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Nosso inimigo, o Estado

O homem do sistema (…) está freqüentemente tão enamorado da suposta beleza de seu próprio plano ideal de governo (…) que parece imaginar poder associá-losa os diferentes membros de uma grande sociedade com a mesma facilidade com que a mão dispõe as diferentes peças em um tabuleiro de xadrez. Ele não considera que as peças sobre o tabuleiro de xadrez não têm nenhum outro princípio de movimento além da mão que as movimenta. Mas que, no grande tabuleiro de xadrez da sociedade humana, cada peça tem um princípio próprio de movimento completamente diferente daquele que o legislador pode escolher impor-lhe.” Adam Smith – Teoria dos Sentimentos Morais

Lembrei-me da frase que dá título a este artigo – a qual, na verdade, é o título de um livro de Albert Jay Nock – recentemente, durante uma breve viagem à Costa Oeste dos Estados Unidos.

Por razões de economia, optamos pela empresa Aeromexico, com uma escala na Cidade do México.  Acreditem: foi uma péssima escolha.Tudo corria bem até que um comissário de bordo veio nos entregar formulários de imigração e aduana.  Disse a ele que não precisávamos, já que estaríamos no México apenas em trânsito, por alguma horas, no próprio aeroporto.  Qual não foi a minha supresa quando ele nos disse que, segundo as normas do governo local, todos os passageiros, sem exceção, não só teriam de passar pelo controle de imigração, como também pela alfândega.  Estupefatos, mas sem alternativa, preenchemos os formulários e desembarcamos rumo ao que seria uma sessão de quase tortura.

A fila no controle de imigração era imensa. O salão, enorme, encontrava-se absolutamente lotado, já que, na mesma hora, haviam chegado vários aviões.  Ainda bem que tínhamos bastante tempo antes do nosso voo, pois aquele tormento desnecessário durou perto de duas horas.  Só havia quatro guichês funcionando e os agentes da imigração não eram nada ágeis – sem falar da grande quantidade de gente que se enrolou ao preencher os tais formulários.

Passada aquela etapa, e depois de termos nossos passaportes devidamente carimbados pelas autoridades cucarachas, apanhamos nossas malas na esteira e nos dirigimos à alfândega, onde elas passaram pelo crivo de focinhos caninos atentos e raios X.  Para nossa sorte, o botão que fomos obrigados a apertar (sim, eles ainda utilizam esse sistema) deu verde e não tivemos de abrir a bagagem para uma checagem mais detalhada.

Depois de quase duas horas e meia, levamos nossas malas para uma sala ao lado, onde uma outra esteira as aguardava para transportá-las até o avião que nos levaria ao destino final.  Cumprida mais esta etapa, fomos encaminhados a mais uma sessão de raio X, desta vez corporal e das bolsas de mão.  Desnecessário dizer que chegamos à sala de embarque quase em cima da hora.

Minha mulher, eu e dois amigos especulamos acerca do porquê daquilo tudo.  Seria alguma exigência das autoridades americanas?  Pouco provável.  Eu já viajara anteriormente para os EUA com escala no Panamá e nossos amigos com escala no Peru, sem que nada disso tivesse sido necessário.  Sei que há muito cuidado das companhias com bagagens viajando desacompanhadas, mas esta é uma checagem fácil de se fazer, sem que seja preciso obrigar tantas pessoas a passar por um transtorno daqueles.

Enfim, ficamos sem saber.  Meu chute é que o governo mexicano estaria inflando artificialmente os índices do turismo, “imigrando” um monte de gente que jamais deixou o aeroporto.  Minha mulher acredita tratar-se de uma forma de o governo dar emprego a mais gente, algo similar a contratar pessoas para cavar e fechar buracos.  Mas é tudo especulação.  (Se alguém souber as razões reais, por favor, compartilhe, pois minha curiosidade não para de crescer).

Na volta, ainda tínhamos uma certa esperança de que não haveria nada daquilo.  Quem sabe, os mexicanos não estavam apenas cumprindo algum acordo diplomático anti-terror com os EUA?  Infelizmente, entretanto, não era nada diso e tivemos de passar por todo aquele suplício novamente.

Ainda durante o voo, quando o comissário veio entregar-me a papelada, perguntei-lhe se ele sabia a razão daquilo.  Disse-lhe que já havia estado em trânsito em diversos países e nunca vira algo semelhante.  O gajo, que parecia meio irritado com as minhas perguntas, só sabia dizer que eram exigências do governo e eu teria de cumpri-las.  Aleguei que não pretendia, de forma nenhuma, desobedecer uma determinação do Estado mexicano, até por absoluta falta de opção, e só queria mesmo entender os porquês daquela aberração.  Ele voltou a dizer que eram as leis do México e eu teria de cumpri-las, gostasse delas ou não.

“O.K” – disse eu – “obrigado.  Mas saiba que esta é a última vez que viajo por uma empresa aérea mexicana, embora viaje pelo menos duas vezes por ano para os EUA.  Infelizmente, seu governo está ajudando a dificultar as coisas para a empresa que lhe paga o salário e isso pode causar-lhe algum prejuízo pessoal no futuro.  Se fosse você, o mínimo que eu faria era tentar saber qual o motivo dessa norma estúpida.”

Acho que joguei palavras ao vento, pois meu interlocutor parecia daqueles sujeitos que ainda acreditam na sapiência, na onipotência e na enorme capacidade dos governosde só fazer o bem.  Certamente, nunca leu Adam Smith ou Albert Jay Nock.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

Um comentário em “Nosso inimigo, o Estado

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    27/11/2014 em 1:42 pm
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    A única “luta de classes” que se pode comprovar na história é a luta da classe estatal contra a classe produtiva. Ou seja, a LUTA das CLASSES que VIVEM de RECEBER IMPOSTOS contra as CLASSES que PAGAM IMPOSTOS para que lhes seja PERMITIDO VIVER do seu trabalho honesto.

    Em toda a história sempre teve aqueles indivíduos que almejavam o PODER para não só ter todos os demais a servi-los materialmente, mas também para se envaidecerem de sobreporem a sua vontade aos demais.

    Lincoln disse que “a escravidão é inerente ao homem” e Aristóteles percebeu que há homens com ALMA de ESCRAVO. Assim, aqueles que almejam escravizar, impor suas manias e caprichos aos demais ainda explorando-os materialmente, sempre encotram aqueles que almejam servir a um senhor e mesmo representarem-se no senhor, a fim de que a glória do seu senhor lhe seja também gloriosa. Esses com ALMA de ESCRAVO tem um desprezo por si mesmos que preferem representantes externos, não querem realizarem-se em si mesmos, mas em representações FETICHISTAS. Assim, escolhem um “time” qualquer para representa-los e se entregam a tal na esperança de que esta entrega absoluta os torne “mais representados” ou que o “time” mais o represente por tal. Tal fetiche representativo produz não só TIMES esportivos como produzem “times” ideológicos, como partidos, ideologias ou religiões e nacionalismos, gangs e quadrilhas, bem como ídolos ou totens que são cultuados pelos pretensos representados por algo a si superior e por tal diviodindo com estes “auto-pulhas” uma GLÓRIA por TABELINHA.

    Cada um escolhe aquilo que pretende que o represente. Procura mitos representativos com os quais se identifique e a eles se associa como se um pedaço de um “corpo coletivo” com a pretensão de partilhar de sua glória dada a identificação torcedora.
    Assim, os que almejam ser senhores e receberem a reverência de seus adoradores submissos tanto quanto o sustento, sempre encontram aqueles que sonham com mitos representativos para a eles submeterem-se servilmente ou animalescamente.

    A classe efetivamente unida e que possui uma ideologia como infraestrutura e mitos, totens e a organizações como superestrutura.
    Claro que as CLASSES RECEBEDORAS de IMPOSTOS se fazem HEGEMONICAS sobre a sociedade produrtiva:

    A verdadeira Luta de Classes é efetivamente a Luta do Estado contra a Sociedade que este explora, como um pecuarista explora o seu rebanho. Não por acaso a ideia de glorificar o rebanho e mesmo a servidão. Assim mais facilmente oferecem orgulho aos submissos e rastejantes.

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