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O presidente é um irresponsável

Embora não tenha até então escrito um artigo tratando especificamente das manifestações do dia 15, falei de maneira pincelada o que pensava sobre os atos no bojo de outros artigos que de alguma forma se relacionavam com o tema. O que eu pensava continuo pensado: foram atos de culto à personalidade do presidente – e, as imagens e os cartazes não me deixam mentir, de hostilidade aos demais poderes. Isso não é para dizer que os atos não eram legítimos, pois o direito à manifestação e à liberdade de expressão é uma das coisas mais valiosas de nossa Constituição. Claro que ser legítimo, do ponto de vista legal, não significa que possam estar imunes às críticas, algo que muitas pessoas têm imensa dificuldade para compreender, como se criticar uma opinião ou uma manifestação equivalesse a defender a coerção ou a censura.

Ocorre que, não obstante toda a problemática envolvida nessa manifestação, o fato de o próprio presidente a ter endossado publicamente e de a Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) ter feito o mesmo, há o agravante de que estamos em meio a uma pandemia. Tendo de início menosprezado a gravidade do coronavírus, qualificando-o como uma “pequena crise” e “muito mais fantasia”, o presidente se viu compelido a fazer um pronunciamento em rede nacional, onde, apesar de endossar novamente os atos de culto, pediu para que os manifestantes não fossem às ruas, em face do vírus. A dúvida era se era uma fala protocolar ou imbuída do senso de responsabilidade que um estadista deve ter em relação a uma questão tão cara à saúde pública. A primeira opção se mostrou vencedora quando o presidente apareceu em um dos atos, tocando, abraçando e tirando selfies com os manifestantes. Para piorar, Antonio Barra, diretor-presidente substituto da Anvisa, instituição que ao lado do Ministério da Saúde tem feito diversas recomendações de prevenção, estava ao seu lado.

Apesar dos gritos de guerra de alguns insensatos, batizando o vírus de “comunavírus” ou mesmo duvidando da sua existência, ou pensando que o vírus opera de maneira seletiva, não acometendo “patriotas”, sabemos muito bem que o Covid-19 não tem preferência ideológica e que estamos todos no mesmo barco. É óbvio que a qualquer tempo o presidente deve agir como presidente de todos, não apenas dos que o elegeram, sem que isso represente necessariamente traição às próprias bandeiras, mas isso fica muito mais evidente em situações de crises, que é o caso de uma pandemia. Indo ao protesto, Bolsonaro não só fez coro à hostilidade aos demais poderes – o que vai cobrar o seu preço, podem apostar –, como, da maneira mais irresponsável possível, fez justamente o que havia “pedido” que as pessoas não fizessem. O pedido, reitero, foi apenas protocolar.

Todos os órgãos de saúde e demais instituições da sociedade civil estão se mobilizando e propagandeando os devidos cuidados, dentre os quais o primeiro e mais evidente: evitar aglomerações. O que o presidente faz? Vai lá e faz justamente aquilo que o próprio Ministério da Saúde clama que os cidadãos não façam. É um ato de irresponsabilidade que não conhece partido ou ideologia, passível de ser defendida apenas por aqueles igualmente irresponsáveis, irresponsáveis o suficiente para colocarem sua própria vida e a vida de suas famílias em risco.

A atitude do presidente demonstra maior preocupação com logros políticos – de que ele faz uma leitura bem pobre, a propósito – do que com o bem-estar daqueles que governa. Demonstra preocupação com o próprio poder e ego, ao invés de adotar uma postura enérgica contra a propagação do vírus. Em situações de crise, é comum que as pessoas se voltem para seus governantes em busca de direcionamento e na expectativa de medidas que apazíguem o mal. Crises, especialmente crises envolvendo a saúde pública, têm o potencial de unir as pessoas em uma pauta comum, mas o que os cidadãos veem quando se voltam para Jair Bolsonaro? Alguém irresponsável, que, mesmo em meio a uma pandemia, aposta no afago ao próprio círculo ideológico e na provocação institucional.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.