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O crescimento dos evangélicos e a democracia representativa

No primeiro dia do ano, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria, de autoria de Anna Virginia Balloussier, intitulada Evangélicos têm força crescente de submeter políticos a seus interesses, diz professor referência no tema. O professor em questão é Ricardo Mariano, que leciona Sociologia na USP e é autor do livro Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.

Muitos ativistas e articulistas ligados à esquerda se acostumaram a afirmar que existe um movimento de índole perigosamente teocrática e reacionária se fortalecendo no Brasil mediante o crescimento das igrejas evangélicas neopentecostais, cujas bancadas e máquinas partidárias estariam prontas a dominar o país, destruir a cultura popular, perseguir as outras religiões, entre outros gestos de tirania. Esse processo significaria, em consequência, em sua leitura, uma ascensão da “direita religiosa”.

Não é bem o que diz o professor Mariano. Para começar, ele contesta a ideia de que o “rebanho de fiéis” das igrejas evangélicas representaria automaticamente um “curral eleitoral”, dado que “evangélicos não vivem em bolhas religiosas” e “não seguem a orientação pastoral de olhos fechados na hora de votar”. O que efetivamente ocorre, de acordo com sua pesquisa, é que “a identidade religiosa pode falar alto num contexto de lutas identitárias”. Em consequência de terem opiniões parecidas e anseios parecidos, muitos evangélicos, por estarem em franco crescimento numérico, demonstram “força crescente de pressionar, constranger e submeter políticos a seus interesses”.

Também contrariando a narrativa de certos pregadores, o autor entrevistado pela Folha ponderou que, embora a agenda da direita tenda a ser mais compatível com essa estratégia, há setores da esquerda que igualmente se beneficiam da religião como arma eleitoral, como teria ocorrido em Recife com a vitória de João Campos (PSB) sobre Marília Arraes (PT), mediante o emprego da campanha “cristão de verdade” para desidratar a adversária no meio evangélico.

“Cada vez mais (candidatos) se prontificam a mobilizar moralidades cristãs”, afirmou. Em verdade, como bem disse Mariano, “desde a Constituinte, integrantes da bancada evangélica, com poucas exceções, refestelam-se no centrão”, apenas suscitando pautas contra o movimento LGBT, pela proibição do aborto e de combate à penetração de certas temáticas sexuais no ensino, sem que isso signifique, por exemplo, uma visão definitivamente mais liberal ou mais social democrata em matéria de economia.

Outra relativização apontada pelo pesquisador aos cenários apocalípticos pintados pelas esquerdas sobre o assunto é a de que, apesar de o partido Republicanos funcionar em geral como uma espécie de máquina da Igreja Universal, os candidatos evangélicos estão distribuídos em partidos distintos, o que também provoca divisões de interesse político entre eles. O professor também ressalta o fato de que, no Poder Executivo, o peso da identidade religiosa é bem menor e não é capaz de esmagar a pluralidade social. O pastor Marcelo Crivella, por exemplo, perdeu a prefeitura no Rio de Janeiro com desaprovação de 40% dos evangélicos.

Mesmo assim, manchetes como “evangélicos têm força crescente de submeter políticos a seus interesses” são comumente recebidas com espanto e consternação. A pergunta que me permito fazer é: deveria ser diferente? Está errado que seja assim? Seria certo fazer algo para limitar a ascensão política dos evangélicos?

Entre as diversas vertentes liberais e libertárias, a exemplo da proposta de organização política concebida por Friedrich Hayek sob a designação de “demarquia” e do anarquismo de mercado sustentado por pensadores como Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe, existe farta oferta de visões críticas à democracia ou à sua forma convencional. Entenda-se por democracia aqui o tipo de sistema político em que se considera que existem decisões de natureza abrangente e coletiva que precisam ser tomadas por uma esfera que não seja apenas a estritamente individual, através de representantes dentro de um Estado.

No entanto, desde as análises argutas de Alexis de Tocqueville acerca da democracia norte-americana, a maioria dos liberais, a partir do século XX, vem sustentando a virtude de um regime liberal-democrático, que contemple tanto preocupações democráticas quanto preocupações liberais – isto é, aquelas que resguardam as liberdades e prerrogativas do indivíduo, através da lógica de um Estado de Direito. Tais pensadores e agentes políticos associam a admissão da democracia (sem o seu endeusamento) ao sistema representativo parlamentar que praticamente todos os liberais já preconizavam, sob forma mais restritiva, desde antes da emergência das democracias de massa.

Sob esse prisma, os representantes eleitos simbolizarão os interesses e ideários dos segmentos da sociedade que os escolheram para ocupar os postos que ocupam. Ora, os critérios para essa escolha não podem ser determinados por burocratas ou autoridades públicas. Não cabe dizer que devemos eleger tantas mulheres, tantos negros, tantos ateus ou tantos católicos. O que se espera, em um regime como esse, é que os indivíduos na sociedade, de forma inteiramente livre da coerção estatal, escolham o que desejam fazer, em quem desejam votar, por que motivo for. Podemos julgar esses motivos ignaros ou vis, mas não podemos querer impor às outras pessoas que também escolham quem gostaríamos de ver no Parlamento. Quem se jacta de defender a democracia não pode, por coerência, pretender adulterá-la dessa forma.

Por lógica, se um grupo ou corrente de opinião cresce em número, é significativo na sociedade, representa uma determinada agenda e deseja – ou, por outra, para sermos individualistas metodológicos, os indivíduos que compõem o grupo ou corrente de opinião desejam – ver deputados ou senadores eleitos que se identifiquem com suas próprias visões de mundo, isso é perfeitamente legítimo. Então, se os evangélicos crescem no Brasil e desejam eleger parlamentares que defendam suas pautas, isso é uma coroação da democracia e não o contrário. É uma questão tão evidente que me espanta que haja quem pense o contrário – ou finja pensar o contrário em busca do aplauso de mal-intencionados. Não gostar das religiões majoritárias ou não se identificar com elas não dá a ninguém o direito de direcionar pela força o voto dos indivíduos que as professam.

Tenho estado envolvido em polêmicas com tradicionalistas antiliberais e religiosos que claramente desejariam derrogar o Estado laico e estabelecer uma teocracia. Não incorro aqui em nenhuma contradição. Isso porque, se evangélicos podem eleger preferencialmente evangélicos, flamenguistas podem eleger preferencialmente flamenguistas, como socialistas elegerão preferencialmente socialistas, não significa que umbandistas, tricolores ou conservadores não terão também os seus representantes no Parlamento, se assim o desejarem. Nem significa, e isso é o mais importante, que as liberdades fundamentais que lhes pertencem poderão ser suprimidas.

O Estado Democrático de Direito – deixando de lado, mais uma vez, as visões, mesmo liberais e libertárias, que gostariam de anulá-lo – é ou deve ser “de Direito”. É um sistema republicano, no sentido filosófico do termo concebido pela tradição que, desde Aristóteles, se construiu para sustentar a convivência de elementos majoritários e contra majoritários no ordenamento institucional. As maiorias se expressam, conseguem vantagens temporais para colocar em prática seus programas, mas elas não têm a prerrogativa de destruir as minorias, excluindo-as do enfrentamento e do debate público, ou suprimir suas liberdades fundamentais.

Sendo assim, o objetivo liberal não será impedir que os evangélicos sejam maioria no Parlamento, sob o falso pretexto de que esse cenário levaria, por si só, à destruição da democracia. O objetivo liberal será sempre garantir que católicos, espíritas, budistas ou umbandistas não sejam perseguidos, censurados, percam direitos políticos e sejam impedidos de agir livremente com chancela da lei. Não importa que você seja maioria, você não tem o direito de fazer isso. Na defesa desse ideal, ao menor sinal de desvio legítimo desse princípio, haveremos de reagir com todo o vigor que a situação merecerá. No mais, não há que fazer escândalo com o cumprimento da pura e simples regra do jogo.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).