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O inquérito é abusivo sim, mas isso não deve alimentar golpismo

O inquérito de Toffoli/Moraes é indiscutivelmente abusivo e ilegal. Não é que não há gente ali que deveria ser de fato investigada. Se Roberto Jefferson fosse americano, por exemplo, não tenham dúvidas de que teria entrado no radar do FBI ao incentivar o golpismo como fez. Ocorre que o tal inquérito é problemático desde o princípio. Não é à toa que a então procuradora-geral Raquel Dodge pediu a sua nulidade no ano passado. Trata-se de uma notória violação do sistema acusatório. No entanto, a justa reação ao arbítrio do STF não pode servir de guarda-chuva para a defesa de arbítrios ainda maiores. Esse, aliás, é um dos erros cavalares do inquérito: dar para gente como Eduardo Bolsonaro a oportunidade de fazer discursos vitimizados e em favor da liberdade/democracia. Não se enganem, aquilo que se chama de bolsonarismo não é apologista da democracia, já provou sim ser sua antítese.

A revolta de Eduardo é ensaiada; no fundo, está feliz diante do fato de que o STF deu ao seu pai uma oportunidade de radicalizar o discurso. Aliás, a fala de Eduardo não foi nem radicalização, foi confissão de intenções golpistas mesmo: “não é questão de se, mas, sim, de quando”. Sintonizem isso com a espúria nota do Augusto Heleno e com os acenos de Bolsonaro aos imbecis que levantam bandeiras pedindo AI-5 nas manifestações de culto à sua personalidade e a conclusão inelutável é que esse governo tem sim intenções golpistas.

Expus no meu último artigo para o Instituto Liberal minha crença de que, a despeito disso, não ocorrerá um golpe militar. No entanto, isso não significa que a democracia não pode ser afetada por tais investidas. Não tenho dúvidas de que, se os Bolsonaros lograssem se perpetuar no poder, caminharíamos rumo a uma Venezuela de direita. Podem achar exagerado, mas a democracia, de dentro para fora, não se destrói em um único dia.

Agora, ainda que isso não justifique as ameaças do bolsonarismo, o STF deve reconhecer a sua parcela de culpa pela exaltação dos ânimos e deve engavetar o promíscuo inquérito para ontem. Há um pedido, nesse sentido, na mesa de Fachin, endossado, ainda que tardiamente, por Augusto Aras. A responsabilidade pela harmonia dos poderes é compartilhada e criticar os arroubos de uns não significa se cegar para os de outros. Por essa mesma lógica, criticar o autoritarismo do inquérito para em seguida clamar por coisas como o fechamento do STF e do Congresso é pura hipocrisia.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.