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O Medo da Liberdade

João César de Melo*

livrojoão

O homem fraco espera que a sociedade esteja sempre disponível a lhe ajudar a resolver os seus problemas. O homem forte espera que a sociedade não lhe atrapalhe a resolver os seus problemas.

Milton Friedman começa seu livro Capitalismo e Liberdade dissecando a famosa frase de John Kennedy: “Não pergunte o que sua pátria pode fazer por você – Pergunte o que você pode fazer por sua pátria”. “Nenhuma das duas metades da declaração”, diz Friedman, “expressa uma relação entre homens cidadãos e seu governo que seja digna dos ideais de homens livres numa sociedade livre”. A primeira metade da declaração, segundo ele, “implica que o governo é protetor, e o cidadão, o tutelado – uma visão que contraria a crença do homem livre em sua própria responsabilidade com relação a seu próprio destino”; e a segunda parte “implica que o governo é o senhor ou a deidade, e o cidadão, o servo ou o adorador”. Mais à frente, Friedman indica qual a pergunta que o indivíduo livre e independente deve fazer a si mesmo: “O que eu e meus compatriotas podemos fazer por meio do Estado para ajudar cada um de nós a tomar nossas responsabilidades, a alcançar nossos propósitos e objetivos diversos e, acima de tudo, a proteger nossa liberdade?”. Pergunto: qual indivíduo teria coragem de assumir sua liberdade e fazer uso dela? Certamente, uns poucos… Daí a razão de muitos procurarem se encaixar dentro de algum grupo ou movimento que “lute por eles” em função de alguma característica que tenham – classe social, raça, crença ou sexualidade – na esperança que sejam colocados acima de quaisquer julgamentos que lhes possam pressionar a competirem com seus próprios talentos.

A constituição da maioria dos países afirma claramente que todos os cidadãos são iguais perante a lei e o Estado. Sendo assim, qual a razão de se cobrar tratamento especial para esse e aquele grupo? Argumentam razões históricas, humanitárias, éticas, sociais… Sempre querendo corrigir desajustes, cobrando tratamento especial a determinados grupos, independentemente do traço intelectual de cada indivíduo. O que ninguém cobra é o puro e simples cumprimento da constituição. Por quê? Porque antes, bem antes de ser uma causa social, qualquer engajamento coletivista é uma fonte de renda e uma forma de se qualificar na sociedade como sendo representante de algum grupo ou classe – os representados os respeitam e os políticos os temem. Liderar um movimento disso ou daquilo confere poder a seus agentes.

O coletivismo, seja lá com que máscara se apresente – comunismo, socialismo ou fascismo -, se manifesta sempre na intenção de eliminar a potência individual, fazendo crer que sempre será melhor confiar nos outros ao invés de em si mesmo, abdicar do Eu em benefício do Nós, argumentando que os males da sociedade são causados pelo egoísmo dos indivíduos.

Somos mamíferos sociáveis, homens sociais, cuja conduta é moldada por um consenso de certo e errado no sentido de preservação decertos direitosindividuais, ou seja: ninguém deve interferir na vida, na paz e na liberdade do outro. Confundem, premeditadamente, vida social com coletivismo.

Entre todos os outros animais sociais, em especial entre os mamíferos, o roubo é um recurso utilizado tanto quanto o trabalho, o que não impede que os ladrões sejam coibidos e punidos, afinal, o roubo é uma apropriação indevida. Entre nós, humanos, o roubo também é um recurso que muitos entendem como válido, mas só se utiliza do roubo quem confia na impunidade. Entendendo isso, enxerga-se que a “harmonia social” não é conquistada enquadrando todos os indivíduos num mesmo arquétipo, determinando limites de prosperidade ou critérios sobre o que se pode ou não desejar. Essa harmonia social se consegue oferecendo liberdade a todos, para que cada indivíduo possa demonstrar seus talentos e, em função deles, obter ou não o que deseja, sabendo que estará sempre sujeito à punição caso seus métodos firam a liberdade, a paz e a propriedade de alguém.

A quase totalidade dos que se dizem socialistas, especialmente aqueles que vivem manifestando-se na rua ou pela internet, enxergam um rico como um provável ladrão pelo simples status econômico que ostenta.

A verdade: qualquer que tenha sido o caminho percorrido pelo rico para obter suas “joias”, com toda a certeza foi aberto, primeiro, pela sociedade. Mesmo que seja o político mais corrupto, ele apenas atendeu à sugestão da sociedade, que lhe disse: “Quer vencer corrompendo? Siga a esquerda” – com ou sem trocadilho; portanto, ele não representa nenhuma manifestação diabólica. O fato é que a maioria das riquezas foi construída com trabalho honesto, gerando muitas outras riquezas, confortos e dignidade para muitas pessoas, formando uma cascata de benefícios públicos. O que essencialmente motiva essa gente toda a defender que ricos devem pagar mais impostos sobre suas rendas e patrimônios é o puro e profundo recalque – como forma covarde de vingança, reflexo de inveja medíocre – que lhes afeta tanto a alma que a faz cobrar punição aos vencedores, tal qual o time de futebol, próximo ao final de uma partida perdida, que tenta se vingar dos jogadores do time adversário batendo forte e deslealmente.

Trecho do livro Natureza Capital, Editora Logos.

*Colunista do Instituto Liberal

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