O Brasil e a sua mórbida relação com a canalhice

Rafael Hollanda *

 

Personagem Deputado João Plenário de "A praça é Nossa"

Personagem Deputado João Plenário de “A praça é Nossa”

“Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos!” – Nelson Rodrigues

Se existe algo que me deixa muito entristecido no Brasil é a admiração, às vezes secreta e às vezes expressa, aos maus-caracteres. O brasileiro já está tão doente e tão profundamente ‘encavernado’ no mundo da corrupção e das más-feitorias que acha normal que um político roube o seu dinheiro. O brasileiro parece, neste quesito, rir para não chorar, quando na verdade deveria lutar. A sociedade se encontra em uma espécie de anestesia covarde: vê algo gravíssimo, alarmante, mas, de tão sofrida, dá risada, se exalta e esquece no momento seguinte. Isso não é de hoje; isso já vem de tempos e é uma das principais razões que levam o Brasil a amargurar a condição de país subdesenvolvido.

Nas conversas de bar, no trabalho e nas rodas de amigos, não é raro que se escutem coisas do tipo: “viu lá o carro do Senador? Caramba!”; “olha o deputado fulano de tal, esse é espada!”. Não há nenhum problema em exclamar a sua admiração por um carro ou por uma pessoa, mas dentro desses contextos que citei, existe uma mensagem implícita: o que se admira, na verdade, não é o carro ou a pessoa, é a malandragem, a esperteza e a sem-vergonhice do sujeito. O cara chegou lá! Foi malandro o suficiente! É o cara! É assim que o Brasileiro pensa.

Esses dois exemplos que citei, infelizmente, são reais e foram ouvidos por mim em um dos melhores restaurantes do Rio de Janeiro, quando um Parlamentar acusado de corrupção, que não citarei o nome, ingressou na casa. Umas quatro pessoas de uma mesa falaram do carro. Os ocupantes de outra mesa, bem maior e composta inclusive por empresários conhecidos, para a minha surpresa, teceram o comentário “esse é espada!”, tendo, também, um desses ido lhe dar um caloroso aperto de mão. Tal cena exibe a influência da máquina burocrática nacional e o amplo poder de controle e decisão que os políticos têm sobre a economia do Brasil, o que levou à prostituição do empresariado em troca de favores e benefícios. A Petrobras, o BNDES e as empreiteiras aí estão para provar isto.

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Outra reflexão que me veio à mente foi que todos os indivíduos que tiveram tal conduta idólatra para com o parlamentar pertencem à elite financeira do País, isto é, aqueles que deveriam dar o exemplo de virtude, de trabalho, de lucidez e de responsabilidade. Mas não!  No Brasil, sob estes 13 anos de governo revolucionário, parte espessa da elite ficou amedrontada e decidiu bajular o governo. Aqueles que deveriam dar o exemplo mostram como não se deve agir. Os que deveriam mostrar trabalho mostram malandragem e promiscuidade com o governo; os que deveriam mostrar lucidez, não acham nada de mais pegar um pouquinho de verba pública para acelerar seus negócios.

Essa conduta não vem, é claro, somente da elite; vem do País como um todo, de todas as classes sociais. Elas existem no mundo inteiro, é verdade, mas no Brasil ela é suigeneris. Recentemente, um programa de televisão fez um teste de honestidade onde uma câmera escondida filmava um pedestre em uma rua movimentada deixando cair a sua carteira cheia de dinheiro e documentos no chão. Ao final do teste, constatou-se que 70% dos transeuntes pegaram para si a carteira com tudo.

Hoje em dia, a canalhice do Brasil está em maior evidência por conta da sem-vergonhice ilimitada do “governo revolucionário” e sua plêiade de bandidos. A canalhice está politizada em excesso nessa nossa época, mas ela já era retratada com frequência na nossa literatura e enfatizada pelos ilustres que passaram por esta terra. Nelson Rodrigues já dizia que “o brasileiro quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte” e a sua conhecida série de contos “A vida como ela é” faz uma radiografia da realidade do Brasileiro.

Charles Darwin, quando veio a estas terras no ano de 1830, resumiu negativamente e até com certo exagero o que viu no Brasil, mas sua mensagem é de suma importância: “os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena daquelas qualidades que dá dignidade à humanidade”, disse o cientista em dos trechos mais pesados do diário em que escrevia sua rotina durante a viagem do “Beagle”.

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Também sobre o Brasil, outro trecho interessante do seu diário e bastante atual, nestes tempos de agudíssima crise moral, é o seguinte: “Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados”.  É óbvio que Darwin generaliza, mas já naqueles tempos de Império que, por sinal, houve muito mais virtudes e boas ações de nossos Homens e Mulheres de Estado do que na República, o Brasil já apresentava uma série de vícios legais e culturais que livravam a cara de quem podia pagar mais. O crime compensava e ainda, apesar das reservas morais que existem nas instituições nacionais, compensa.

O Marxismo cultural da elite socialista que nos governa trouxe ao Brasil o tipo mais ousado de todas as canalhices: o esquerdismo. Uma espécie de canalhice com estilo de Robin Hood deturpado na qual, o canalha pensa que está fazendo o bem ao tirar dos ricos para dar aos pobres e, ainda, estufa o peito alardeando aos quatro ventos que tem o monopólio da virtude, que ele é uma pessoa boa e conclama seus seguidores para seguirem o seu exemplo. Afinal, “não existe uma viva alma mais honesta do que eu!” ele pode dizer.

Nelson já observava no brasileiro uma baixa autoestima muito forte, tanto para com a Nação como para si próprio. Ele chamou isso de “complexo de vira-lata”, o que, automaticamente, denota uma revolta, um sentimento de fracasso. Mas o que originou este sentimento? As escolhas erradas, os homens errados e as virtudes erradas que o Brasileiro escolheu no decorrer dos seus 194 anos de história independente. Um país que joga fora um D.Pedro II, um Mário Ferreira dos Santos, um Oswaldo Meira Penna, um Roberto Campos, não corre, como diria este último, o menor risco de dar certo. Eu, particularmente, noto no Brasil uma decepção consigo mesmo, pois o povo percebe que podia ter feito algo para melhorar a situação, mas não fez. Um verso poético de Manuel Bandeira descreve esse sentimento: “a vida inteira que podia ter sido e que não foi.” É daí que se origina o complexo de vira-lata de que Nelson tanto falava.

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Porém, todo esse bolo de revolta e decepção fica ainda mais amargo com a cereja vermelhinha e asquerosa que é o socialismo. O socialismo é canalha desde o berço, já que começa solapando os três pilares de uma sociedade livre: a vida, a liberdade e a propriedade. Basta ler os escritos de Marx, Engels, Althusser, Foucault, Gramsci, e outros caricatos mais para perceber isto.

A canalhice moderna do Brasil, a descrença do seu povo no trabalho, o ressentimento contra os ricos, a idolatria aos corruptos e o ressentimento que se nota nas ruas demonstram, perfeitamente bem, um povo que elege os heróis e a ideologia errada. Se chegamos ao ponto de considerar Lula o maior presidente que o Brasil já teve, inelutavelmente, amargaremos a maior de todas as decepções. Se as últimas quatro eleições mostraram uma coisa é que o Brasileiro é masoquista, idolatra aquele que o quer mal; o elege, e depois diz, cabisbaixo, que está tudo mal. Ele tem esse direito, desde que o use corretamente: parando de idolatrar as duas maiores fontes da canalhice moderna no País: os políticos e o Estado.

Alguns dizem que o povo acordou, que descobriu que ele é espoliado pelo Estado e que na mesma medida deposita nele a sua esperança, que o socialismo e a corrupção estão intimamente ligados, que um Estado grande acaba com a honestidade das pessoas. Muito bem. Eis aí o caminho certo para a mudança.

A onda liberal e conservadora que surge no Brasil é algo que me enche de esperança e que conta com todo o meu apoio e com o suporte de todos os brasileiros, que ainda conservam em si decência e justiça. Essa é uma ótima hora para o País começar a planejar a sua mudança de postura rever a sua mórbida relação com a canalhice.

 

* Rafael Hollanda é estudante de direito do Ibmec-RJ.

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