O Camaleão Donald Trump

Meu comentário de ontem, sobre as idéias econômicas tresloucadas de Donald Trump, gerou reações diversas, tanto no Blog do IL quanto na página do Rodrigo Constantino.  Alguns “conservadores” menos informados, mas ávidos para atacar qualquer idéia que lhes desagrade e possa colocar em dúvida suas certezas, chegaram ao absurdo de defender que o protecionismo não […]

Meu comentário de ontem, sobre as idéias econômicas tresloucadas de Donald Trump, gerou reações diversas, tanto no Blog do IL quanto na página do Rodrigo Constantino.  Alguns “conservadores” menos informados, mas ávidos para atacar qualquer idéia que lhes desagrade e possa colocar em dúvida suas certezas, chegaram ao absurdo de defender que o protecionismo não seria incompatível com liberalismo.  Outros afirmaram que, embora Trump não seja o candidato ideal, é alguém capaz de derrotar os democratas e, por isso, deveria ser preservado.  Alguns me classificaram como esquerdista/relativista enrustido. Os conservadores mais bem informados, por sua vez, negaram que Trump seja um verdadeiro conservador.

Tendo a concordar, malgrado não completamente, com os últimos, embora a mim pareça muito esquisito que esse verdadeiro “estranho no ninho”, com um passado nitidamente esquerdista, esteja sendo tão bem aceito pelos eleitores conservadores, a ponto de estar hoje com 41% das intenções de voto nas primárias do Partido Republicano.  Em resumo, entre tantas opções disponíveis, o eleitorado conservador está optando por um “outsider”.

De toda forma, seguem abaixo, como um serviço de utilidade pública aos conservadores, digamos, mais afoitos e desavisados, algumas opiniões de conservadores americanos ilustres, publicadas recentemente pala National Revew – uma instituição historicamente conservadora – sobre o fanfarrão Donald Trump.  (Aliás, essa mesma revista já havia publicado um contundente editorial contra a candidatura dele). Enjoy:

 

Para os conservadores constitucionais, a disputa republicana tem funcionado menos como uma primária e mais como um abandono. Politicamente órfãos de seu partido, os conservadores serão forçados a ficar em casa ou tapar seus narizes e votar em um republicano progressista.

Claro, o potencial de vitória de Trump nas primárias iria fornecer Hillary Clinton, abrindo para ela um caminho inimaginavelmente mais fácil para a Casa Branca. Mas é muito pior do que isso. Se Donald Trump ganhar a nomeação republicana, não haverá, mais uma vez, oposição a um governo em constante expansão. Estamos em meio a uma crise do conservadorismo. (Glenn Beck)

 

Igualmente preocupante é a sua ideia de presidência – sua promessa de que ele é o cara, o homem em um cavalo branco, que vai montar em Washington, demitir as pessoas estúpidas, contratar os melhores e corrigir tudo. Ele não fala de política ou de trabalhar junto com o Congresso. Ele está efetivamente prometendo ser um Mussolini americano, concentrando o poder na Casa Branca e governando por decreto. É uma visão de fazer os últimos 16 anos de abusos de poder parecerem modestos.

Sem nem mesmo entrar no mérito de seu apoio pretérito a um enorme imposto sobre fortunas, Obamacare, seu protecionismo ou sua defesa apaixonada das desapropriações de imóveis, acho que podemos dizer que esta é uma campanha republicana que teria chocado Buckley, Goldwater e Reagan. (David Boaz)

 

Ponha de lado por um momento as incontáveis opiniões passadas de Trump contra os princípios conservadores, na defesa de cotas raciais, aborto, mais impostos, saúde e imigração. O homem tem demonstrado uma imaturidade emocional na fronteira com transtornos de personalidade, o que deveria desqualificá-lo para ser um prefeito, para não dizer de um comandante-em-chefe.

Trump é um liberal [no sentido americano]? Quem sabe? … Talvez seja tudo um jogo, mas os eleitores que se preocupam com as ideias e os princípios conservadores devem perguntar se a sua recente representação de um conservador é apenas mais um de seus personagens teatrais. Quando um vigarista engana você, você pode processá-lo – como muitos amargurados ex-associados de Trump já fizeram. Quando você elege um vigarista, não há recurso. (Mona Charen)

 

A defesa do governo constitucional limitado é o oposto da candidatura Donald Trump. Na medida em que levamos a sério as suas palavras, o que ele defende é uma rejeição da nossa herança Madisoniana e um abraço no autoritarismo de Barack Obama. Trump garante aos eleitores que vai usar poderes autoritários para o bem, para ajudar aqueles que se sentem – e com razão – ignorados por ambos os partidos. Mas a experiência americana do autogoverno foi resultado do trabalho de uma geração que arriscou tudo para derrotar um monarca tirânico e estabelecer um governo de leis, não de homens. Um governo do povo, pelo povo e para o povo é precisamente o que a Constituição estabelece, uma constituição que é ameaçada por “grandes homens”, sempre impacientes para impor sua vontade sobre a nação. (Ben Domenech)

 

Trump não tem nenhuma consciência de sua tarefa constitucional suprema. Seu desafio de correção política não é uma plataforma de governo suficiente. Pior, sua inclinação para entender os nossos problemas como sendo gerenciais, em vez de políticos, sugere que ele poderia muito bem se voltar contra a causa conservadora se for eleito, senão aprofundar ainda mais os problemas derivados do excesso de poder no executivo. Recato não está, claramente, em seu vocabulário ou seu caráter.  (Steven Hayward)

 

Não tente determinar se ele é um conservador… Essa é uma pergunta sem sentido, porque, como Allah na teologia islâmica, ele é o que lhe agrada ser no momento, e seu único princípio é o triunfo da sua vontade.  Como Obama, ele é incrivelmente ignorante de tudo que precisaria saber para governar uma nação poderosa, complexa, influente, e excepcional como a nossa. (Mark Helprin)

 

Em uma carta a National Review, Leo Strauss escreveu que “um conservador é um homem que despreza a vulgaridade; mais: o argumento que se preocupa exclusivamente com cálculos de sucesso e baseia-se no desprezo à nobreza do esforço é vulgar”. Não é Donald Trump o epítome da vulgaridade? Em suma: não é “Trumpismo” um de dois bits do Cesarismo de um tipo que os conservadores americanos sempre desprezaram? Não é a tarefa dos conservadores de hoje brecar o “Trumpismo”, gritando “pare”?  (William Kristol) 
Donald Trump não é conservador. Isso não é um crime, é apenas uma razão para não votar nele. Muitas pessoas finas não são conservadoras. Mas a razão pela qual a candidatura de Trump deveria preocupar a direita é muito mais profunda do que isso: Ele representa um desafio direto ao conservadorismo, porque encarna a promessa vazia de liderança gerencial fora da política. (Yuval Levin)

 

Durante décadas, Trump defendeu o governo grande… Suas ideias não são as idéias de um conservador que entende de mercados. Elas são, em vez disso, as divagações de um “wannabe” liberal que vai usar e abusar do poder do governo federal para impor as suas ideias sobre o país.

Meu antigo chefe, Ronald Reagan, disse uma vez, “Os Pais Fundadores sabiam que o governo não pode controlar a economia sem controlar as pessoas.” Reagan lutou pela liberdade econômica, a fim de frear governo e dar espaço para o setor privado poder prosperar. Isso é conservadorismo econômico. Não é Donald Trump.  (David McIntosh)
Num país com mais de 300 milhões de pessoas, é notável a forma como a mídia se tornou obcecada por Donald Trump. O que é ainda mais notável é que, após sete anos de catástrofes repetidas, tanto no âmbito nacional como internacional, com um ególatra superficial na Casa Branca, tantos potenciais eleitores estão se voltando para outro ególatra superficial para ser seu sucessor. (Thomas Sowell)
 

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  • jsn58

    Talvez alguns aqui não saibam que João Luiz Mauad, o autor desses dois artigos controversos sobre Donald J. Trump (e o fato de serem controversos depõe contra a racionalidade da direita tupiniquim) é, tanto doutrinária quanto pragmaticamente, um autêntico liberal, e um dos mais bravos defensores da liberdade no Brasil, que, como os genuínos conservadores americanos, está preocupado com essa situação inusitada na política da nação mais poderosa do planeta. Não é todo dia que um partido que se define como pró-liberdade, de uma nação que se julga a mais livre do mundo, corre o risco de eleger um populista fanfarrão que possivelmente causará mais danos ao país que a adversária, uma social-democrata. O último populista de direita que se candidatou à presidência foi o Pat Buchanan, mas ele nunca representou uma ameaça crível aos adversários, nem era fanfarrão. Pois bem, melhor seria que pessoas como o Mauad fossem ouvidas atentamente, principalmente pelos adeptos do fla-flu político, que é aquela mentalidade tribalista que estipula que qualquer candidato do meu lado do corredor é sempre melhor que qualquer candidato do outro lado. Não é – e Trump é o melhor exemplo da falsidade dessa pressuposição. Se Hillary Clinton for escolhida para representar os democratas na próxima eleição, e se os republicanos, com efeito, escolherem Donald Trump para disputar a presidência, talvez pela primeira vez na história da República, os republicanos terão a desvantagem de contar com o pior entre os dois candidatos.

    • João Luiz Mauad

      Muito mais do que os imerecidos elogios, fico contente de saber que este grande liberal, que mora e VOTA nos Estados Unidos, não só me dá a honra de ler estas mal traçadas linhas, mas compartilha da minha opinião sobre o fanfarrão Trump. Estou muito feliz por saber que ainda andas aqui, meu nobre Joca. Forte abraço e volte sempre.

  • Dalton

    A tolice na verdade é acreditar que política se faz com o ideal.
    Política se faz com o que temos em mãos.
    Como foi dito no artigo, 41% das intenções de voto estão com Trump.
    Quais as chances dos outros candidatos conservadores de ultrapassar essa margem?
    Dadas as chances, e vendo que, do outro lado, temos algo realmente pior, fica a dicotomia: ou Trump ou Hillary.
    Você escolhe. O ideal é que não vai.
    Então pelo menos o que vai doer menos.
    E isso nada tem a ver com considerar Trump bom…

    • Dalton

      É o famoso purismo: não vai do meu jeito, então não vai.
      Depois não sabem porque diabos a esquerda ganha, mesmo sendo fraquíssima em argumentações e debates…

    • Dalton

      Basicamente o que quero dizer é: pragmaticamente, se você ataca Trump, e não oferece sequer uma alternativa viável para ele, você está trabalhando para a esquerda. É o mesmo problema dos direitistas puritanos daqui que atacam qualquer um que não concorde com o Bolsonaro.

      • João Luiz Mauad

        Não, eu não estou trabalhando para a esquerda, estou tentando demonstrar para os conservadores empolgados quem é, na realidade, Donald Trump. Até porque, nem eu nem a imensa maioria dos poucos leitores desse blog votamos nos Estados Unidos. Agora, se você quer saber, se eu fosse obrigado a escolher entre Hillary e Trump, certamente não iria votar, mas torceria pela vitória daquela. Talvez os dois sejam equivalentes em termos de ideias intervencionistas, com a vantagem de que a democrata, pelo menos, não sofre daquela xenofobia atávica do Trump. Por outro lado, as políticas equivocadas que Trump certamente fará no governo serão classificadas como Liberais, ainda que o seu (dele) intervencionismo não tenha nada de liberal. Aliás, qualquer liberal terá de fazer oposição tanto a um quanto a outro, mas a oposição a Hillary é mais fácil, pois ela não se esconde atrás de uma ideologia que não é a sua.

        • Dalton

          João, como eu disse, pragmaticamente, você está sim, fazendo um serviço para a esquerda.
          Não vejo problemas em mostrar a real sobre Trump, mas vejo problemas quando se faz isso sem mostrar uma via de escape viável. Hillary é uma versão mais louca Obama. Se por um lado você critica Trump por seu xenofobismo, sob Hillary certamente o EUA passará por um processo multiculturalista a exemplo do que a Europa está sofrendo (e Obama já tem tentando implantar), ou seja, o exato oposto, também prejudicial. Trump vai tentar fazer besteira, e terá resistência dos políticos que realmente são conservadores/liberais, enquanto que a Hillary terá total apoio de sua parte pra fazer besteiras.
          Não sei como você vê vantagem nisso.
          A questão é a mesma que tivemos em 2014: Aécio vs Dilma. Todo mundo sabe que vai dar m**** nos dois casos, mas temos o senso comum de que o lado extremista vai causar mais dano. Mas se você critica Aécio, basicamente está fazendo propaganda gratuita para Dilma (e vice-versa).
          O Ideal seria um político conservador com idéias liberais econômicas, ou seja, que atendesse aos anseios morais do povo e ainda elevasse a economia, mas agora os EUA tem de escolher entre um charlatão e uma louca.

          • João Luiz Mauad

            Comparação absolutamente despropositada. Assim como Aécio é muito diferente de Trump, Hillary e Dilma idem. Ademais, as instituições americanas funcionam muito melhor do que as nossas e o mal que um Obama ou uma Hillary podem fazer é muito pequeno, comparado à catástrofe petista no Brasil. No mais, quem está “fazendo um serviço para a esquerda”, no caso, são os conservadores americanos da National Revew, não eu. Só estou dando destaque ao que eles disseram.

    • Ulisses Ricardo de Souza Silva

      Exatamente Dalton. Você tocou no ponto exato: existe o mundo ideal e o mundo real.

  • Flávio

    Eu, brasileiro, latino americano, aprendi a identificar um caudilho/populista a quilômetros. Os americanos, parece, ainda não sabem como o bicho é. Vão cair na lábia e vão ser papados.
    Lá nos states eles tem uns comerciais na tv que atacam os concorrentes. Deveriam fazer alguns associando Trump com Chaves, Maduro, Morales, Kirchner, Lula, Allende, e perguntar: é nessa direção que vc quer que seu país vá?