O verdadeiro desafio pós dia 28

O clima está tenso. Grupos de amigos se escalpelam, famílias brigam entre seus próprios membros e nas ruas desconhecidos discutem e se enfrentam, algumas vezes transpassando a fronteira da razoabilidade. Estas eleições já serão as mais marcantes da história republicana do Brasil, antes de tudo, pelo engajamento da sociedade, independentemente do resultado final.

A esta altura, a única dúvida é o tamanho da diferença de votos. É hora de pensar no que virá a partir das 21h de domingo, quando já saberemos o placar definitivo. E é exatamente isso que me motiva a escrever de novo sobre este cenário político—eleitoral, assunto de todas as rodas de conversa, redes sociais, Whatsapp e debates dos mais variados tipos – inclusive os das mídias tradicionais.

Três semanas antes do primeiro turno escrevi artigo intitulado “Porque mudei meu voto para Jair Bolsonaro”. Sou defensor de um Estado de direito, baixa intervenção do governo na vida das pessoas/empresas; liberdade de entrada no mercado; ausência de privilégios; igualdade perante a Lei – o que é diferente de igualdade de oportunidades, pois essa utopia não existe –; liberdade de expressão, opinião, opção sexual ou de gênero; ambiente de mercado aberto, inclusivo e globalizado; sistema judicial eficiente, respeitando o contraditório sem perder agilidade; responsabilidade fiscal e adequado uso dos recursos públicos; respeito à propriedade privada, à ordem e direitos civis.

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Esse é o Brasil que quero.

Somos um país atrasado, fechado, burocrático e intervencionista, o que nos torna caro e diminui atratividade de investidores externos. Não geramos poupança privada, temos baixíssima taxa de investimento e o estado é altamente perdulário. Para nos tornarmos uma nação próspera, precisamos mudar este quadro.

A partir de 2a feira iniciaremos uma nova fase e Bolsonaro terá o maior desafio de sua vida, carregando nos ombros a esperança de construirmos um novo Brasil. É uma tremenda responsabilidade e os próximos 20 anos dependerão,
em boa parte, da sua atuação nos primeiros 3-4 meses. Será preciso definir um norte e iniciar caminhada para implementar mudanças estruturais absolutamente necessárias à transformação que tanto desejamos.

Bolsonaro e seus principais colaboradores/influenciadores do alto escalão precisarão ter em mente que uma vez eleitos serão o governo de todos, não apenas dos que os apoiaram nesta fantástica jornada de uma campanha
colaborativa, participativa e inédita – naturalmente aqui não me refiro às publicações extremadas de mau gosto ou às fake news, mas sim ao fenômeno de um candidato outsider, sem dinheiro do fundo partidário e com apenas 8
segundos de televisão, que amealhou 50 milhões de votos no 1o turno. Com o fim da campanha, devem-se enterrar os discursos inflamados, as provocações aos adversários, os xingamentos e os arroubos truculentos daqueles que se excederam. Deve-se respeitar o próximo, inclusive os derrotados nas urnas.

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O Brasil que queremos passa pelo diálogo e tolerância àqueles cuja opinião difere da nossa. Passa pelo profundo respeito, reconhecimento e legitimação da independência dos poderes. Passa pelo fortalecimento e aprimoramento
das instituições. Uma grande nação é grande não pela competência de quem está no governo, mas sim pela solidez e confiabilidade de suas instituições. Será preciso firmeza na sustentação das ideias e propostas, usar argumentos
consistentes e adequada articulação política junto ao legislativo. No plano do judiciário e ministério público, será fundamental garantir atuação independente e respeitosamente acatar decisões, dentro dos limites constitucionais. Assim funciona o sistema democrático de pesos e contrapesos.

Nossa democracia ainda é jovem e tem muitas imperfeições. Nossa constituição é demasiadamente extensa e analítica. Mas, sem a menor sombra de dúvidas, desenvolvemos instituições sólidas que garantem o avanço da
nação brasileira em sua trajetória evolutiva. Não há risco de retrocesso. As minorias serão respeitadas, apesar das decisões se darem por maioria. Afinal, assim é a vida numa democracia.

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Haverá sempre oposição e divergência, e caberá aos derrotados exercer o papel de opositores com a sustentada defesa de ideias e posições contrárias às defendidas pela situação. Muito debate será travado em temas como agenda
de costumes, econômica e política externa. Esperamos maturidade de nossos representantes eleitos para que mantenham a urbanidade e serenidade no parlamento.

Tornamo-nos um país mais politizado, o que é ótimo, mas com o fim do processo eleitoral vamos todos serenar os ânimos. Vamos, cada um de nós, manter a voz ativa e vigilância ao cumprimento de promessas. Mas, antes de
tudo, entender que no final do dia, para nós, cidadãos, não há vencedores e perdedores. Somos todos brasileiros e queremos o melhor para nosso país e nossos filhos.

E a vida continua… na 2a feira, independentemente do resultado das urnas, sairemos para trabalhar e seguir na luta para transformar nossos sonhos em realidade.

#somostodosBrasil #nãoàviolência #respeitoetolerância

Sobre o autor: Paulo Stewart é empresário.

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