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O que Star Wars nos ensina sobre guerra, liberdade e natureza humana

Nesta semana ocorreu o 4 de Maio, o dia mundial do Star Wars – “May the Fourth be with you”. Assim, resolvi escrever esse texto sobre o que Star Wars nos traz sobre guerra, liberdade e natureza humana. Quero deixar claro que o texto é sobre a franquia “Star Wars” e não sobre atores que vivem adulando políticos corruptos e incompetentes (infelizmente a turma de Hollywood não é muito diferente do Projac).

Certa vez, Alexis de Tocqueville escreveu que a guerra é o caminho mais seguro e mais curto para destruir a liberdade em uma nação democrática. Há alguns exemplos na história que confirmam essa hipótese. A República Romana caiu depois de uma guerra na Gália somada a uma guerra civil. No Brasil, a ditadura militar começou sob a justificativa de um golpe comunista. Mais recentemente, temos o caso da Rússia, cuja democracia foi perdida após algumas aventuras militares de Putin (Chechênia e Geórgia), que deixaram o líder russo extremamente popular. Na franquia não é diferente. Sob a justificativa de proteger a República Galáctica contra os Jedi, o Chanceler Palpatine resolve destrui-la para dar lugar a um Império.

Este está longe de ser o único ponto em que podemos nos identificar com a série. George Lucas compreendeu como poucos o poder do mito para a psiquê humana, mais especificamente, da Jornada do Herói, algo que nos segue desde os tempos da Odisseia de Ulisses. Tal jornada, identificada por Joseph Campbell, na obra O Herói de Mil Faces, consiste em uma história onde um indivíduo com uma vida aparentemente normal sofre algum tipo de revés e, com a ajuda de mentores e amigos deve enfrentar grandes aventuras e vilões. Campbell identificou essa estrutura em praticamente todas as culturas. Porém, além da jornada do herói, Star Wars contém um elemento bastante moderno, trazido pela disseminação dos valores americanos ao redor do globo: a busca pela liberdade. Assim como na vida real, os personagens dos filmes têm que lutar por ela.

Por que o Império é uma ameaça tão grande à liberdade?

Em “Star Wars: Rebels”, Stormtroopers e outros agentes imperiais são frequentemente vistos recrutando pessoas à força para o exército e confiscando suas propriedades sem compensação. Mais recentemente, em “Rogue One”, vemos um Star Destroyer pairando sobre uma mina Kybur Crystal, e o Império parece forçar as pessoas a trabalharem nas minas para adquirir componentes-chave da Estrela da Morte. Em “Star Wars: O Despertar da Força”, o Stormtrooper reformado Finn (FN-2187) explica a Rey que ele foi tirado de sua família quando criança, recrutado para o Exército da Primeira Ordem e treinado para ser um soldado. Todas essas são uma forma de escravidão que muitos governos do mundo real usaram ao longo da história.

Além disso, a quantidade de contrabando que há na franquia implica que há sérias restrições ao comércio. Vale lembrar que Han Solo, um dos principais personagens, é um contrabandista. Toda nação sem liberdade tem suas atividades comerciais muito controladas, sendo o exemplo mais conhecido por nós o Brasil-Colônia: até a abertura dos portos só podíamos comercializar com Portugal. Ou seja, o Império tirava não somente a liberdade individual, mas também a econômica. Difícil imaginar uma fórmula melhor para ser odiado pela população.

Não consigo me lembrar de um povo ou um país que conseguiu sua liberdade sem algum tipo de luta, e o mesmo acontece na série. Após perderem sua democracia, os republicanos, agora chamados de “rebeldes”, organizam uma resistência para derrubar o agora Imperador Palpatine. “Liberdade não se ganha, se conquista.”

E como esse político aparentemente benigno chegou ao poder? Todos os passos na ascensão do Dark Lord ao poder total, foram possibilitados por crises belicistas que ele mesmo projetou. Ao longo da história, governantes, regimes e grupos de poder (assim como Sidious e os Sith) arrastaram seus países para guerras para adquirir, fortalecer e aumentar seu poder. Em 1999, uma série de ataques terroristas ocorreu na Rússia, Putin culpou os chechenos e iniciou-se assim a invasão russa à Chechênia. Um fato interessante é que agentes da FSB (serviço de segurança russo) foram presos plantando as bombas, mas foram soltos por ordem de Moscou. Esse jogo quase sempre funciona, porque a guerra ativa o que Randolph Bourne chamou de “mente de rebanho.”

Aterrorizados pelas ameaças da guerra e despertados por seus prêmios, os cidadãos reagem como um rebanho assustado ou uma matilha faminta. Eles cedem suas liberdades, até o ponto de renunciar à sua individualidade (os soldados imperiais eram todos clones de um único homem). Um diálogo interessante ocorre entre Padmé e Anakin durante uma conversa sobre a inabilidade do Senado Galáctico em lidar com as crises causadas por Palpatine:

ANAKIN: Eu não acho que o sistema funcione.

PADMÉ: Como você faria isso funcionar?

ANAKIN: Precisamos de um sistema em que os políticos se sentem e discutam os problemas, concordem com o que é do melhor interesse de todas as pessoas e depois façam isso.

PADMÉ: Isso é exatamente o que fazemos. O problema é que as pessoas nem sempre concordam. Na verdade, eles quase nunca o fazem.

ANAKIN: Então eles devem ser forçados.

PADMÉ: Por quem? Quem vai forçá-los? (…)

ANAKIN: Alguém sábio.

PADMÉ: Isso soa muito como uma ditadura para mim.

ANAKIN: Bem, se funcionar…

Como Hayek explicou em O Caminho da Servidão, tal impulso em direção à ditadura entre aqueles “impacientes com a impotência da democracia” ocorre com frequência. Para o austríaco, a incapacidade das assembleias democráticas de produzir um plano e executá-lo evocará demandas cada vez mais fortes de que o governo ou algum indivíduo deva receber poderes para agir sem “pesos e contrapesos”. Em outras palavras, quando os ditadores chegam ao poder, geralmente é porque muitos do público estão clamando por isso, ansiosos por um Alexandre que corte o nó górdio da discórdia parlamentar. Essas pessoas anseiam por um déspota esclarecido e ficam felizes quando o recebem – porém, mal sabem elas que é mais provável que tal governante seja um Calígula do que um Frederico, o Grande. Como Padmé comentou sobre a declaração do Império de Palpatine: “Então é assim que a liberdade morre: com aplausos estrondosos.”

*Artigo publicado por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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