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A política da fé dos manifestantes deste domingo

Não é novidade para ninguém que boa parte do mundo passa por uma pandemia de COVID-19. Nesta semana houve a intensificação de decretos e informativos por parte dos governos federais, estaduais e municipais para que as pessoas evitem aglomerações em quaisquer locais públicos e privados, com vistas a evitar a transmissão do coronavírus 2019. Shows, aulas e cultos têm sido suspensos e/ou repensados quanto à sua forma de realização. Todo o cuidado tem sido tomado, tanto para evitar o caos social em função de histerias desnecessárias, quanto para evitar o contágio desnecessário decorrente de ações dissimuladas de algumas mentes desreguladas.

Este, talvez, seja o caso de parte da ala bolsonarista que, mesmo com a fala não tão contundente do presidente Jair Bolsonaro – sobre evitar as manifestações neste domingo –, insistiu em sair às ruas em atos pró-governo. Aqui a situação é um tanto quanto delicada, uma vez que a velha política por parte de alguns congressistas deve ser combatida, ao mesmo tempo em que as importantes reformas propostas pelo governo necessitam de celeridade quanto à sua aprovação. Dito isso, voltemos ao cerne da questão, qual seja: a política da fé dos manifestantes deste domingo.

A expressão política da fé faz parte do título A Política da Fé e a Política do Ceticismo, do premente livro do filósofo e teórico político Michael Oakeshott (1901-1990). Digo premente porque é imperioso que as ideias deste autor sejam trazidas à baila nas discussões políticas das universidades e escolas desse Brasil.

Nas palavras do próprio autor, pode-se ter um importante esclarecimento do que sejam uma e outra política: “Na política da fé, a perfeição humana é buscada, justamente, porque não está presente; além disso, acredita-se que não devemos, nem podemos, depender da providência divina para a salvação da humanidade. A perfeição humana deve ser alcançada pelo esforço humano, e, nesse caso, a confiança na efemeridade da imperfeição provém da fé no poder do homem e não na providência divina” (OAKESHOTT, 2018, p. 57, grifo nosso). De outro modo, a política do ceticismo: “[…] compreende a atividade de governar de forma bastante específica, desvinculada da busca da perfeição humana. Intelectualmente, esse desprendimento é alcançado quando a perfeição deixa de ser percebida como uma condição mundana das circunstâncias ou, no caso de sua busca ser reconhecida como própria da humanidade, não é o governo o encarregado de tomar conta dela” (Ibid. p. 67).

Segundo Oakeshott, fica evidente que a instrumentalização da política para se fazer engenharia social é algo tipicamente característico do modo progressista de governar. Esse racionalismo desmedido na política é o que Oakeshott chama de política da fé. Paradoxalmente, neste domingo, assistimos a uma parte da ala bolsonarista, que se diz conservadora, adotar a mesma fé que os progressistas adotam na política. A despeito de suas ideias serem conservadoras, a sua práxis demonstra-se progressista, a partir de um irresponsável descuido com o delicado momento que atravessamos em termos de cuidados de saúde pública. Até mesmo várias igrejas têm adotado a estratégia de fazer os seus cultos pelas plataformas virtuais com o acompanhamento em tempo real pelos seus adeptos.

Como diz Luiz Felipe Pondé – ao introduzir o mesmo livro –, “a prudência aristotélica é epistemologicamente cética”, coisa que estes ditos conservadores parecem não entender muito bem. Em muito, os delírios da razão iluminista, apropriados e remodelados pelos progressistas de hoje, têm feito parte da vida de alguns que se dizem conservadores sem ter a menor ideia do que seja um conservador, pelo menos não de tradição burkeana.

Se o próprio Presidente – em isolamento até fazer o novo teste do coronavírus, diga-se de passagem –, que havia dito para os manifestantes ficarem em casa, de última hora, resolveu dar uma passadinha irresponsável na manifestação, que dirá então os seus apoiadores aparentemente cegados pela política da fé. Depois, caso venham a contrair ou transmitir coronavírus para seu circulo de convivência, que não venham chorar o leite derramado. Longe de isto ser qualquer insinuação de praguejamento, fica aqui uma importante advertência. Como dizia minha avó: prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Por fim, em se tratando de política, parece que o velho e bom Aristóteles estava certo.

Jocinei Godoy

Jocinei Godoy

Mestrando em Ciências da Religião pela PUC-Campinas-SP. Formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP e em Filosofia pela PUC-Campinas-SP.