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Aumento dos preços da cesta básica: escutemos a ciência

Não há nada de extraordinário por trás do aumento dos preços dos produtos da cesta básica. Claro que ninguém gosta de pagar mais caro por nada, mas a explicação do porquê do aumento está totalmente acessível ao cidadão comum, por meio das mais diversas fontes. Não é preciso ser um grande “entendido” de economia para compreender, mesmo porque, quem se dedica a estudar essa importante ciência sabe que as explicações são triviais, claras como água, e que a situação, apesar de desagradável, é temporária.

Com o dólar girando em torno de R$5,50, estimulando exportações, com uma demanda fomentada por uma injeção de R$ 50 bilhões mensais na economia por meio do auxílio emergencial no valor de R$ 600 (estima-se que será em torno de R$ 25 bilhões com o valor prorrogado de R$ 300) e com um aumento do consumo residencial devido ao isolamento social, explica-se satisfatoriamente o aumento de preços. Infelizmente, como sempre, o cidadão médio trata a explicação de tal fenômeno econômico com desdém e advoga os conspiracionismos de sempre: “os mercados e/ou produtores estão explorando as pessoas e se aproveitando da situação”. Como todos esses agentes econômicos conseguiram se cartelizar, tendo estruturas de mercado muito distantes do oligopólio, nossos céticos não conseguem explicar.

Curiosamente, muitos dos que adotam esse discurso também defendem a necessidade de ouvirmos médicos e cientistas no que concerne à pandemia. Ora, também defendo essa necessidade, e pelo mesmo princípio busco a explicação dos fenômenos econômicos por meio da economia que, vale lembrar, é uma ciência. Quem enaltece a importância de valorizarmos a ciência, mas faz pouco caso do que dizem os economistas, mesmo sem nunca ter aberto um livro de economia na vida, não passa de um hipócrita.

É aquela velha tendência de confundir análises econômicas com coisas que políticos dizem. Ora, primeiro que a questão aqui não é ideológica. Sim, é verdade que liberais, por princípios políticos, se opõem a coisas como tabelamento de preços, mas mesmo que deixemos toda a ideologia de lado e nos concentremos nos fatos, nas causas e nas consequências, a economia ortodoxa e o consenso científico prescrevem a mesmíssima coisa. Em segundo lugar, convenhamos em que a maior parte dos políticos tende a falar justamente o oposto, que o governo deve sim intervir em “preços abusivos”, visando, é claro, a agradar um eleitorado que espera a resposta fácil e errada. Políticos que se colocam na ribalta defendendo a racionalidade econômica, embora em número crescente, ainda são raros.

Já assistimos a esse filme diversas vezes e, infelizmente assistiremos muitas mais. Basta nos lembrarmos do recente caso do álcool em gel. Novamente, a explicação do fenômeno era bastante simples: houve um aumento vertiginoso da demanda que jogou os preços para cima. O que prescrevia a economia ortodoxa? Que o governo não interviesse nos preços e deixasse a oferta se ajustar. O que aconteceu? O governo não interveio, os produtores aumentaram a produção e em cerca de poucas semanas os preços caíram. Agora não se fala mais do preço do álcool em gel. Se o governo tivesse intervindo, o preço poderia acabar não funcionando como um sinal e não estimularia o aumento da produção, o que geraria escassez e fomentaria o mercado negro, justamente no momento em que as pessoas mais precisavam do produto.

Se o filme ainda se repetirá muitas vezes e as pessoas parecem não aprender, porque insistir em bater nessa tecla? O discurso interventor, por ser muito mais simplório e populista, tem maiores adeptos e é mais facilmente amplificado, por isso, apesar de frustrante, nunca é demais insistir na racionalidade econômica. Reitero que essa não é apenas uma tarefa ideológica; é também escutar o que a ciência tem a dizer.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.