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O esdrúxulo “cancelamento” de liberais: obrigado, Roberto Campos

Neste final de semana, o movimento Livres, que procura congregar correntes sociais liberais ou libertárias do movimento liberal brasileiro, inspirado em seu  mote “liberal por inteiro”, provocou polêmica ao publicar uma citação a Roberto Campos (daquelas que já vimos aos montes em páginas liberais) e logo depois excluir o conteúdo. O motivo: pressões de ativistas e seguidores do movimento que lembraram a passagem do mato-grossense pelo ministério de Castelo Branco, o primeiro presidente do regime militar.

Todos sabem que não me considero nem um liberal social, nem um libertário, e que já empreendi outras contestações a posicionamentos do Livres anteriormente. Contudo, nunca, e assim permanece, generalizei o movimento em minhas críticas, reconhecendo que as correntes que representa têm seu campo legítimo de participação no debate público. Reconheço, precisamente com José Guilherme Merquior – o autor brasileiro que os integrantes do Livres mais dizem apreciar -, que há uma grande família no liberalismo, que, inclusive, pode abarcar diferentes públicos, constituindo-se a síntese entre eles, na troca e no enfrentamento saudáveis, em caminho para chegar aos resultados possíveis em uma sociedade plural, tanto no campo da intelectualidade quanto dentro do sistema representativo.

Posto isso, algumas manifestações que observei por ocasião desse triste incidente foram demonstrações da mais absoluta falta de senso histórico, da mais grosseira ignorância e de total ausência de respeito à tradição liberal brasileira (e até mundial). Continuo sem fazer generalizações; felizmente, ao menos nesse aspecto, houve lideranças do Livres admitindo que simplesmente “cancelar” Roberto Campos, à moda do que tem feito os lunáticos do identitarismo contra personalidades históricas, é uma completa estupidez. Mais que isso; eu diria, parafraseando o amigo Alex Catharino, que “cancelar” liberais do passado é postura de gente extremamente otária e desprezível.

Reuni, entretanto, algumas considerações a respeito do problema que me chegaram à vista, a fim de tentar ajudar a esclarecer a quem porventura possa ser ludibriado por tais retóricas infantis. Primeiro, ao ponto central: sim, Roberto Campos trabalhou para o primeiro governo do regime militar e foi embaixador do Brasil em Londres no governo Geisel. Sim, Roberto Campos não era, na década de 60, precisamente o liberal de inspiração hayekiana que se tornaria na reta final – embora já fosse um dos economistas mais liberais do quadro intelectual brasileiro, ao menos dos mais simpáticos ao capital estrangeiro e à austeridade fiscal. E sim, tanto quanto foi tudo isso, ele foi também o grande campeão das reformas liberais, da privatização, do combate ao dirigismo estatal e ao excesso de garantias onerosas na Constituição de 1988, um raro exemplar de político brasileiro que se inspirava em autores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises ou Milton Friedman em sua batalha titânica – e quase solitária – da tribuna do Parlamento, trazendo essas ideias ao alcance de gerações de liberais brasileiros posteriores.

Não vou escrever sobre o regime militar aqui, nem sobre os motivos que levaram Campos a fazer o que fez, que são temas que já abordei à exaustão noutras oportunidades. “Então, você vai escrever sobre o quê?”, poderão me perguntar. Deixem-me ainda mais um pouco no âmbito dos assuntos sobre os quais não pretendo escrever neste artigo – e que, como o leitor observará, dizem mais do que o que efetivamente abordarei. Não vou escrever, por exemplo, sobre John Locke aceitar a escravidão. Não vou escrever sobre diversos dos pais fundadores dos EUA, inspiradores de um dos paradigmas mais liberais em que uma nação já se assentou na História, terem escravos sob seu comando. Não vou escrever sobre as hesitações em relação à democracia de massas dos Whigs e dos liberais doutrinários franceses. Não vou escrever sobre Hayek, após visitar o Chile, ter afirmado que talvez, às vezes, por certo período, uma ditadura possa ser necessária. Não vou escrever sobre Rui Barbosa ter defendido o golpe republicano e ser bastante criticado pela política econômica que levou à Crise do Encilhamento. Não vou escrever sobre José Guilherme Merquior – pois é – ter construído sua carreira diplomática também no regime militar e ter sido assessor especial da Casa Civil do governo Figueiredo.

Aliás, sobre essa última constatação, pensando melhor, valem mais algumas palavrinhas. Merquior – aquele em nome do qual alguns querem “cancelar” Roberto Campos – era amigo do mato-grossense, frequentava os círculos do Instituto Liberal tal como ele e serviu a governos militares tal como ele. Serviram ambos, é evidente, não como entusiastas do autoritarismo, mas como técnicos que entenderam se dever ajustar ao que o contexto lhes permitia, dado que, em diversas oportunidades, afirmaram sua afinidade com a democracia liberal e o sistema representativo. Merquior, a despeito das divergências existentes entre ambos, jamais concordaria em “cancelar” Roberto Campos e excluir suas contribuições teóricas e políticas à difusão do liberalismo no Brasil, que foram determinantes, aliás, para ele próprio. Campos prefacia O Liberalismo Antigo e Moderno; só isso.

Não é preciso concordar com as atitudes tomadas pelas personalidades históricas que relacionei acima. Cada um dos casos mencionados valeria um estudo em particular. O que os fatos elencados em geral ilustram é que os indivíduos que prestaram inestimáveis serviços à edificação da agenda liberal na História foram influenciados, quer pelo limite das ideias políticas de suas respectivas épocas, quer pela força das circunstâncias, a tomar atitudes que não estão previstas nos princípios fundamentais do liberalismo – ou ao menos não condizem com as determinações gerais que os liberais gostariam de ver regrando uma comunidade política. Há ainda uma terceira situação: alguns tomaram atitudes que determinados liberais, apegados a determinados autores específicos, condenam como não-liberais, olvidando a pluralidade do liberalismo.

Isso é inevitável em uma corrente política que, como diriam Antonio Paim e Ubiratan Borges de Macedo, se construiu como fenômeno histórico, marcado por desdobramentos diversificados e tendências internas distintas, além de desenvolvido por pessoas de carne e osso. Caso um puritanismo dogmático se torne a tônica, os liberais atuais, submergindo no pecado do anacronismo, fatalmente conseguirão rejeitar toda a tradição liberal, menosprezando o tijolo que cada grande nome depositou no grande edifício e supervalorizando cada tropeço ou cada “desvio da ortodoxia” que tiver praticado. “Sabe aquele tal de Locke? Então, ele era a favor da escravidão e não estava muito satisfeito com a ideia da liberdade do ateísmo. Vamos excluí-lo e parar de ler o Segundo Tratado sobre o Governo Civil?”. “Sabe aquele tal de Hayek? Então, vamos parar de divulgar O Caminho da Servidão”. No fim das contas, se assim fizerem, esses impolutos árbitros aniquilarão o liberalismo por inteiro – fazendo jus ao lema do Livres, mas não no sentido que lhes agradaria.

O que restará? Quem será “liberal por inteiro” para tais puritanos ingratos? Quem será o liberal sacrossanto, imaculado, a encarnação ilibada da liberdade sobre a Terra? Alguns comentários de militantes forneceram uma tragicômica resposta.

“Só acho que Gabeira fez a autocrítica e mudou radicalmente. Campos nunca fez”, pontifica Elena Landau no Twitter – a liberal que cita Merquior para negar a existência do conceito de “liberal conservador”, sendo que a expressão aparece diversas vezes na obra dele; a liberal que defende que o Estado fortaleça o cinema nacional e limite o domínio hollywoodiano; a liberal que acredita que devemos conversar com Lula. Pior ainda, no mesmo espírito, o que disse o também economista, integrante do Livres e do Instituto Mercado Popular, Carlos Góes, na mesma rede social: “Roberto Campos errou ajudando a montar uma ditadura. Gabeira errou tentando derrubar essa mesma ditadura. Gabeira reconheceu seus erros e abraçou a democracia liberal. Campos decidiu atacar a Nova República. Não podemos, nem por um segundo, fingir que esses comportamentos são equivalentes”.

Duas conclusões podemos tirar daí. A primeira é que a Nova República, marcada por uma Constituição dirigista que inscrevia até o colégio Pedro II em seus artigos, é um ícone do liberalismo a ser enaltecido. Todas as críticas liberais de Roberto Campos ao processo da Constituinte foram atentados à liberdade política. Francamente, a esclerose desse pensamento é tão notória que não avançarei em destrinchá-lo.

A segunda é que Roberto Campos não serve, mas Fernando Gabeira serve – ou ao menos serve mais. Por quê? Porque Gabeira errou tentando derrubar uma ditadura. Quer dizer, não importa que ele queria implantar o totalitarismo comunista no lugar (!!). Se eu quiser derrubar o governo Médici ou o governo Geisel, pode ser para colocar um Stálin no poder. Não tem importância! Que piada… Fidel Castro era, pela mesma lógica, em seu período de luta, muito mais digno que Fulgêncio Batista; mas Fidel não estava tentando montar uma ditadura ao lutar contra outra? Ele só se tornou vilão depois que atingiu o objetivo? Pela  lógica, antes, Fidel poderia ser merecidamente considerado um herói da liberdade, tanto quanto Gabeira. É inacreditável alguém se dar ao trabalho de escrever uma asneira dessas.

Outros ativistas quiseram colocar Ulysses Guimarães como herói do liberalismo no lugar de Roberto Campos – sim, Ulysses, uma raposa política egressa do pessedismo varguista, que ficou anos ocupando cargos, se opôs à reforma nas cédulas de votação dos anos 50 que desenvolveria o sistema eleitoral e, em se tratando de regime militar, votou para eleger Castelo Branco em eleição indireta, apoiou o golpe de 64 e, ainda que na oposição emedebista, não teve qualquer direito político cassado e ficou ativa durante todo o período de governo dos “generais”. Outros já apontaram FHC e Miriam Leitão como sendo os verdadeiros liberais. Ora, se os ícones da Nova República, se Ulysses, FHC e Gabeira agora representam o liberalismo, então significa que o liberalismo é a social democracia? O liberalismo é o dirigismo? O liberalismo é tudo que já vem sendo feito nas últimas décadas? Qual é a alternativa que nele existe, então? Para que criar um movimento novo para defender tudo que já existia?

Roberto Campos encarnava uma agenda diferenciada da ortodoxia patrimonialista, corporativista e estatista consagrada na Nova República. Ulysses Guimarães, não. É por isso que aquele é, sim, um ícone do liberalismo e este último não é. Da mesma forma, a afirmação de que a tradição liberal brasileira é puramente economicista – o que justificaria, então, enaltecermos até “liberais varguistas” (?) como seria Ulysses Guimarães para fortalecermos a liberdade política – é de uma estupidez sem tamanho. Essas pessoas não leram uma página de Nabuco, Rui Barbosa ou Carlos Lacerda; também não devem ter lido A Lanterna na Popa, em que Campos situa a democracia e a economia de mercado como pilares ideais de seu pensamento.

Meus amigos, se for para “cancelarmos” Roberto Campos como querem essas pessoas – em nome, aliás, frise-se, de figuras como Merquior e Gustavo Franco, que nunca aceitariam esse “cancelamento” e execrariam quem o promovesse -, então vamos fechar o Livres, o Mises Brasil, o Instituto Liberal, o Partido Novo, tudo, e vamos nos mudar todos juntos para a Fundação Ulysses Guimarães ou para a Fundação Fernando Henrique Cardoso. Quer dizer, vão vocês, porque eu vou ficar bem aqui.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucas Berlanza é editor dos sites “Sentinela Lacerdista” e “Boletim da Liberdade” e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica" e “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”.