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O outro lado da filantropia

JOÃO LUIZ MAUAD *

Durante toda a infância e adolescência, recebi educação católica (beneditina), cuja ênfase sempre foi a caridade.  Por conta dessa educação, tomei um grande susto quando li, há oito anos, uma entrevista do economista africano James Shikwati à revista Spiegel, clamando às nações ricas que parassem de enviar ajuda humanitária à África, pois essas ajudas estavam destruindo qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico daquele pobre continente.

“Se eles realmente querem combater a pobreza”, dizia o economista, “deveriam parar totalmente a ajuda humanitária e dar à África a oportunidade de garantir a sua própria sobrevivência. Atualmente, a África é como uma criança que chora imediatamente para sua babá quando algo dá errado. A África deve aprender a andar com seus próprios dois pés.”

Lembrei daquela marcante entrevista ao ler artigo do indiano Deepak Lal, cujos argumentos vão nesta mesma direção.  Para o economista indiano, o maior problema está na corrupção dos governos corruptores, que impedem a ajuda de chegar até os destinatários.

Segundo Lal, “problemas de “governança”, como são eufemisticamente rotulados, estão relacionados ao principal dilema enfrentado por aqueles que desejam utilizar as ajudas externas para sanar as óbvias necessidades dos mais pobres nos países em desenvolvimento. Ao contrário da caridade privada, as ajudas externas, em geral, transferem dinheiro dos governos de países ricos aos governos de países pobres. Mas como os governos doadores podem ter certeza de que os governos receptores aplicam corretamente esses recursos? Como a história do fracasso das ajudas externas mostra, principalmente na África, apesar de suas promessas, os governos doadores não são capazes de fazer muita coisa caso os governos receptores não utilizem os recursos corretamente. Nem a canalização desses fluxos através de ONGs nacionais ou internacionais parece ser capaz de superar esse problema, já que os chamados “agentes da sociedade civil” também podem ser coagidos ou cooptados por governos predatórios.

Além dos óbvios problemas de corrupção e má aplicação dos recursos, há ainda outro aspecto sobre esse tema que, a meu ver, merece meditação mais profunda. Trata-se do que o Robert A. Sirico chama de “risco da caridade”, cuja origem está no que os cristãos conhecem como “Dilema do Samaritano”, que poderia, grosso modo, ser assim resumido: a expectativa da caridade pode levar determinadas pessoas a um tipo de comportamento que as fará prisioneiras da pobreza, transformando-as em seres eternamente dependentes da ajuda de terceiros.

Nesse sentido, é bastante esclarecedora a entrevista concedida por Peter Greer, presidente e CEO de uma companhia de ajuda humanitária voltada ao microcrédito, à Forbes. Segundo Greer, a experiência de alguém que esteve muito tempo envolvido com a filantropia demonstra que, “Ao tentar ajudar, você gera conseqüências [não intencionais]. Há um autor, Bob Lupton, que vai direto ao ponto quando diz que, ao doar algo pela primeira vez, há gratidão; quando você doa algo pela segunda vez, gera um pressentimento; pela terceira vez, esperança; pela quarta vez, gera uma expectativa de direito; e pela quinta vez, dependência. Isso é o que nós todos experimentamos (…) As coisas vão mudando, à medida que as doações vão se tornando habituais. Algo que era projetado para ser uma ajuda, na verdade acaba causando danos”.

Em razão da profusão de conseqüências não intencionais derivadas da ajuda humanitária, tendo a concordar com Deepak Lal: “o melhor que o resto do mundo poderia fazer pela África seria manter seus mercados abertos para o fluxo livre de comércio e capital. Em todos os outros casos, deixemos a África em paz para resolver seus próprios problemas.

* ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

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