o controle da oferta a fim de balizar os preços. Logo, custos induzem a uma redução ou ampliação da oferta com vista no preço.

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    11/01/2015 em 5:46 am
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    Olá, Mauad! Qual sua opinião sobre o Partido Novo?
    Obrigado, abraço!

    • João Luiz Mauad
      11/01/2015 em 2:01 pm
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      Caro Rhyan, conheço muito pouco o trabalho do Partido Novo. Em princípio, acho que há um longo caminho ainda a ser trilhado pelos liberais no campo da difusão das ideais, antes que tenhamos alguma chance na política. Por outro lado, não há dúvidas de que existe uma demanda grande hoje em dia por um partido genuinamente “de direita” no Brasil. Se vai vingar ou não, só o tempo dirá…

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