Os dois lados de Nelson Mandela

ROBERTO BARRICELLI* Esperei alguns dias para que os ânimos arrefecessem e assim este artigo pudesse no mínimo fomentar um debate digno e ético, com exposição de argumentos e respeito mútuo. Evitando as ofensas desprovidas de lógica ou argumentos, e que considero desrespeito a Liberdade de Expressão (que é para todos), dirigidas a um dos melhores […]

ROBERTO BARRICELLI*

Nelson-Mandela

Esperei alguns dias para que os ânimos arrefecessem e assim este artigo pudesse no mínimo fomentar um debate digno e ético, com exposição de argumentos e respeito mútuo. Evitando as ofensas desprovidas de lógica ou argumentos, e que considero desrespeito a Liberdade de Expressão (que é para todos), dirigidas a um dos melhores (em minha opinião) colunistas do país (no Blog da Veja).

As virtudes de Nelson Mandela existem, pois considero justa a luta contra o regime nefasto do apartheid e a reação (mesmo que armada) como legítima defesa. Também reconheço que ao sair da prisão deixando de lado o rancor e amargura, diferente de revanchistas que se amontoam em “Comissões da Verdade” e sufocam as informações e verdades históricas que não lhes convém, Mandela conseguiu evitar uma Guerra Civil, um enorme feito.

Contudo, não são esses fatos suficientes para uma canonização de Mandela. Primeiro, porque o Congresso Nacional Africano (CNA) foi inegavelmente um grupo terrorista e Mandela era um de seus principais líderes, sendo por causa disso preso. Poucos mencionam que o julgamento de Mandela ocorreu em um tribunal independente, com observadores internacionais e que o próprio acusado assumiu ter cometido todos os crimes do qual fora acusado (eram mais de 190) incluindo a colocação de bombas em locais públicos (não apenas em locais estratégicos sem vítimas civis como alardeiam muitos).

Enquanto a Comunidade Internacional condenava com justiça o regime do apartheid, a Anistia Internacional também condenava as ações do CNA e o classificava como “grupo terrorista”. Inclusive, a Anistia Internacional considerou os atos de Mandela desumanos e se recusou a defendê-lo.

Não é porque algo é injusto que você precisa lutar de maneira igualmente injusta. Ora, a Ditadura de Fulgêncio Baptista em Cuba era injusta, mas a Ditadura dos Castro instalada após a revolução de 1959 conseguiu ser muito pior, levando à morte mais de 115 mil pessoas, entre paredões de fuzilamento e devoradas por tubarões ao tentarem desesperadamente fugir da Ilha Cárcere.

O que dizer da União Soviética? Bem, Lênin lutou contra o regime injusto e abusivo dos Czares, porém a implantação da Ditadura Comunista levou milhões à morte por causas variadas como fome, doenças e assassinados em Gulags (campos de concentração soviéticos). O que dizer de Mao? Cuja ditadura causou a morte de mais de 60 milhões de pessoas na China. Tivera Nelson Mandela vencido a luta armada aquela época, o CNA imporia um regime tão nefasto quanto o apartheid. Por isso a virtude de Mandela ao sair da prisão, ascender ao poder como primeiro presidente negro da África do Sul e não partir para o revanchismo, mas em caminho contrário, evitando uma guerra civil, deve ser destacada.

Mas que fique claro, o homem (de carne e osso) não foi um santo. Entre seus defeitos estão o de apoiar e se manter próximo a ditadores sanguinários como Fidel Castro e apoiando causas abomináveis como a falácia da ocupação da Palestina por Israel. Sim, Israel errou ao ser parceira comercial do regime do apartheid, vendendo-lhes armas até 1987, quando finalmente aderiu ao embargo da comunidade internacional. Porém, isso não justifica o apoio de Mandela à falsa causa Palestina.

Israel detém menos de 0,5% do território do oriente médio e não possui uma gotícula sequer de petróleo em sua pouquíssima extensão. Além disso, mesmo com tão pouco território, o Governo de Israel em 2000 enviou uma proposta atendendo a todas as demandas palestinas, como a devolução de 95% da margem ocidental e todas a Faixa de Gaza, um pacote de compensação de US$30 bilhões para os refugiados palestinos de 1948 e aceitação de um Estado Palestino com capital em Jerusalém. O líder palestino, Yasser Arafat, recusou a proposta e iniciou uma série de ataques terroristas contra Israel.

Nelson Mandela é tido como um defensor da liberdade, mas apoiava um ditadura caribenha que custou milhares de vida inocentes e uma causa islâmica cuja motivação é simplesmente a não aceitação da mera existência do outro lado. A verdade é que Mandela lutou contra uma injustiça tremenda, que era o regime do apartheid, mas não era um defensor da liberdade.

Se assim fosse, não diria que Cuba é um exemplo em termos de liberdade e direitos humanos (ficou claro o conceito de “liberdade” por Mandela?). Nem admiraria um assassino como Che Guevara, afirmando que este fez muito pela liberdade. Será que ele sabia que após tomar Cuba, Che participou de 15 mil assassinatos no paredão, como mandante e em alguns como executor? Não sem antes se mudar para a maior mansão da Ilha, em Tarara, após a “revolução”. Saberia Mandela da opinião de Che Guevara sobre os negros?

“Os negros, os mesmos magníficos exemplares da raça africana que mantiveram sua pureza racial graças ao pouco apego que têm ao banho, viram seu território invadido por um novo tipo de escravo: o português […] O desprezo e a pobreza os unem na luta cotidiana, mas o modo diferente de encarar a vida os separa completamente; o negro indolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão, ao passo que o europeu tem uma tradição de trabalho e de economia”. (CASTAÑEDA, 2006, p.75; KALFON, 1998, p.87).

Após a subida ao poder em 1994, onde permaneceu até 1999, Mandela evitou uma guerra civil iminente, porém, hoje a África do Sul é um dos países mais violentos do mundo, à beira do genocídio de brancos (principalmente fazendeiros) por causa do revanchismo de membros do partido que Mandela ajudou a fundar (os quais ele não afastou quando podia).

Foram gastos bilhões de dólares com a Copa do Mundo de Futebol de 2010, na África do Sul, no entanto, o desemprego entre os negros chegou a 29,8% (mesmo na época do nefasto e demoníaco apartheid era de 20%). A moeda (o rand) desvalorizou aproximadamente 70% desde o início das políticas marxistas de Mandela, em 1994.

Enfim, Nelson Mandela com certeza teve virtudes e um papel muito importante no fim do apartheid. Também evitou uma guerra civil enquanto foi presidente, mas não soube criar um sucessor com mentalidade semelhante nessa área. Errou ao apoiar ditaduras e regimes tão nefastos quanto o apartheid e figuras tão sanguinárias quanto os líderes do regime segregacionista assassino, como Cuba e os Castro, Che Guevara e os terroristas palestinos.

Suas políticas baseadas no marxismo transformaram a África do Sul em um país violento e com índice de desemprego elevado (sem contar o problemas com AIDS e corrupção). Segundo relatório do Daily Mail só em junho de 2013 foram assassinados 25 proprietários rurais brancos e houve outros 100 ataques. Fora as acusações de estupro sobre o atual presidente do país, Jacob Zuma, do partido de Mandela.

Nelson Mandela lutou contra o regime desumano e condenável do apartheid, ficou preso por 27 anos (por crimes que assumiu; inclusive terrorismo), aderiu ao pacifismo após sair da cadeia (lembrando que ele recusou abandonar a luta armada por duas vezes em que fizeram tal proposta como acordo para libertá-lo) e evitou uma guerra civil. Mas também plantou as raízes que fazem da África do Sul um país violento, pobre e doente. Não deve ser demonizado, mas também, nem de longe, deve ser santificado.

*JORNALISTA

  • José Raul Machado Ribas

    O que o articulista Roberto Lacerda Barricelli – (muito bom, por sinal…) – talvez não tenha levado não em conta, é a verdade do antigo dito que informa que “pimenta no fufu do alheio, não dói”…
    Não é fácil julgar Mandela quando “embaralhamos” as várias fases de sua longa vida! Na sua primeira fase praticou como advogado (a exemplo de Gandhi na sua África do Sul) uma revolução pacifista. Entretanto, diante da chacina ocorrida no “levante de Soweto de 1976” deu-se por vencido e apelou para a luta armada até ser preso…
    A questão que fica, ou a pergunta impossível de ser respondida é se o infame apartheid teria sido banido com flores, isto é, sem contar com a mão armada internamente, e a enorme pressão internacional levada a efeito por décadas… Difícil de responder, não?
    O que ninguém parece lembrar é que com os negros postos à margem, holandeses, franceses e ingleses ao apagar das luzes do século XIX se mataram entre si pelo controle da África do Sul nas duas guerras dos bôeres ou bôers, guerra na verdade motivada pelo controle das fabulosas minas de ouro então descoberta, e mais, da produção de DIAMANTES, RIQUEZA QUE O PAÍS AINDA DETÉM 90% DA PRODUÇÃO MUNDIAL!
    Só para concluir, por que o assunto é longo: onde estariam hoje os israelenses sem seus terroristas, “terroristas que o mundo esqueceu?” – Só para lembrar, segue abaixo uma das proezas de Menachem Begin, e acima, no anexo, foto da “proeza”:
    Terrorismo israelense mata civis ingleses em Jerusalém
    O atentado do Hotel King David foi um ataque terrorista na cidade de Jerusalém, na então Palestina, ocorrido a 22 de Julho de 1946, tendo como idealizadores uma organização sionista denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional) e como alvo as instalações do Hotel King David nessa cidade, que eram residenciais dos familiares de funcionários do governo britânico na Palestina. O ataque foi organizado por Menachem Begin que mais tarde ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel por duas vezes. O ataque terrorista resultou na morte de 91 pessoas (28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e 5 outros mortos) e ferimentos graves em outras 45 pessoas.

    José Raul Machado Ribas
    RG 3.864.083-0