O PT e os desafios para a oposição

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Em 1947, em discurso na câmara baixa do parlamento britânico, o ex-primeiro-ministro e então líder da oposição Winston Churchill proferiu a célebre frase: “A democracia é a pior forma de governo, excetuadas todas as outras que já foram tentadas”. Passados quase 70 anos, a máxima churchilliana parece ainda se aplicar. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia segue sendo a melhor opção disponível no mercado. Seus grandes trunfos em relação às alternativas são permitir que os anseios de diversos estratos da sociedade encontrem eco na representação política. Além de possibilitar, com relativa facilidade – sem a necessidade de rupturas institucionais –, que o povo se livre de governos e governantes indesejáveis.

No Brasil, a tradição democrática ainda é incipiente. Nossa redemocratização data de menos de 30 anos. Nesse período, as instituições passaram por poucas e boas. Como na vida de qualquer pessoa, os primeiros anos da democracia brasileira foram de muitos aprendizados. E muitos tropeços também. Basta lembrar da hiperinflação, dos seis diferentes planos econômicos, da morte do primeiro presidente eleito pós-ditadura (Tancredo Neves) dias antes da sua posse, e do impeachment constitucional do primeiro presidente eleito diretamente (Fernando Collor de Mello).

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O mais recente desafio à estabilidade democrática parece ser suportar as tentativas sistemáticas, por parte do Partido dos Trabalhadores, de subverter os próprios pilares do regime de governo: o pluralismo político, a separação de poderes, a livre iniciativa, a propriedade privada e a liberdade de imprensa. O PT se negou a votar em Tancredo contra Maluf em 1984, e ainda expulsou três deputados que o fizeram. Além disso, a sigla rejeitou a Constituição de 1988 e votou contra o Plano Real em 1994. Após a eleitoreira “Carta ao Povo Brasileiro”, de 2002, uma parte da opinião pública passou a acreditar que o partido havia finalmente aderido às lides da democracia liberal e do Estado Democrático de Direito. Ledo engano. Os 12 anos de administração petista no governo federal demonstram que seu projeto político não concebe a possibilidade de alternância de poder. O PT se ocupa diuturnamente de testar os limites das instituições brasileiras, colocando sempre que possível os interesses do partido à frente dos interesses do País.

Mas, em parte, o sucesso eleitoral do PT traz consigo a semente da sua própria derrota. A legenda que historicamente se destacou pela ocupação de espaços estratégicos na sociedade – imprensa, academia, empresariado etc. –, seguindo a estratégia gramsciana, hoje se baseia no neocoronelismo. O regime, diga-se, é sustentado por relações de vassalagem entre Brasília e mandatários locais dos rincões mais pobres e subdesenvolvidos do País. Suas práticas assistencialistas encontram ressonância junto às camadas mais pobres da população, aquela que, como o próprio ex-presidente Lula afirmou antes de assumir o Planalto, “é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça”. Sua retórica de luta de classes, entretanto, não apela à chamada nova classe média. Ou seja, àquele trabalhador que conquista sua casa própria, seu carro e sua independência financeira.

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Para horror dos intelectuais do PT, quem ascende da miséria está mais interessado em usufruir dos prazeres de uma “vida burguesa” do que em fazer a “revolução proletária”. A nova classe média quer estudar, trabalhar, consumir, dar uma vida melhor para suas famílias, pagar poucos impostos, pouco se importando com a tal “consciência de classe”. Querem ser burgueses, não proletários. Querem assumir os rumos de suas próprias vidas, e não se submeterem ao governo ou ao partido – ainda que não disponham dos canais para externalizar politicamente estes anseios.

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A oposição precisa realizar a adequada leitura desse cenário e compreender que seu trabalho não termina ao fim das eleições: está apenas começando. Oposição política não é uma brincadeira que se pratica ao longo de apenas três meses e a cada quatro anos. À sociedade civil caberá também fazer sua parte, atuando no campo da cultura, da educação, do empreendedorismo e da inovação. Ou seja, trabalhando para criar riquezas e desenvolver alternativas políticas, econômicas e sociais ao projeto de poder vigente hoje no Brasil.

 

*Artigo publicado orginalmente na edição de dezembro da Revista Voto

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Comentários

  1. Permissa venia, a análise do douto articulista é algo como “água com açúcar”: mero aliciente, suavizante das agruras que crescem ostensivamente em nossa pátria, dia a dia, minuto a minuto, segundo a segundo, principalmente desde o fatídico 2003.
    A ascensão do PT ao governo, nesse ano, se equipara ao episódio médico em que este anuncia ao paciente, circunspecto: “Você tem um carcinoma, já espalhado por todo seu organismo. É terminal. Restam-lhe poucos dias de vida. Conforme-se!”. Noutras palavras, “se o estupro é necessário, relaxe e goze”. Foi esta a impressão que me passou o texto ora em comento. Fiquei triste, desiludido, decepcionado com a acomodação humana ao seu destino. Em épocas outras (áureas), o povo saia à rua, pegava em paus e pedras, lutava e morria dignamente. Cumpria sua missão de não se sujeitar ao seu algoz.
    Hoje, é esse mesmo povo (descamisados, desfavorecidos) que mantém no poder – paradoxalmente – aqueles que o mantêm mediante infamantes esmolas em troca de votos. Noutras palavras, é a total despersonalização da pessoa física pela pessoa jurídica (o Estado-Leviatã, de Hobbes). Uma brutal e radical inversão de valores.
    Enfim, em que pese o rico currículo do articulista – incontestável -, seu texto não faz jus à realidade, nem às suas qualificações acadêmicas.
    Com todo respeito e admiração.